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O espelho de Kafka

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Reinaldo Chaves · Bauru, SP
7/2/2007 · 77 · 3
 

kaf.ki.a.no adj
Relativo a Franz Kafka, escritor nascido na Tchecoslováquia (1883-1924), que usava a língua alemã. sm Admirador ou estudioso de Kafka.

Quando a obra de um escritor causa muita influência entre seus leitores, ela geralmente se transforma em adjetivo. Mais ainda: determinados autores têm seus estilos e idéias tão disseminados que, mesmo as pessoas que não os leram, aprendem que certas ocasiões da vida representam a obra daquele escritor. O termo kafkiano é um dos maiores exemplos. Verdadeiro lugar-comum usado sempre quando aparecem situações absurdas no cotidiano humano.

Os contos e romances de Kafka contam histórias de pessoas oprimidas pela família, pelo Estado, pela justiça ou burocracia, enfim, todo os mecanismos sociais que alienam o homem e atacam sua individualidade com o intuito de manter normas e condutas preestabelecidas. Essas formas de coerção nos escritos de Kafka apresentam-se nas formas mais bizarras possíveis, de modo que à primeira vista parecem completamente inverossímeis. Mas então por que muitas vezes nos sentimos tão próximos de seus personagens e conflitos?

O mundo contraditório e traumático que Kafka descrevia em seus livros era seu próprio mundo. Com a leitura das cartas a seus parentes, amigos e mulheres, e sobretudo lendo seu diário, descobre-se que a literatura de Kafka era um reflexo quase que completo de sua vida. Primeiro a difícil relação com seu pai, Hermann Kafka, comerciante de Praga avesso às artes, descrito como autoritário, explosivo e mesmo agressivo. Em 1919 Kafka enviou uma carta a seu pai, onde expôs toda a dor dessa relação. Mais tarde ela foi transformada em livro, "Carta ao Pai". Um fragmento revelador fala da submissão do jovem Kafka: "Quando começava a fazer algo que não era do teu agrado, e me ameaçavas com o fracasso, o respeito por tua opinião era tão grande que implicava, embora fosse mais tarde, que o fracasso era irremediável. Perdi a confiança em minha ação."

Kafka dizia abertamente que queria sair dos domínios de seu pai, e para isso acabou optando por uma profissão que não era de seu agrado. Formou-se em Direito e trabalhou por 14 anos em uma companhia de seguros contra acidentes do trabalho. Ocupação para ele alienante e burocrática, da qual se queixou em seu diário no ano de 1913: "Meu emprego é insuportável porque se opõe ao meu único desejo e minha única vocação, a literatura. Como eu não sou outra coisa que literatura, e não posso e nem quero ser outra coisa, meu emprego nunca conseguirá apoderar-se de mim, ainda que possa a chegar a destroçar-me totalmente. Não falta muito para isso."

Desse modo as histórias fantásticas de Kafka, com inocentes sendo condenados pela justiça, homens se transformando em insetos, leis estúpidas e sem sentido, órgãos do Estado reprimindo pessoas abertamente e naturalmente etc. são metáforas de sua vida. Para Kafka escrever, como ele dizia, era um exercício de conscientização de sua situação. Uma espécie de fuga da realidade opressora, um próprio mergulho no subjetivismo. Entretanto os escritos kafkianos desenvolvem uma estrutura mítica onde, partindo de seu individualismo, se chega ao universalismo. Isto é, Kafka representando sua própria vida em sua literatura também mostra a vida das sociedades ocidentais deste século. É uma própria síntese de um universo repressor e absurdo.

Kafka passou a maior parte de sua vida na Tchecolosváquia, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, mas o que ele escreveu não dizia respeito apenas a seu lugar e época. O simbolismo de suas obras diz respeito a qualquer opressão da consciência humana em qualquer sociedade reificada ou coisificada que seja dominada por mitos do poder, seja em regimes capitalistas ou socialistas (continua no anexo.

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Autoria
Reinaldo Chaves
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dedalu
 

Olá Reinaldo,

bom texto. Não seria interessante colocar a Engrenagem para ilustrá-lo?

Abraços.

dedalu · Belo Horizonte, MG 6/2/2007 10:24
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
procuradosaber
 

Me lembro desse texto de algum lugar!! Se não me engano ele mudou pra sempre a minha vida! É um texto muito bom, muito mesmo!

Abraços,

procuradosaber · São Paulo, SP 6/2/2007 22:36
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Lígia Saavedra
 

Reinaldo. muito obrigada pelo resumo da vida desse tão admirável personagem da história mundial.

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 5/11/2007 22:23
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