Noite alta. Dormem os homens, os que ainda não são espectros de si mesmos. Não significa isso que as ruas estejam desertas: ao contrário, fervilham. Há os que vivem da noite, à noite sonham, da noite se alimentam. Sangue, nem sempre puro, quase nunca puro, sangue envenenado, mas sangue, corre por suas veias. Festejam a noite, festejam à noite. Seus olhos sorvem ávidos a contínua torrente de fervilhantes imagens brilhantes, multicoloridas - imagens digitais, imagens de néon - que flutuam pelo ar da cidade.
É preciso confessar: relido hoje, O Fantasma na Máquina às vezes soa ingênuo, às vezes datado e às vezes datado e ingênuo. Por que republicá-lo, então, passados mais de dez anos que ele foi escrito? Porque, bem ou mal, com todas as suas falhas, esta noveleta fez parte da minguada história do movimento cyberpunk no Brasil. Pode não ter - não tem - a importância de Piritas Siderais, de Guilherme Kujawski, Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett ou de Interface com o Vampiro, de Fábio Fernandes, mas estava lá, nasceu do mesmo contexto cultural e presta seu modesto testemunho de uma época em que a ficção científica brasileira se abriu para a (pós-)modernidade.
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