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O Encantador de Palavras

1
C.E.P · Rio de Janeiro, RJ
7/6/2010 · 1 · 0
 

Era fim de noite. E os dois homens entraram calados. Na sala pequena. Esperaram. Dez. Vinte. Trinta minutos. O mais novo falou primeiro:
- Vou embora.
-Fica, retrucou o outro.
-Tá demorando.
-Fica. Você não entende. Fica e vai ver. Lembra o que eu disse? Não fala nada, põe os 500 reais na mesa. Não importa o que aconteça, não fala nada.

O velho apareceu. Olhou para o mais novo e num meneio chamou-o a entrar. Sentaram um de frente para o outro. Uma pequena mesa entre os dois. O velho tinha o rosto cavado, a barba mal-feita e uns olhos baços de quem havia vivido mais do que devia. O dinheiro foi posto sobre a mesa. O visitante olhava com raiva. O silêncio escorreu quase sem fim, até que o velho começou a escrever. Uma carta longa, lenta. Quando terminou, colocou o papel em um envelope e começou a passar cola na borda.
- Ei, ei. Espera aí, eu quero ler antes.
O velho impassível, com movimentos pausados mas firmes, parecia não ter ouvido.
- Ei, eu paguei. Quero ler antes. Não vou entregar a carta para ela assim. Quero saber o que está escrito aí.
- As palavras têm destino. Estas não são para você, disse o velho.
- Eu paguei, vou ler.

O velho mirou o dinheiro e com um leve gesto de cabeça mandou que o outro pegasse as notas. O mais jovem tirou uma arma do bolso e apontou para o homem. Enquanto colocava o dinheiro no bolso, falou:
- Me entrega a carta.
- As palavras não são para você, repetiu o velho.

O outro puxou o cão da arma e tentou tomar a carta do velho num gesto rápido. O velho desviou para trás ao mesmo em tempo que terminava de passar a cola. Entregou a carta para o rapaz:
- As palavras não são para você.
O outro:
- Velho de merda.
Meteu a carta no bolso e saiu rápido.

- O que houve, perguntou o homem que esperava.
- Nada, vamos embora.

Enquanto saiam, o velho apareceu à porta. Olhou os dois se afastando e ficou ali parado enquanto os outros iam embora.

Os homens se separaram cerca de 500 metros depois. Abraçaram-se rápido e seguiram adiante. O mais novo na direção de uma luz pequena e longínqua. Andou rápido e assim que pôde rasgou o envelope. Tentou ler, mas estava muito escuro. O breu da noite se impondo. Andou mais rápido e por duas vezes pensou ter visto o velho – “as palavras não são para você”. A raiva crescendo e a luz chegando. Velho de merda, pensou. Ao chegar embaixo do poste, abriu a carta novamente e de novo pensou ter visto o velho – “as palavras têm destino”.

Esticou o papel entre as mãos e começou a ler. As frases, no entanto, não faziam sentido. Mais que isso, as palavras pareciam não estar lá. Ele as via, as lia, mas era como se algo se perdesse no caminho. O sentido. A razão.

Foi visto no dia seguinte, vagando por uma pequena estrada. O papel agarrado à mão esquerda, o olhar vazio, sem reagir a nada. Um morto-vivo.

Chamaram seu pai – o homem que o tinha levado até o velho. Depois, um médico. Uma benzedeira. Os dias passavam e as tentativas vãs sucediam-se. O rapaz impassível com a carta agarrada à mão. Bobo de todo.

Enfim, o pai armou-se de coragem e voltou ao velho. Entrou tímido na sala, com um olhar suplicante. O velho, compassivo:

- As palavras não eram para ele.

O pai calado e imóvel ficou olhando numa espécie de transe enquanto o velho subiu num ginete de patas viradas para trás e desapareceu na bruma que se instalou na sala. O pai parado, só teve tempo de lembrar o que o velho havia dito quase 30 anos antes:

- As palavras têm destino e também precisão.

Mas isso o filho nunca soube.

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Autoria
Carlos E. Pollhuber
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