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O FAQUIR - Crônica

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jjLeandro · Araguaína, TO
16/11/2007 · 110 · 5
 

O FAQUIR

Vendo outro dia no blog a foto do grosso da minha turma - que formou um semestre antes de mim no curso de Jornalismo em Goiânia -, percebi que ninguém usava beca. Não questionarei se era desapego ou rebeldia à tradição. Vivíamos dias duros da ditadura que esboroava e se fosse um protesto estava justificado. Além do mais sei que jornalista é assim mesmo: muitas idéias na cabeça e uma disposição para contrariar as formalidades e as tradições.

Mas comigo se deu o contrário: eu e os outros retardatários formamos de beca. A retrógrada beca, que me causou muitos transtornos. Quando penso nela o que imediatamente me vem à mente é uma tremenda fome. Isso mesmo! O que tem uma coisa a ver com a outra? talvez todos perguntem. Calma, já eu explico. E vão me entender.

Para me formar tive que fazer curso para faquir. Isso, faquir. Aqueles ascetas indianos, magrinhos, que suportam sacrifícios sobre-humanos. Já trabalhava, tinha até um troco no banco, mas, mais por desleixo que qualquer outra coisa, procurei o caminho mais prático – pelo menos na aparência.

Morava na rua 4, setor Oeste, nos fundos da casa de um tio meu, que alugava lá uma pequena casa (muitos viveram essa realidade de estudantes do interior). Uma filha dele havia formado naqueles dias, ainda estava com a beca alugada que depois teria de devolver. Corri lá, era uma mão na roda. Meio sem jeito, depois de constatar que beca é tudo igual, falei com ela. E ela, prontamente se propôs me emprestar. Peguei a bichinha meio descorada: no início da carreira tinha sido preta, mas o uso impiedoso deixara-a com uma cor indistinta entre o branco e o cinza. Pode isso? Pode sim.

Levei para a minha casa, aos fundos, e corri para experimentar a bendita. Decepção: a prima era mais magra que eu. Se para ela ficara justa, em mim os colchetes não abotoavam. Desespero: e agora? Não sabia onde alugar uma. E se alugasse, ajustes teriam que ser feitos. Imaginei um mundo de complicação. Mais uma vez optei pelo caminho que achei o melhor – mas que era o mais complicado: fazer um regime!

Fui no calendário e olhei a data: faltavam três dias para a formatura. Daria conta sim. Sempre fora um obstinado, conseguiria perder uns quilinhos e abotoar a beca. E vamos lá! Três justos dias a pão e água. Dizer isso é até um luxo: não houve pão, foi somente água. Verdade! Nenhum alimento sólido, somente líquido! Ao final de cada dia me metia na beca para um teste e os ajustes no cardápio. Mas que cardápio? Era somente água. Ajustes na quantidade então. Menos água se o peso teimasse em não cair.
Comecei a sonhar com comida. Carnes em churrascaria, banquetes e toda espécie de pecado próprio dos glutões.
Mas resisti. Já disse que sou obstinado.

No dia da formatura era o tudo ou nada. O teste final!
Para minha sorte, cabia dentro da beca. Mas não pensem que a tortura havia chegado ao fim. Ficara apertadinha, os colchetes quase arrebentando. Percebi logo que a respiração tinha que ser controlada rigorosamente. Aos pouquinhos: uma tortura. Os colchetes podiam arrebentar se houvesse grandes haustos de ar. Outra coisa que percebi ainda na frente do espelho quando tentei pentear os cabelos: estava literalmente imobilizado dentro de uma armadura. Precisei de ajuda
Que suplício!


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jjLeandro
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Branca Pires
 

JJ, que barto esse teu conto!
Estou a imaginar tais cenas...
Estudantes são mesmo "faquires", fazem verdairos truques para chegar até o final. Mas as lembranças apesarde ilárias, serão docemente lembradas...
Ah, as recompensas virão depois.
Super abraço!

Branca Pires · Aracaju, SE 14/11/2007 12:42
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apple
 

Eh, Leandro! Cada sacrifício que se faz em nome dos estudos, hein?! Até para colar grau se faz esforço.

Lembrei um pouco da minha vida agora. É que também já preocupei com formatura , mas, no meu caso, não valeu a pena.

Sabia que não teria beca. Entretanto, não tinha idéia precisa de como os outros estariam vestidos. Fiquei indecisa, né? E, dei tiro no escuro...

Daí, apareceu tanto formando “mais arrumadindo” quanto aluno com: jeans surrado, bermuda, camiseta sem manga, chinelo, mochila nas costas, ... Estava uma esculhambação de dar gosto.

Você precisava ver a cena. Teve até formando que pulou do auditório ao palco, para adiantar a caminhada.

E eu, “burra”, preocupando. Rsrsrs...

Abraço

apple · Juiz de Fora, MG 14/11/2007 20:32
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marcio rufino
 

Votado. Apareça estou com saudade!!!

Abçs!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 17/11/2007 02:45
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Branca Pires
 

Meus votos.
abrçs.

Branca Pires · Aracaju, SE 17/11/2007 02:47
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Cintia Thome
 

Dia inesquecível JJ. Muito bom estas lembranças e suplícos, rs

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/11/2007 23:11
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