Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O fim do Baile Soul e o começo da Patifaria! texto de Leiteiro

1
AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ
4/5/2009 · 2 · 0
 

Na Ladeira dos Tabajaras nessa época (1975?) só conheci como D'J, Nei e Marcha Lenta, pessoas espetaculares e dedicadas a levar um pouco de lazer, a quem não tinha dinheiro nem do ônibus, nem da entrada no Clube para os Bailes Soul, que depois virou Funk.
Como nós, eu e Rubinho já tinhamos uma iniciação na Capoeira - Rubinho nasceu pra coisa - dava-mos uma iniciada na rapaziada, justamento na mini-quadra aonde nas noites de sábado rolava o Baile. Sexta-feira a expectativa, a conversa rolava em torno do que aconteceria amanhã.

Nei e Marcha nos mostravam os ultimos LPs adquiridos, colocavam en avant-premiére as ultimas pedras sonoras. Eu me sentia o máximo, talvez eu esteja enganado, mas na época ser amigo de um D'J, era mais do que ser amigo do Presidente de Escola de Samba ou de um Político!
Nei e Marcha investiam oque tinham e o oque não tinham na mini-quadra, luz estroboscópica, globo espelhado, luzes coloridas. Nei trabalhava, então podia dar um trato mensal no guarda -roupa, mostrar pra gente o último sapato plataforma, o colete á la João 3 voltas, como diziam os invejosos.

Eu sofria pouco, já me vestia a moda Hippye e no baile era o ovelha negra, pra piorar não dançava nada de coisa nenhuma, era um 2 de paus. Isso me permitiu seja no Botafogo, como na mini quadra, analizar as-os dançarinos e as evoluções, e a evolução das evoluções!
A mini quadra era uma espécie de peixaria, atraía as melhores gatas, incluindo as "jararacas" do ninho das cobras. Mais tarde vinham os "cascavéis", para ver se elas estavam entregando o ouro pro bandido, dando mole pra vagabundo. Mas pro fim da rua Ladeira dos Tabajaras, depois da mini-quadra, ficava uma pequena parte do morro denominada Ninho das Cobras, me lembro até do refrão de um samba:
No ninho das cobras tem coral e cascavel/ quem passar por lá, tem que tirar o chapéu!

De lá saiu vários projetos de patifes e nesse dia do baile, 2 deles estavam lá. Por ser amigo dos donos do baile, eu chegava cedo e era dureza aguentar até a hora de o baile pegar fogo! Quase meia-noite mini quadra pipocando de gente, toca uma Melô - música para dançar agarradinho -
e um dêles chama uma mina (leia-se menina) para dançar.
Ela recusa e pouco depois outro chama e ela vai.

Ele vai em sua direção, passa pelas pares dançantes, toca no ombro da mina e pergunta porque ela recusou dançar com ele. Ela não soube responder e ele deu uma senhora bolacha (tapa) no rosto dela e obrigou-a a dançar com ele mesmo chorando. O acompanhante anterior cedeu tranquilamente, pois ele sabia, ele conhecia a Lei da Sociedade:
A Lei de Muricy!
A Lei que quem nasce no morro já nasce sabendo:
A Lei de Muricy cujo capitulo 1º e único diz:
NA LEI DE MURICY CADA UM CUIDA DE SI!

Dei sorte de ter sido criado fora do morro até os 15 anos, quando cheguei, vim com uma tromba e sentia o cheiro do perigo a distância. Passei a não ir mais na mini quadra, eu que não dançava nada corria o risco de "dançar" de vez!
As Discotecas passaram a se chamar TIROTECAS, pivetes de tudo oque é morro iam as Disco só para fazer arruaças e trazer () fama ao seu moro. Na Zona Sul, encabeçava o famigerado ranking, Cantagalo, depois Pavão-Pavãozinho, aí vinha sem destaque:
Santa Marta, (hoje D. Marta) O meu Ladeira dos Tabajaras, Rocinha, Leme e Cruzada São Sebastião estavam devagar.

Infelizmente estive na pré-estréia dos arrastões!
O "TIME" descia para jogar na praia de Copacabana, jogava até umas 5-6 horas da tarde, aí ficavam na beira do calçadão fazendo aquecimento e esperando, avistado o alvo, quando ele passava em frente a eles, fechavam uma roda em volta - nesse dia era um casal 50-60 anos - sendo que 3 ficaram dentro da roda, um com a mão dentro do calção, e 2 depenando os patos. Em volta passavam pessoas tranquilamente, fingindo que nem é com eles.
Eu conhecendo a Lei de Muricy não me mexi, até porque voçe não podia ir a baile nenhum, sem saber qual morro tinha brigado e com quem, quem tinha apanhado, quem tinha batido, quem tinha matado, quem tinha morrido!

Visitar um outro morro sem saber disso, era desafiar a sorte!
A prévia dos arrastões na verdade foi os esquadrões. Nas noites de sábados e domingos nas quadras de sambas, e noites de domingo nas tirotecas, acontecia os arranca-rabos e na segunda-feira vôçe tinha que estar por dentro de todos os lances em todos lugares, caso acontecesse mais de um arranca rabo!
Na segunda feira os olheiros dos prejudicados já estavam nas respectivas praias dos morros, Cruzada, Praia do Leblon, Cantagalo, Praia de Ipanema, Pavãozinho, Praia do Arpoador, Tabajaras, Praia de Copacabana etc.

Bastava ele ver alguém do morro que ele procurava, e pouco depois arriava uma galera na área, pronta pra aterrorizar. Como o morro contribui para os arrastões:
Os "aviões" cresceram, viraram "Concordes", armaram suas distribuidoras concorrendo com as dos antigos "patrões".
Os "patrões" sabiam os "stalones-cobras" que eles tinham criado, eram verdadeiros kamikases, prontos para oque der e vier.
Com eles não tinha acordo, discernimento embotado pelo excesso de uso de tudo que vendem, era matar ou morrer.

Os "patrões" não queriam se "queimar" mais do que já estavam com as "fabricas" dos "aviões" tentando eliminá-los no próprio "aeroporto"! Já os "aviões" quando pequenos, só faziam 4 escalas:
Morro, Praia, Tiroteca, Maracanã!
Eu falei praia?
Pois é, os agora "Concordes" quando dava, desciam o morro para "pegar um bronze", "molhar o Zéquinha", "salgar a rosca"! Desciam com 1 ou 2 guarda-costa, pois muito negão junto, ou é time de basquete ou folia de reis.

Era raro o mês em que não parasse um táxi no calçadão da praia e descesse 2 ou 3 malucos de "berro" na mão, sentando o dedo. Aí era um festival de pipoco, "ameixa quente" assobiando por cima do "côco", e até Iemanjá gritava:
POLICIA, SOCORRO!
Se antes era no meio de semana, depois passou a ser sábados e domingos, pois os "chefinhos" acreditavam que com a praia cheia, eles corriam menos perigo. Participei de uns 3 bailes Funk no Clube Botafogo em Botafogo, com LuizinhoD'J, era legal até eles começarem a fazer traduções das musicas tocadas.

Aí vinha palavrão e só esperavam a musica do Bachman-Turner-Overdrive -Go back to water?- traduzida para:
Vou dar porrada, porrada até cair no chão! Aí começava a pancadaria nos manés antecipadamente visados. Na saída, quem deixasse para sair no fim do baile corria risco de vida.
Me lembro de um lance terrível:
Formou um bolo em volta de 2 que tinham brigado lá dentro, aí um moleque aqui de fora, pegou um paralepípedo e jogou no bolo visando a cabeça de alguém. Pouco meses depois meu amigo foi tirado da cama por outro "amigo" para ir nesse baile.

Esse falso amigo tinha batido em 2 fracotes na semana anterior, - ja havia essa guerra de morros - e temia que eles viesse com muitos. Ele veio só com 1 que tinha uma camisa enrolada na mão. Os 2 amigos já dentro do ônibus, os pivetes lá de fora chamaram:
Vem bater na gente, otários!
O que tinha batido nos moleques desceu 1º, enquanto isso o pivete dizia ao outro:
Me dá o negócio!
O outro deu um revolver e ele saiu atirando. Um tiro pegou na perna do 1º e outro tiro na cabeça do meu amigo
Rubens Costa Satiro, o Rubinho Tabajara, que não tinha um inimigo.
Enterrei ele no dia do meu aniversário, 01-10-1977!

Link da música:
http://www.youtube.com/watch?v=tzGxJfMJe7E"




Sobre a obra

Em 1994, o destino me deu opotunidade de revisitar minha terra, gentileza de um anjo aqui na terra, DR. Paschoal Granato - Que Deus o Tenha- e rever minha Princezinha do Mar, Copacabana!
Tomei um susto, virou um Camelódromo, a avenida principal entupida de barracas, fui a Praia molhar os pés e outra decepção, na Avenida Atlântica um barracal doido, não fui até a areia.
Mas enquanto ia em direção a praia pela rua Siqueira Campos, junto com um amigo da Ladeira dos Tabajaras, isso umas 15 horas do dia, notei que varias "fábricas" vinham da praia alegres e satisfeitas.
Perguntei-lhe oque era aquilo, numa crise violenta de desemprego, eles e elas ali no bem-bom.
Ele me disse oque diz o velho deitado há centenas de anos atrás:
O HOMEM É PRODUTO DO MEIO!
Não ha mais salvação.
Ou há?
Data 16/7/2007

compartilhe



informações

Autoria
Leiteiro
Downloads
89 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 9 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados