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O faroeste impiedoso de Sergio Leone

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Bruno Flores · Rio de Janeiro, RJ
13/12/2010 · 0 · 0
 

O ímpeto desbravador do povo norte-americano moveu, no século XIX, uma engrenagem populacional rumo a um território árido e recheado de incerteza; num fenômeno sócio-político conhecido como a marcha para o oeste. Esta busca por um ideal de nação, porém, não se deu sem percalços pelo caminho. O assassinato em massa de comunidades indígenas, cuja selvageria supostamente inviabilizava o “progresso”, assim como o surgimento da bandidagem em larga escala foram alguns dos efeitos colaterais. Criminosos e saqueadores se proliferaram, favorecidos pelo precário controle do Estado na região, uma vez que a escassa tecnologia impossibilitava uma comunicação rápida e eficiente, enquanto as ferrovias eram construídas conforme o homem ia avançando.
Na trajetória do cinema americano, os filmes de faroeste certamente ocupam uma posição de destaque, tanto pela importância em retratar este período decisivo na história do país, quanto pelas inovações de narrativa e técnicas de produção que acompanharam o gênero nas décadas de 1940 a 1960, elevando o patamar de qualidade artística dos grandes estúdios. Este período ficaria conhecido como a fase áurea do Western, em que John Wayne e John Ford se tornariam figuras centrais em muitas das histórias contadas no submundo do velho oeste. No entanto, há de se lembrar, também, que os faroestes que o cineasta italiano Sergio Leone realizou na década de 1960 representam uma vertente que chegou para redefinir o gênero nas telas, através de uma linguagem autoral carregada de sarcasmo e diferente de tudo que havia sido feito até então, com um estilo de direção que se aproximava do cinema neo-realista europeu. A opção de Leone é pela narrativa lenta, extraída em longos planos-sequência que variam entre a vasta paisagem do imponente deserto americano e closes bem próximos dos personagens, revelando suas faces duras e marcadas pela vida.
Muitos faroestes clássicos anteriores à década de 1960 conservavam um tom de fábula no retrato do ambiente brutal e fora-da-lei do oeste americano. Mesmo em filmes que arriscaram retratar temas pesados e diretamente ligados aos efeitos da marcha para o oeste, como fez “Rastros de ódio” (1956), de John Ford, a abordagem branda parece não fazer jus ao conflituoso estado de espírito de se ter vivido naquele tempo e espaço, optando, ao contrário, por mascarar aspectos obscuros em prol de um romantismo um tanto inverossímil. Roteiro, personagens e, em especial, a trilha sonora vêm lembrar o espectador de que não se trata de realidade, mas de um filme hollywoodiano. A obra que pôs um fim definitivo a esta linha foi, sem dúvida, “Os imperdoáveis” (1992), de Clint Eastwood, talvez o faroeste mais violento e realista já feito.
Com Sergio Leone por trás das câmeras, porém, já se denotava uma clara intenção em fugir a esta tendência. Seus filmes, apesar de fazerem uma clara distinção entre os bons e os maus, não cultivam pureza nem maniqueísmo nas relações entre os personagens, uma vez que o mal muitas vezes é extremo, mas o bom tem sempre seus momentos de fraqueza ou desvio de caráter. O bandido Frank, interpretado por Peter Fonda em “Era uma vez no Oeste” (1968), apresenta métodos violentos e inescrupulosos que jamais são disfarçados, enquanto a ex-prostituta Jill McBain (Claudia Cardinale), ao mesmo tempo em que é vitimada por um ambiente essencialmente masculino, se deita sem culpa com o bandido mais mau-caráter de todos, o que lhe garante certa ambigüidade.
Podem-se dividir os tipos que circulam pelo velho oeste de Sergio Leone em duas categorias principais: os gananciosos e os justiceiros. Os primeiros, guiados por valores unicamente materiais, passam por cima de tudo e de todos para ganhar um dinheiro fácil. Ficar rico da noite para o dia é a única motivação que leva o bandido Cheyenne (Jason Robards) a se juntar ao misterioso Harmônica (Charles Bronson) em “Era uma vez no Oeste”, assim como os personagens de Clint Eastwood e Eli Wallach em “Três homens em conflito” (1966); dois criminosos de personalidades opostas que se unem numa empreitada após inúmeras tentativas de passar a perna um no outro. A malandragem evidente no olhar e nas atitudes de cada um lembra o espectador que a qualquer momento esta parceria pode se romper por uma manobra trapaceira, sendo apenas uma questão de tempo para ver quem será o mais esperto. Jogando com estas situações e servido pela brilhante trilha sonora de Ennio Morriconi, Leone constrói, ao final de “Três homens em conflito”, a cena de duelo mais intrigante da história do Western.
Enquanto isso; os justiceiros, mais introspectivos e misteriosos, são aqueles que geralmente não dão a mínima para dinheiro ou poder, mas já sofreram a tal ponto nas mãos dos gananciosos e mesquinhos que estão, também, dispostos a tudo para recuperarem suas dignidades. É este o caso de Harmônica em “Era uma Vez no Oeste”, que persegue vingança por um acontecimento do passado de forma obsessiva. O mistério acerca de sua real motivação é mantido até o épico final, onde um flashback utiliza de forma magistral a câmera lenta e uma dramática trilha sonora para revelar aos poucos a origem de toda a revolta contida do personagem.
Em suma, é através do embate entre estes dois tipos que Sergio Leone consegue sintetizar toda sua visão do velho oeste americano. Num lugar onde a lei do mais forte é exercida impunemente e a ordem entre os indivíduos parece não existir, o resultado será um ambiente hostil em que a injustiça certamente irá predominar e qualquer resquício de pureza ou ingenuidade será esmagado por ambos os lados sem o mínimo de remorso.

Sobre a obra

Uma análise do estilo e abordagem do cineasta Sergio Leone no retrato do velho oeste americano.

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Autoria
Bruno Monteiro Flores
Ficha técnica
Jornalista, gestor cultural e cinéfilo.
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