O estranho caso da máquina de limpar café
O Seu Farnese, morava "na Brasília" como ele mesmo dizia. Tinha um sítio aqui em Nazareth de Minas, beirando a represa de Furnas, onde criava porcos engordados com as mandiocas que ele mesmo plantava.
Fora chamado pela minha sogra, para ajeitar a "D'Andrea", máquina nova, que estava ainda na caixa, para monta-la e fazer um meio, que pudesse toca-la.
Fazenda sem luz, deveria ser motor a diesel, todos pensavam, pois seria mais lógico.
Farnese, como era das experiências quase sempre bem sucedidas, avisou pra minha sogra, que faria umas adaptações no engenho de cana, que era movido pela grande roda d'água, usando esta mesma força para tocar o descascador.
Explicou a grosso modo, que bastaria substituir umas roldanas de jacarandá, por outras, que ele mesmo faria, colocando uma tal de "polia louca" substituindo a embreagem, para dar embalo no limpador, depois de devidamente montado.
Colocou-se a trabalhar, à sombra da paineira, munido da sua enxó espanhola legitima, marca "bellota", bem afiada, pois os entalhes na feitura de novas engrenagens teriam que ficar perfeitos.
Trabalhou na montagem meses a fio, pois não cobrava por dia, os acêrtos eram feitos no final, caso tudo desse certo, o serviço contratado. Não que minha sogra quisesse, mais porque ele era sistemático no seu modo de agir...
Tudo montado, calculado, lugar livre de algumas marcas do engenho, pois agora o cômodo era bem mais valorizado com a presença de uma maquina de limpar D'Andrea, limpadora para produzir limpos e ensacados, 20 sacas de café bem apurado, apesar de ser ela "bica corrida", com um só expelidor de escolhas...
A confiança era tanta no seu trabalho, pois não era o primeiro que fazia, tinha feito na Fazenda Floresta e outros sítios, tudo saindo a contento, que convidara todos, num sábado, a se reunirem no antigo engenho, para assistirem a limpa de café em coco, que já tinha sido seco, das primeiras remessas que o terrereiro Zico, já tinha preparado.
Grita de alto e bom som para soltarem a água do rêgo, pois as roldanas e engrenagens já estavam bem untadas com azeite de mamona, por ele devidamente preparado.
A água é liberada facilmente, e se encaminha para a roda, que preguiçosamente começa a se movimentar, aumentando aos poucos a rotação, a medida que suas caçambas vão enchendo.
As engrenagens começam a se movimentar, por enquanto livres pela polia, que começa o giro até dar a velocidade necessária ...
Seu Farnese corre e aciona a alavanca, que fará com que a força da roda finalmente faça a máquina trabalhar e proceder a limpa.
Alavanca solta, a maquina recebe a força e começa trabalhar. Começa limpar café: Todos se alegram: A maquina joga café limpo na saca...
Súbito! Um barulho estranho se faz ouvir...O ranger da máquina indica que algo saiu errado...Ela contrapõe a força da roda, joga café em coco pelas caçambinhas, embucham, travando de vez a máquina, fazendo Farnese correr pra alavanca, liberando a força para a polia louca!
Depois de desembuchar a máquina e tentar por quatro vezes, finalmente desiste de continuar suas tentativas...
Todos olham para ele, como que indagando o que acontecera. Afinal quase nunca tinha falhado assim tão desastradamente...
Farnese, sai com a cabeça baixa, envergonhado e confuso, jurando que tinha feito tudo certo, mas já era tarde, arrependido de ter convidado todos, antes de experimentar seu empreendimento...
Minha sogra depois, colocou um motor a diesel potente de "dez cavalos" para substituir todo aquele aparato, mas em vão : O mesmo aconteceu:
A máquina embuchou e quase fundiu o motor.
O pai de minha sogra resolveu comprar-la e leva-la para sua fazenda, instalando-a com um motor elétrico "Búffalo" de "dez cavalos".
Quando ligou o motor pra tocar a limpa, a máquina embuchou novamente, queimando um de seus velhos motores made em USA.
A máquina foi desmontada e colocada no porão...Suas roldanas serviram de reposição e sucata, bem como as polias,,, Até que um dia, contei o caso para um amigo, acostumado revisar máquinas: O que me disse convicto o Zé Murad:
Victor, pega a D'Andrea, compra as peças que estão faltando, que eu monto ela pra você e faço funcionar...
Falei para o avô da minha esposa que compraria a máquina, o que ele me respondeu incrédulo também, que eu faria um favor se a pegasse no porão para desentulha-lo.
Fui com meu jeep e carreta, peguei o que sobrava dela e entreguei para o Zé, que me disse que o problema estava na sururuca, Erro de fábrica, montaram as peneiras invertidas, fazendo o café se amontoar dentro dela mesmo...
O Zé Murad concertou o erro de fábrica, fazendo uma máquina de quarenta anos atrás, ainda virgem, trabalhar compassadamente, silenciosa qual relógio...
A máquina é da marca D 'Andrea, de pouca produtividade, somente 20 sacas por dia, mas serve bem a meus propósitos. A Fábrica errou ao inverter as peneiras, se não tivesse ocorrido este engano o "Seu Farnese " teria tido exito no seu empreendimento, não teria se sentido desprezado e minha sogra não teria tido tantos prejuízos, bem como o avô de minha esposa...Mas também, a máquina não teria terminado aqui comigo, funcionando até hoje.
Fazenda Soledade, ano de 1962, Sul de Minas, Brasil.
Oi Victor. Aqui apreciando este seu trabalho de fato insólito!
Luz e Paz.
Victor, só você para me fazer para o trabalho para mergulhar num causo. Que delícia! Escreva mais e mais, é sempre um grande prazer ler suas postagens. Um grande abraço meu amigo!
Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 19:34Bela narrativa ao bom estilo campesino meu caro Victor! Beleza pura!
raphaelreys · Montes Claros, MG 12/2/2009 19:45
um ótimo texto.
depois eu volto.
Suas histórias são sempre muito legais de ler, pois nos transportam prum brasil bem brasileiro, do jeito que a gente gosta !
Mas, vou te dizer : tadinho do Farnese !...foi derrotado justamente pela sururuca !!!...que coisa , hein !...rsrs
Extraordinário !
( qq dia ve se me manda ai uma mãozinha do seu café, poxa !...vc só fala , só fala e num oferece !!!...rsrs)
abraço
Big Joe!Brigado, vou mandar pelo Ze, meu genro, que e de Sampa uma prova do cafe daqui...ce depois me diz se gostou. Just a moment, please! Tinha que mandar pra todo mundo..^.oroganedu^
abraco
jeito de escrever leve como uma pluma. Bela história informativa que divertir como frenesi o leitor. Narrativa densa e que nunca será enfadonha. valeu, parabéns meu camarada. A foto deste velho caminhã também é bárbara... a copiei pra mim. Abraçosss
José Cycero · Aurora, CE 12/2/2009 21:13
Ayroman, obrigado amigo pela atencao,
abracos
Rapha, o nosso Mestre das narrativas, e uma honra seu comentario, obrigado amigo,
abracos
Que legal, gostei da leitura, leve e não enfadonha!
Manda um café pra mim! rsrs...
bjs
Diná
victorvapf · Belo Horizonte (MG)
O estranho caso da máquina de limpar café...
Um Texto incrível como todos os seus textos.
Náo só pela descricáo do importante fato Histórico ocorrido, mas pelo que envolve de Sentimento Humano.
Tanto Trabalho e tano sacrifício dos que trabalharam e em especial o Seu Farnese.
Espoero que ele tenha sabido deste final.
Seria pra ele uma alegria imensa. Um alívio no coracáo.
Deveris Procurar avisas aquela gente que ainda estivesse viva, que conheceram o fato, para saberem também que houve este final diferente, do que se imaginou naquela época.
Acho que deveria até de rezar uma missa de Acáo de Gracas.
Impressionante este fato.Náo custa nada levar até mais a frente o carinho com o ocorrido.
Deus seja Louvado.
Parabéns pelo Trabalho.
Abracáo Amigo
Azuir, o desgosto dele realmente foi grande porque me lembro de ve lo entalhando muitas engrenagens de jacaranda com seu enxo.Fazia uma peca com grande maestria , coroa, peao, tudo para encaixar nas novas engrenagens. Ele modificou a rotacao do engenho usando uma chamada por ele de polia louca que com uma alavanca fazia imprimir naquelas engrenagens a nova rotacao que precisava para ser mais veloz. Sem nenhum estudo, somente usando a pratica, pois as polias tambem tinha que fazer. Devia ter tirado fotos, a gente nunca tira fotos do que precisa...
Ele depois fez outros trabalhos e ficou sabendo que o descascador tinha dado errado tambem na fazendo do avo de minha esposa, quase queimando um motor eletrico Buffalo, de 10 CV. Ele dizia que tinha alguma coisa errada...Ninguem nunca pensou que a Fabrica pudesse ter errado na montagem da Vazadeira, aonde as peneiras nao descascavam o cafe... E a mesma coisa que voce querer ralar queijo usando o lado que nao rala, do ralador,,, Na decada de 80 e que eu instalei aqui a maquina teimosa, com a inversao correta das peneiras. O avo de minha esposa,essa eu tenho a foto, mas esta la em casa em BH, dele olhando a maquina trabalhar e descascando o cafe...macia, quase sem fazer barulho,,,incredulo, vendo o cafe limpo cair na sacaria...
O Seu Farnese acho, nao ficou sabendo, nao sei se nos deixou antes ou depois de 80. Mas ele teve a satisfacao de saber que nao conseguiam fazer a maquina trabalhar...
Obrigado Azuir por comentar um caso veridico, simples mas que provocou inumeras consequencias que a gente nao consegue medir,
Obrigado e abracos
Café....coisa boa. Esa foto tem sabor de trabalho
de Portinari...o que é bom tem conserto.
Cintia, e verdade! Acho que um quadro de Portinari era simples para sua leitura...rsrsrs
Beijos
Acho que de uma maneira ou de outra estou contribuindo para o aumento do consumo de cafe...rsrsrs o mercado interno tem que fortalecer, os precos estao abaixo dos custos de producao...
Quem sabe num proximo encontro eu levo um pouco do cafe proces provarem...
Meu avô construia rodas d'água e jardineiras. Acho-as muito bonitas e seu funcionamento muito interessante.
Seu texto é agradável e bem escrito.
Votado Ivette G M
D' Andrea, DESDE 1962!
Êta causo bão sô!
Parabéns Victor
Parabénens Victor,
Casos típicos da zona rural que narrados com a sua competência se tornam deliciosos de ler. Era muito comum mesmo, naquela época, Os "Farneses" que montavam e desmontavam engenhocas e davam um jeito pra tudo.
Votado com louvor
Abraços
Jose, obrigado amigo pelo comentario,
abraços
Neutzscha, (nao errei o nome nao) Obrigado amiga pela presença,
abrs
Agenor, partindo de voce, so tenho agradecer,
abraços
Grande Robert, obrigado pela presença,
abrs
Ivete, obrigado amiga.Quem tem uma roda d agua, tem energia de graça, obviamente, agua pra toca la...
bjs
Bem narrado, Victor. Chega a ter sabor de café com rapadura, nos tempos do fogão a lenha. Parabéns!
Votado.
victorvapf · Belo Horizonte (MG)
O estranho caso da máquina de limpar café...
De Volta com carinho e admiracáo pelo Trabalho.
Até emociona pelo que ocorreu.
Uma História que tinha de passar a limpo cm pelo menos os descendentes dos que participaram como um botar os pingos nos iii.
Principalmente com o pessoal do Sr Farnese.
Mais um texto admirável que jamais sairá da nossa memória.
Uma Licáo para todos nós diante das dificuldades e problemas da vida.
Amigo Querido, se puder informe aos descendentes do Sr Farnese.
Informe como sendo muito importante.
Valeria pela intencáo.
Valeu demais o seu trabalho. Toca no coracáo da gente, comove a gente.
Parabéns.
Abracáo Amigo
Azuir, vou procurar saber, parece que um filho dele foi morar no seu sitio que ficou muito tempo abandonado com as coisas dele la.
Mas todos pelo menos ficaram sabendo que a maquina nao funcionava, pois ele foi o primeiro a espalhar a noticia. Todos deviam dizer
O Farnese nao conseguiu, mas ninguem tambem...
Vinte anos, depois da maquina virar sucata, todos se esqueceram dela, eu e que recuperei a mesma, depois de adquirir todos rolamentos, algumas polias e todas correias, com o Jose Murad expert no assunto e que mostrou o defeito de fabrica...o descascador, duas peneiras, a parte do ralo estava invertida e a parte lisa pra dentro, logicamente nao ralando o cafe. Ele recolocou as peneiras no lugar e a maquina funcionou que e uma beleza, ta aqui na tulha, eu ainda estou usando...Vinte anos ninguem se lembou mais...
Se eu encontrar com filho ou parente dele, vou contar a estoria, porque ele era gente boa e merece!
Obrigado amigo, voce e que nos faz tocar o coracao...
Muito bom causo , bem contado , parabéns pelo trabalho , deixo aqui meu voto e admirações . Abraços...
delen · Cotia, SP 15/2/2009 13:46
Victor, então estamos combinados. Nas minhas férias vou provar desse cafezinho e conhecer a famosa máquina!
Abraço!
Stella, aqui nao e tao longe nao. E so pegar o carro e vir quando quizer, a maquina esta aqui, ando usando umas volantes, porque limpam rapidamente e pouca mao de obra...
abracos
Belas coisas de Minas à la Rosa... abraços.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 21/2/2009 14:41
Ei Victor, que memória, hein?
Coitado do seu Farnese. espero que tenham falado para ele que o erro não era dela, e sim de fábrica.
Beijos
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