O FANTASMA DO SINO
Estórias de assombração normalmente não passam de longas anedotas, contadas com um bocado de exagêros e, quanto mais distantes da realidade nossa de cada dia, mais atraentes se tornam.
Meu pai jamais confirmou o "causo" que ora relato -- cujos detahes me foram repassados por seu ajudante de caminhão, o "Zé Mineiro" -- não só por ser êle um tanto ateu mas também porque, poço de vaidades, nunca admitiria ter tido medo de algo que só existe mesmo na imaginação de uns quantos por aí.
"Zé Mineiro" era um jovem caminhoneiro a serviço de meu pai fazia longo tempo, espécie de "pau para toda obra" mentiroso como êle só, vício que acabou por deixá-lo na rua (ou estrada) da amargura, quando o "velho João" encheu-se de suas trapalhadas.
Meu pai, com quase cinquenta anos de direção nas costas, tinha vindo, visto e vencido os primeiros quilômetros da recém-criada Rodovia Transmazônica, nos anos 70 e, qual bandeirante pós-atòmico, arquivara histórias horrendas e fascinantes das suas viagens pela majestosa "barrovia". (ver 1)
Certo dia perdido no tempo, numa curva da Rodovia, papai deu de cara com um sujeito implorando socorro, buracos de bala na camisa ensanguentada e metade do rosto em chagas, com vermes dançando na ferida infecta. Insubordinara-se com os maus-tratos na fazenda e o capataz, como exemplar castigo, levara-o ao "paredón", enterrando o "morto" em cova rasa, onde permaneceu talvez por 30 ou 40 horas.
"Zé Mineiro" não é desta fase... meu pai o conhecera quando transportava minério para a Cia Vale do Rio Doce, entre Congonhas do Campo e a cidade fabril de Volta Redonda. A dupla pegava fretes de um ponto a outro do país, verdadeira loteria, ficando retidos num local à espera de carga às vezes por até duas ou três semanas.
Numa dessas viagens, noite alta e alguns goles de vinho a mais ( que o sereno estava frio!), papai ía ao volante, o que não era comum. "Zé Mineiro" parolava alegremente quando interrompeu o "lero-lero" para indagar apreensivo:
-- O que foi isso, "véio João", paréci baruio di sino ?!
Papai, que não ouvira nada, deu pouca importância à declaração do parceiro, fruto de excesso de vinho, com certeza.
Não demorou um minuto lá vem o mineirinho de novo com a mesma ladainha, agora com um tom nervoso na voz:
-- Credo in cruiz, sarve Rainha, Mãe de Misericóidia... o que havéra di sê, meu Pai do Céu? O sinhô não 'tá ouvino nada mêrmo ?!
Meu pai ouvira... Aconselhou calmamente ao rapaz que deixasse de besteiras, era só uma peça qualquer do caminhão que se soltara. De nada adiantou o arrazoado. O ajudante, de olhos arregalados, tornar-se histérico, falava aos berros em visagem, assombração, almas penadas, homens de chifre e pés de bode, com cheiro de enxofre e coisa e tal. E o diabo (êpa!) do sino badalava cada vez mais alto, era um gemido metálico e dolente no gélido negrume da estrada, as sombras bruxuleantes das árvores avançando seus corpos disformes sobre o caminhão.
-- Pisa, pisa fundo "véio João", que não vai sê hoje o meu dia! Por Nossa Senhora da Conceição, só quero morrê se fô lá no meu chão !
O pânico do "Zé Mineiro" era autêntico e, quando falou em morte, tocou num dos pavores secretos de meu idoso pai, que tinha horror a cemitérios. O medo mudara de dono e o maldito sino amplificara o sinistro som por toda a cabine do caminhão.
O velho João, todo adrenalina, exigia o máximo do veículo que gemia e corcoveava como alazão chucro num rodeio, as mercadorias quase rompendo as cordas na carroceria abarrotada.
Ao longe, no cimo de íngreme subida, avistaram uma luzinha tremeluzindo na escuridão, quase a tocar os céus. Era uma casa, uma pousada salvadora...
(continua no COMENTÁRIO)
O FANTASMA DO SINO (final)
Ao longe, no cimo de íngreme subida, avistaram uma luzinha tremeluzindo na escuridão, quase a tocar os céus. Era uma casa, uma pousada salvadora, a porta do Paraíso, a solução abençoada.
O caminhão inteiro tremia como geléia, os dois motoristas nem se apercebiam disso porque tremiam êles ainda mais e o veículo voava por cima de lombadas e buracos, enquanto o sino fantasmagórico invadia-lhes a amedrontada alma.
A luz no fim da serra (pléin, pléin) transformara-se em imenso farol (pléin, pléin) a iluminar tudo em derredor (pléin, pléin) e papai vislumbrou parado na beira da estrada, bem lá no alto, um outro caminhão. Finalmente, estavam salvos !
Aproximou-se à toda, freou com violência e estardalhaço, desceram ambos esbaforidos da boléia do caminhão e deram de cara com um gaúcho típico, de bombachas, bigodão e chapéu, a desenformar um imenso pneu que furara, com o auxílio da marreta e de uma cunha maciça de aço.
O barulho produzido pelo insano trabalho (pléin-léin-pléin) do solitário herói das nossas estradas em tudo se assemelhava ao badalar de um sino e a lâmpada elétrica alimentada à bateria abrilhantava a cena.
O gaúcho olhou espantado para a dupla de companheiros de lida e perguntou sorrindo:
-- Bah, tchê, o compadre terá visto alguma assombração por ai? Do jeito que vocês chegaram... quem vê, pensa logo que os amigos viram algum fantasma ! Eh, eh, eh!
Meu pai presenteou "Zé Mineiro" com um olhar furibundo, este encolheu-se todo receando ver o velho João agarrado em seu frágil pescoço e, ansioso para "limpar a barra", retrucou sem grande convicção:
-- Vimo' nada não, seu moço... nóis 'tamo é cum pressa mêrmo, né "véio João" ?!
"NATO" AZEVEDO
(ver 1 -- OBSERVAÇÃO: a pequena visão dos mandatários do OVERMUNDO impede aos escritores de realizar um texto limpo, sem "divisões" desnecessárias e, principalmente, incômodas. Apôr parte dos textos aqui e o restante no tal de DOWNLOAD é uma estupidez, quando se tem apenas para comentários 5 MIL TOQUES, ao invés do míseros 3.000 e poucos do espaço principal.
Por descuido, deixei trecho do texto original de fora da Edição e, agora, devido ao exíguo espaço, não posso pô-lo no local original, ficando o mesmo como mero "acréscimo" no final da obra.)
Os primeiros dias dos desbravadores que singraram aquela veia amarela tatuada no corpo verde da imensa floresta são uma saga ainda não inteiramente contada aos seus pósteros. Tribos de índios ferozes a impedir a passagem dos velhos caminhões GMC, pontes caídas, veículos tombados dentro de rios, atolados ou quebrados, serpentes monstruosas espraiadas ao sol no leito arenoso da estrada, onças famintas saltando sobre o capô do motor e nordestinos aos trapos pedindo carona, fugidos de fazendas próximas nos quais estavam sendo escravizados.
Nato,
O conteúdo deste é excepcional.
Aliás, seus temas são instigantes...
Bons de se ler.
Abçs.
Mr. BENNY... quanta honra ver tão ilustre figura visitando meus rabiscos. Mas, não se iluda: a única coisa verdadeira (digo, contada por meu pai, em noite enluarada sob os céus vigilengos) é o sujeito ensanguentado que tentou entrar na marra no caminhão.
Declarou meu pai que, temendo que o peão estivesse sendo seguido, largou o sujeito à própria sorte no meio da mata. Tinha carga de valor para entregar em Belém e não podia correr riscos. TUDO O MAIS aí em cima surgiu da mente poluída deste Autor.
Rapaz! Que texto é esse? Nossa quanta lembrança! Que vida recheada dos tempos destes Brasssisss. Só a foto já deixa a gente arrepiada, pois era o tempo de que o povo acreditava, amava a Pátria...Transzamazônica...Nordestinos sonhadores...punjança, mas atrás disto, das fotos da Realidade, do JB e Estadão havia muita luta...
inglória? Esse sino repica...Cruiz SeuMoço!
Nato, mais um para copiar. (guardar)
Fã. Votado
Historia bem loka. muito bom mesmo. abraço.
j.alves · São Paulo, SP 7/1/2008 21:24
Seus textos são maravilhosos, Nato!
Eu, que adoro histórias de assombração, amei!
Mas o mais importante é a história real, dos "desbravadores que singraram aquela veia amarela tatuada no corpo verde da imensa floresta". Muito bom.
Abçs.
Votado e publicado, ilustre amigo!
Olha Nato, Nada mais antigo, depois da criação, que o medo de fantasmas. E mais ainda das peripécias, da capacidade de ação de tantos fantasmas. Posso garantir que já os "vi" e muitos. Vi ali mesmo "o vulto".
Mas legal, e mais ainda na tua forma de rememorar,
um abraço andre.
Nato, feliz ano novo!
Adoro estórias de fantasmas, principalmente com final (quase) feliz, ou sej, quando o fantasma se revela muito vivo!
Sua história é deliciosa, como sempre.
Gostei de observar como mudam as frases a partir da primeira "badalada" do sino. É fantástico.
beijos.
CINTIA, querida... "te devo" 3 visitas. (Prometo compensá-la!) Mas, você tocou no ponto certo: naqueles tempos eu me arrepiava todo quando tocava o Hino Nacional. Lembro que todo mundo largava imediatamente o que estava fazendo, se perfilava com a mão direita sobre o coração, tirava-se o chapéu, era um respeito danado ao país, à terra onde se nasceu, ao Hino e à Bandeira.
Tudo se perdeu graças aos DELFINs, SIMONSENs e tantos outros que, achatando o salário mínimo, matavam por subnutrição boa parte das crianças e afligiam pais e mães.O dinheiro do salário se ía por inteiro lá pelo dia 18 ou 20... o resto se resolvia com "fiados". Quando chegava o mês do "aumento" anual (no DIA DO TRABALHO, 1º de maio) as empresas aumentavam TUDO uns 40 dias antes, sem que ninguém as impedisse. "Avante, Brasil... salve a Seleção"! País azarado esse: os canalhas e patifes acabam todos no Poder, nos governos, nas prefeituras... quando a Nação conseguirá melhorar ?! NUNCA !
J. ALVES, meu caro... seja benvindo e tome mais um cafézinho!
NYDIA, minha flor, "isso aqui" já foi chamado de INFERNO VERDE. Para mim, por razões particulares, continua a ser "um inferno", embora eu tenha amigos que minimizam o calor da "caldeira".
Mas, "gwntw de fora" costuma não ter boa vida nessa parte da Amazônia chamada Pará.
Existe até um livro publicado nos anos 50 por uma judia vinda dos campos de concentração que passou "o diabo" na área do garimpo e anotou tudo no livro "HUMILHAÇÃO E LUTA - Uma Mulher no Inferno Verde", com uma capa muito "sugestiva" e explícita.
Huuummmm, ANDRÉ e SARAMAR... duas jóias raras desta "biblioteca" virtual. Então, vocês gostam de fantasmas?
No Pará é difícil vê-los, tudo é feito às claras, sem preocupações com nada. E são todos "apadrinhados", protegidos por mão forte, por grupos arraigados ao Poder desde longa data. Pra quê lençóis e noite escura, se ninguém irá os esconjurar?!
Pois é Nato, voltei pra reler aos saltos "contando historia", par aa Luiza, (minha filha de 8 anos). Ontem a noite pela 4 noite assistimos ao "Jeca Tatu" de Mazaropi, ela dorme no meio e no outro dia quer continuar. Hoje falei vamos - xô contar um aHistoria.........
um abraço, andre.
Amigo, que maravilha ler tuas lembranças.
Continuo achando que vc merece um livro inteiro com as suas magníficas memórias de um tempo que "ainda não se foi", viu?
Bjs
DR. ANDRÉ, V. Excia gostou do "causo"?! Então, prepare-se que no fim da semana entra outra estorinha muito divertida, "acontecida" nas Minas Gerais dos Inconfidentes e dos "carequinhas" canalhas.
Dona LÍGIA... belo texto o teu "Palavras do Amanhã" ou coisa parecida. Vou lá comentar, agora! Mas não se trata de "lembranças", minha antinha ananin... não desta vez, pelo menos! Beijos,
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua (PA)
Um Trabalho muito bacana, em texto fácil de ler. Sua maneira de escrever prende a gente até o final.
Tudo em tudo é muito importante mas, na sabedoria Cristá do Jesus Cristo, |Tudo também é importante, mas importante mesmo é a essencia das coisas.
A Essencia do seu Trabalho é admirável.
A Ordem que voce explicou a gente segue e nada foi abalado do admirável da sua obra.
Um Bom Trabalho que esta em bom Lugar
Desculpas por demorar a achar seu trabalho.
Por favor me avise sempre.
Abração Amigo
Querido Nato:
Mais um belo texto. Gosto de teu estilo_estiloso...
Mas tuas escolhas vão de encontro a um lugar tão assim_assim, quente e infernal... Surgem essas coisas lindas e poéticas!!!
Beijos_Meus*
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