- Primeiro dilema: a cor. A cor do menino.
Ninguém sabia. "Furta cor não podia". E Cristóvão apresentava uma cor conforme o ângulo em relação à luz - quer do sol, quer da abertura da porta, ou da janela.
- "Carneiro é feito de nuve" - dizia - o ainda inocente e já sábio "cor de mel".
Cristóvão, aos 8 anos já a tudo esculpia, a tudo moldava - em barro, cera de abelha, madeira mole. Um escultor nato.
- Aprendia vendo o rebuliço das nuvens fazendo e desfazendo animais, gente, serras, matas... explicava aos outros meninos.
Era um mistério como Cristóvão sabia tudo da mãe. Das Dores, órfã de mãe aos 8 anos, vivia em companhia do pai, seu Manelão. Aos 18 anos, se junta a uma das levas de cearenses, atraídos pelo ciclo da borracha, rumo à Amazônia.
Seu Manelão ártifice de múltiplas facetas: ele mesmo seleiro, bordador de selas, ornador de arreios. Mestre na arte de incrustar metais e pedrarias nas faixas do peitoral, no loro do estribo, no estribo, na lateral da bride. Apropriando o conjunto para cada montaria, cada ocasião.
Bordados os mais variados. Na lapela das selas - o retrato da noiva, encomenda para casamento. Em fim - no trabalho, um artista; na vida, um fidalgo.
Dois anos depois, sem antes dar notícia alguma, Das Dores volta grávida do boto - 6 meses, afirmava. Na data aprazada nasceu Cristóvão. Já nos primeiros dias uma romaria indo à casa de seu Manelão - ver o menino. Gente de outras paragens também. A notícia: "o filho do boto".
Ante à data do regresso Das Dores leva Cristóvão, já com 6 meses, ao Cartório de Registro Civil.
- A cor?
- "Cor de mel"!. Definição já corrente. Os presentes atestavam o que já era sabido, sem se cansarem de olhar pro menino: "Cor de mel!".
O escrivão não aceita:
- "Não está no breviário", - diz, quase se desculpando.
- "Branco", concluiu.
Das Dores ao chegar na Amazônia, em Xapuri, na primeira lavagem de roupa, às margens do Grande Rio, o boto se engraçou. "E eu também", contava ela feliz da vida. Pouco tempo depois engravidou-se. Ninguém mais ninguém menos - Cristóvão, "o cor de mel". Sim, em Cristóvão tudo era da cor de mel. Para ser preciso mel de abelha uruçu: a pele, os olhos, o cabelo, os lábios, as lágrimas. Tudo cor de mel. Assim são os filhos do boto, em qualquer parte. Mel, na tonalidade do tipo produzido pela espécie da abelha predominante na localidade da mãe.
Segundo dilema:
- "Filho natural?" - pergunta com ares constrangido, o escrivão.
- "Não!", interveio seu Manelão, altivo.
- "Não?! - interroga o barnabé, atencioso.
- "O pai é o boto" - queria explicar Das Dores.
O Juiz, filho com o casamento marcado e cujos arreios para a festança estavam a cargo de seu Manelão, ante a iminência de dar ao filho festa crinfrim, sentenciou:
- "Deus nos livre de dar a seu Manelão uma filha perdia", amparou-se na Lei.
Seu Manelão ficou sendo o pai, para zelo da honra de Das Dores e continuidade da lenda.
Das Dores volta para o Amazonas, para o boto, era a missão. Com 6 meses de idade, ficou Cristóvão com o avô, e o pai. Os dois. - Soma duvidosa?
LENDA DO BOTO, a única lenda cujo conteúdo, sexo, crença e esperteza, só existente no Brasil.
CASCUDO:
O conteúdo de toda lenda, uma a uma, o enredo é comum em toda parte do globo. Esperteza; a origem de; a conquista... Onça veado, tartaruga, jaboti... vida, amor, morte... Muda a participação ou forma, mas o conteúdo é o mesmo. Das origens a mesma coisa.
- No Brasil, a cultura nativa devido às crenças ou sexo esteve guardada na moral cristã por mais de 300 anos. A mistura, a incorporação entre a cultura chegante e a existente "somente começa a ser pesquisada, estudada, em final do Séc. XVIII". A LENDA DO BOTO, precisamente em 1790 pelo cientista Alexandre Rodrigues Ferreira" (CASCUDO, seguindo ao médico Afrânio Peixoto, a Couto Magalhães, etc).
O Ipupiaras (sem sexo, sem crença), Fernão Cardim; o Uauiará (com crença, sem sexo), Couto Magalhães, são na verdade o boto, conhecido, enfeitado, desejado, temido desde a origem do nativo
André,
esse texto me levou rio Madeira abaixo, vendo os botos soprarem na flor da água, enquanto, na canoa, gente grande apontava com o queixo: "é esse bicho aí que emprenha moça danada, pra encher as casas dos caboclos de bacuri"...
abrs
André,
sou meio fascinada por essa lenda do boto. Será lenda mesmo, ou verdade?
Maravilhoso texto o seu, vou voltar, para reler e votar... e aprender um pouquinho mais sobre o b(r)oto que "emprenha moça danada", como diz nosso poeta Frazão.
Abçs de Betha.
Não sendo o Tucuxi,
há de se crer na lenda essa aí,
que boto leva moça danada a parir,
antes dele fecundada.
Muito bom resgate, Mestre André.
E já fico sabendo de quebra quase tudo do ofício de seleiro, que aparece como fato vero e digno que Manelão era. Cada nome interessantíssimo.
Grato pelo bom convite.
Andre Pessego · São Paulo (SP
O FILHO DO BOTO, o registro.
Trabalho de Mestre André, com História Gostosa de ler.
Costume, Cultura e Fé, de tudo pra gente saber.
O Boto náo podia Faltar, é a Amazónia a contento.
Muistério e sexo no ar, incrível magia e encantamento.
Sempre uma Lição de vida, pra qualquer um aprender.
Para somar na sua lida, pra fazer a existéncia valer.
Pra ter entendimento e visáo, e conhecimento do mundo.
Faz elevar a formacáo, e dar um moral mais profundo..
Sempre vamos lembrar, incorporando na formacáo.
Mestre André é pra gente exaltar, é da ternura e da dacisáo.
Respeitosamente nosso Carinho com Mestre André que tanto nos encanta e orgulha, com a profundidade dos conhecimentos que tem e,
também da sua imansa vivéncia que tem de toda a História da Nacáo Brasileira.
Toda lenda tem seu lado de verdade, ou seja, jo no creo in bruzas mas que elas hão, elas hão !
Um abraço, Alcanu
André,
Bom dia!
Olha, como o Frazão citou no primeiro comentário, aqui na beiradão do Mdeira tem mesmo dessas coisas, nas margens do Guaporé então... nem se fala!
Ha que se seguir os conselhos da mãe quando avisa:
A menina, cuidado com o boto
Menina olha o boto!
É o encanto do boto a se aproximar!
Nas águas tranqüilas, rapaz elegante,
Olhar penetrante sempre a te envoltar.
Se rosa, menina, menina, olha o boto!
Em suas correntes tão aliciantes
Não vá se entregar.
Menina pra margem vá guaporear.
Mas em lua cheia, menina, olha o boto!
Não fique por lá...
Tem festa na aldeia não vá se arriscar.
É o boto rosa, menina, a te encantar!
No fundo do rio é um dourado sonhar
É divina e eterna essa lenda a cantar
O silêncio da noite cúmplice estelar
Não te denuncia, menina.
Pode sonhar.
Com as forças da mata, da água e do ar.
Não há cadafalso menina,
Surpresa não há.
Seduz-te ao luar estrelado a bailar
Caboclo elegante e galante
É o boto a te conquistar.
Depois volto p votar. Adorei o texto.
Beijos.
Vi que tens um gosto apurado, lindo o seu texto, de muito, muito bom gosto. Aproveiro pra te apresentar "perebah e jair", uma dupla de mc's que oferece um projeto musical diferente de tudo que já conheci, e ainda tem uma múmia como dançarina, hilário, vc como parece ter uma visão diferente, vai gostar das letras e da musicalidade que elas trazem. Deixa um comentário, pra eu saber o que achou! Obrigada.
O atalho está aqui. Ou então vai na fila de votação.
http://www.overmundo.com.br/overblog/a-verdade-sobre-perebah-jair-1
extremamente bem escrito e de uma magia como poucos!!!
Parabéns, André.
abraços,
André, texto maravilhoso, em conteído e histórias contada.
Atenção redobrada. rs...
Beijos e votos,
Regina
André, eis-me aqui!
Belo texto baseado nessa lenda tão linda do Boto...
Abração querido
Vivi dois anos no Amazonas,ouve-se muito falar da lenda.Um texto maravilhoso André.Te mando para o banco,e espero poder participar de outras tantas lendas que contar.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2008 09:30
Chamou , chamou...
Andres, como vc falou, se eu tivesse algo a ver com boto, pois eh... crsci lah em Manaus, ouvindo do meu pai e avos estas estorias e lendas, entre tantas, do boto que nas noites de lua cheia saia pras festas do interior(da selva) e com seu chapeu pra esconder a origem, elegante, levava as mais esbeltas cablocas... para namorar ao luar... e... que lah n fundo tem um castelo que moram botos, iaras... e tantos... SONHOS...!
Fantasia... ?... quica, a gente crianca, ouvia isso, e com isso se identificava, sonhava.
Outrossim, hj, a Manaus capital e despontando inteh com um PIB que da inveja ate em SP... essa nova estoria, e sem historia, crescem muitos hj nas cidades que agora fazem parte da grande Amazonia Btasileira.
Acabei de dar uma 'volta' lah em Manaus semana passada... teu texto, me faz lembrar nao so dessa 'viagem' mas, de tantas... eu lah, vendo que o presente capitalista esta consumindo nao so as arvores, como falam os noticiarios... mas, os botos, eu via alguns num passeio no Curari(um lugar perto de Manaus, 1 hr e tanto de barco) aonde os flutuantes dos nossos "primos" que ficaram lah sam parte do cenario natural...
... desnatural... eh ver tanto plantico e porcaria que consumimos boiando no meio dos botos... (ou porcos?!)...
enfim... sem fim.. o caudal do Rio Amazonas... estes sonhos que temos, nestas historias que contamos, lendas que sonhamos...
A lenda do boto... muitas criancas hj por lah na cidade, inclusive atealgumas do interior, a luz eletrica ja ta lah, nao ouvem... infelizmente, pois, escutam, e ve-em, inteh o BBB..
Bom, tempo vai e tempo vem.. tempo Rei... somos muitas viagens, e lendas, quica a historia humana tem tantas variedades.
Eu gosto de lembrar, e criei ate minhafilha(Marina)na AU com estas lendas, do boto, da cobra grande, do curupira, etc... ela dormia sonhando...
E sonhando... eu te vejo caro Andre... gingando nestas tuas linhas poeticas que descreve.
Parabens... e obrigado por me fazer sentir o sonho, inteh aqui no Over... Mundo da volta sim sinho.
Iee!
Olá André,
Com satisfação volto para o voto.
Beijos...
Querido Andre:
Amei teu resgate à lenda do boto.
Beijos_Meus*
*
André,
Você já reparou na cor "mel".
Bota os zoios direto no favo. É linda!
Esse boto deve ter gens de prima.
Parabéns pelo texto.
Abraços com afeto.
Belíssimo!
Votos com louvor.
Abs
beto
...Quem tinha olho grande, lá,
quem olhava pra Sinhá
só querendo namorar,
era dito "olho-de-boto",
fosse homem ou garoto...
num "repente" vim maroto
pra nesse Boto votar...
é um poema urgente
obrigado
Viví 12 anos no Acre. Sei de cor de cor(te) e do profundo de povo grande da floresta que (ainda) resta. Parabéns. Fiquei sem cor ao lê-lo.
Abs
oi... as lendas sobreivem através dos tempos e transformam-se em verdades. Daqui desta terra de sal&mar , sempre soube do boto, quantas milhas ... hein?. Sou da aldeia de Cascudo e qdo colegial tive o prazer de conhecê-lo no casarão da Junqueira Aires, seu escritório, aonde as paredess eram autografadas pelos visitantes dos mais simples aos mais proeminentes. Abraços. Legal ter encontrado Doca&Doca, um par de anjos. Eles tambem existem.
analuizadapenha · Natal, RN 17/4/2008 05:04Obrigada por sua msg André. Belissímo o seu texto, está votado. Quanto a imagem do meu poema, pego as imagens em sites, eu amo o conjunto imagem, poesia e música, acredito dar vida ao poema, fazendo com que o leitor transporte numa viagem poética... não sei te responder se são feitas em computador ou se é o quadro real. Em Goiânia conheço o lugar que descreveu. Que bom que conhece a minha terra, terra que eu amo, terra natal. Sou esritora amadora e espero com o mestre das letras aprender mais... Abraço de profunda admiração e estima.
Regilene Rodrigues · Goiânia, GO 20/4/2008 21:46ai, andré, que maRAvilha. eu poderia ficar horas lendo isso... escreve mais!
andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2008 00:59
Andre Pessego · São Paulo (SP)
O FILHO DO BOTO, o registro
Com toda Humildade estou aqui para votar e atestar a beleza do seu trabalho que ficou táo bom e é encantador para o acervo Cultural da nossa Nação.
Valeu
Abração Amigo
Boto Tucuxi, Boto Tucuxi, leva o Boto Rosa daqui!
Êita, menino!
Metade das beradêra são cria do Boto Rosa, sabia?
Muito legal o teu poema-resgate. Bom quissó!
Beijos, André!
Ah, tá
Escolheu bem a foto, hein?
Valeu pelos créditos.
Boto inteligente, hein?
Votei,
Sílvia
Lindo texto. Parabéns. E não conhecia o "bom quissó" da Marcela. Fica adotado
Circus do Suannes · São Paulo, SP 7/10/2008 11:59
André: tudo aqui é perfeito e inspirado: desde a FOTO das crianças de Rondônia (que este país lhes proporcione um futuro digno!), à forma de narrar a lenda, de alta qualidade litéraria. Parabéns, Mestre!
Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG 20/8/2009 12:09Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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