E, ainda assim, as nuvens continuavam machucando ele. Seu peito sofria toda tarde. A expressão das cores se movendo em bandos atrás do sol, sem que ele soubesse o porquê, o confrangia de tal forma que ele se via obrigado a fingir um cansaço qualquer e fugir para o silêncio das estradas pequenas. Alguma coisa nas cores das nuvens explicava uma certeza que ele não sabia. Uma ordem segura. Isso o deixava tonto. As idéias lutavam entre si. Seus pés buscavam uma firmeza que não vinha. Só quando ele deitava e mirava o céu, numa laje ou num quintal, depois comer ou fumar, é que as tantas cores das nuvens não o machucava. Havia alguma coisa no seu jeito de pensar enquanto andava, que fazia de cada movimento nas copas das árvores, ou na poeira do vento, ou na sombra dos passarinhos passando rápido, uma vontade maior de ser menor. De ser uma coisa ínfima que fosse fácil de ser levada. De ser tão leve quanto as idéias e chegar tão rápido quanto elas ao que imaginam. De, talvez, ser só idéia. Mas os pés só pisavam torto. Todo o céu se esvaindo em cores e o chão como que o dragando. Como o corpo pesava! Como era difícil se carregar! Tentava, com muito cuidado, andar como se estivesse caindo. Deixava o corpo tombar e ia colocando as pernas na frente para evitar beijar o chão. Mas a idéia de beijar o chão também o agradava. Imaginava-se com todo o rosto posto na areia dura, respirando mal pelo nariz dobrado, fitando apenas um pouco da luz que provavelmente insistiria e talvez ficar ali por um tanto de horas. Evitando abraços frios, pandemônios eufóricos de amigos fingidos e até mesmo as cores das nuvens. Mesmo que essas cores sejam efêmeras e se transformem em escuridão com o passar do sol. Mesmo ele sabendo que poderia ignorá-las só fechando os olhos, ou se trancado no conforto da cama. Nada disso arrefecia sua existência. Num esforço, para ele, sobrenatural, esboçava uma alma mais dura, mais seca, sem querer entender nada. Dizia a si mesmo que o fato dessas cores terem o mesmo peso da angústia que bordava o dia, era mero acaso. Que como ele, tudo no mundo estava jogado a um fluxo trágico e toda harmonia dissonante era outra alucinação. E sem se enganar, sofria. Como quem desiste de lutar e contempla o embate esperando a última pancada, sofria.
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