O Fim da Infância (ou Um Cão)

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MakacoKósmico · Porto Velho, RO
3/7/2009 · 5 · 4
 

Teve uma morte comum, sem floreiros, digna de um cão. Ao café comentaram sobre sua saúde, já após o almoço tinham dado cabo a seu sofrimento. Representava a última parcela de um passado em comum e sua ida marcara o fim de um ciclo. Não era apenas o falecimento de um animal de estimação. Era o fim da infância. Sua existência representava para aquele casal de irmãos toda uma vida em comum. Depois de mais ou menos 16 anos, não houve despedidas, ficou apenas o vazio do espaço que era seu.

Souberam da notícia separados. A mais nova soube primeiro. O mais velho, depois, pelas lágrimas que doía à mais nova. Para o mais velho, aquela dor traduzia não só sua falta, mas também a terrível confusão que a perda do vínculo àquele lugar fez com seu futuro. Ambos agora, o mais velho e o cão, não tinham mais de aturar as limitações daquele espaço físico. Já há muito sentia que ali seu crescimento era impedido, e agora o único ser que dependia de si para viver, havia ido. Ambos estavam livres, e isso era aterrorizante.

Antes de ir, veio despedir-se. O mais velho, quando dormia à cesta, sentiu seu cheiro e o viu passear pelo quarto, lugar donde nunca entrara. Pousou suas patas pelo chão e os olhos pelas paredes, como que reconhecendo o lugar em que vivia seu dono, depois se foi. Ao acordar, ciente da notícia, logo associou sua ausência ao sonho. Ele veio me visitar antes de ir, pensou. Foi à estante, pegou um retrato antigo, seguiu à porta de sua pequena casa, agora vazia, e chorou.

Sabia que tinha de chorar seu morto, para que ele pudesse descansar, e ir. Depois da imensa tristeza, quis sorrir. Devia se desprender daquele egoísmo emocional que infligira tanto sofrimento ao animal. Agora ele estava livre. Finalmente livre. Não prendia-lhe mais a coleira. Não estava restrito às paredes daquela casa de humanos. Agora podia ver o céu de outros lugares. Podia correr novamente, como na juventude, e suas patas já não eram privadas pela solidez do concreto. Só sentiria falta dos seus, assim como eles agora sentiam dele.

À porta, o mais velho recordara da primeira vez em que o viu. Era tão pequenino. Na verdade ambos eram. Viera dentro da camisa do seu novo amigo, tal como um escolhido. De fato era seu amigo de infância. O mais antigo. Teve o cuidado de alimentá-lo com a inexperiência da primeira responsabilidade. Na adolescência foi surpreendido por um acidente que rendeu ao cão uma pata defeituosa, como também ao dono, o trauma de não deixá-lo fugir. Mal sabia que ele havia se machucado pelo que mais amava: A liberdade. Conseguiu fugir outras vezes. Sentiu o gosto da rua e as dores das disputas sexuais entre os de sua espécie. E nessas fugas ocasionais foi se dando conta de que seu lugar era com os seus, da espécie humana.

O mais velho lhe deu afeto até o momento em que a vida lhe mostrou novas vivências. E inebriado pelas descobertas, delegou seus cuidados. A mais nova lhe prestou afeto, até também ser atingida pelo vírus da idade adulta. Neste processo de amadurecimento, ele foi perdendo espaço. Foi também perdendo a visão, a energia, mas nunca a esperança de ser livre. Até quando lhe restou apenas um cubículo para viver, onde passava os dias só, vendo pessoas apenas quando elas lhe ofereciam comida e água, ou um pouco de afago.

De vez em quando, às escondidas (pois a matriarca não admitia tal atitude), o mais velho abria um dos portões de seu cárcere, para vê-lo mais feliz. Sempre que isso acontecia, ele corria. Ficava imerso numa felicidade que só podia ser manifestada com o movimento. O portão dava para a varanda frontal. Não era muito, pois lá também havia portões e muros. Mas ao menos tinha espaço! Um belo espaço que antes era seu e que passava os dias a desejar. Lá havia plantas, podia ver outros seres vivos e tinha terra. Sim! Tinha terra! Aquele fragmento do passado que fazia recordar outros tempos, mais felizes. O mais velho ficava ali a olhá-lo até seu movimento ir cessando, e tornando-se um calmo caminhar contemplativo, como a rememorar as cenas de sua vida. Depois, por si só, ele retornava a seu cárcere e dormia conformado.

Desta época em diante a culpa deste infeliz destino passou a atormentar aqueles que ainda lhe rendiam estima, e quando ele se foi, acharam, por fim, que tinha sido melhor. Nada era mais como na infância. Das grandes árvores frutíferas, restou apenas um jardim sem finalidade. Dos espaços para brincadeiras, os objetos fizeram-lhes depósito. Da inocência dos anos de outrora restou apenas a certeza de que existiram um dia. E, para que eles pudessem crescer, foi assim que o cão se foi.

Na noite que se seguiu, alguém sentiu falta de algo, mas não sabia exatamente do que era. A esposa do mais velho achou estranho e, quando se deu conta do vazio, também chorou. Agora eu sei do que senti falta, falou. Em sua pequena casa já não tinha mais seus objetos, nem seus pêlos ou cheiros pelo chão. O cárcere lavado, agora dava para os portões permanentemente abertos. E o vazio, nossa!... O vazio era imenso! Assim como a noite que o preencheu. Não havia latidos, nem movimentos, nem qualquer ruído. Só o silêncio, ou o som da cidade... No outro dia os restos de comida foram para o lixo e um firme silêncio permeou a cozinha do almoço, mas o dia seguiu como se nada tivesse acontecido. Exceto para os dois irmãos e o resto de suas novas vidas, para longe da infância.

Sobre a obra

Uma Crônica Fictícia de uma realidade não muito distante, ou sobre como certos acontecimentos significam mais do que nos fazem crêr.

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Autoria
Fabrício Black
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Doroni Hilgenberg
 

Menino,
que conto bem estruturado e tão realista.
Nossa retratou muito bem a vida de um animal sofrendo sem a liberdade de seu ambiente natural.
Assim caminham as nossas crianças, para um universo de concreto, verdadeiras prisões,onde a natureza humana vai ficando cada vez mais distante.
Adorei a reflexão
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/7/2009 12:11
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MakacoKósmico
 

Obrigado Doroni! Gostei da sua reflexão sobre o texto tbm

MakacoKósmico · Porto Velho, RO 4/7/2009 13:55
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opoertadabaixada
 

Cara se doroni me indicoué um prazer li o seu conto e decidi votar ta bom, sorte, opoeta.

opoertadabaixada · Belford Roxo, RJ 4/7/2009 22:36
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Agenor
 

Agradeço à Doroni pela indicação.
Maka, um conto belíssimo e como mesma diz muito realista...
Votado prazerosamente.
Abraços a você e à Doroni

Agenor · Aquidauana, MS 6/7/2009 00:11
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