O FUMO DIGITAL
Discutia dia desses com meu filho de 14 anos sobre a modernidade das coisas, principalmente fazendo-o ver que o cinema fora um dos setores que muito evoluíram com a tecnologia. Rapidamente ficou sabendo sobre os progressos da sétima arte, assim batizada em 1912 pelo italiano Ricciotto Canuto. Falei dos primórdios com os irmãos Lumière em fins do século XIX, da voz que só chegou em 1927, dez anos depois do primeiro technicolor The Gulf Between; e do formato Cinemascope em 1953 com o Manto Sagrado.
Muito tempo depois a digitalização tomou conta desse mundo, falei. E agora tudo ficou mais fácil. Tanto para a confecção como para a exibição. Então falei que com certeza o último filme que ele assistira no moderno cine do shopping aqui da cidade era em DVD.
Ele, esperto, contestou. Nada disso. Como não, hoje tudo é digitalizado. Já não se usam mais aqueles imensos rolos como em meu tempo, três décadas atrás. A maioria das vezes era mister um intervalo para a mudança de rolo. O providencial intervalo era o ensejo para uma boquinha no lanche do cinema ou matar a sede.
Ele sorriu, balançou a cabeça em sinal negativo e disse que eu estava enganado. Os filmes no moderno cinema aqui da cidade eram ainda em rolos; por aqui, DVD só em casa.
O quê?, eu disse surpreso. Ele sacudiu a cabeça convicto. Isso mesmo. Mas não é possível! Em plena era digital no shopping ainda se assiste filme em rolo? Verdade! Mas até o fumo que antes se vendia em rolo agora é digital, por que não o cinema?
E fui explicar-lhe a nova conformação do fumo. Em meu tempo de criança era vendido nas feiras e nos comércios em rolo, um pau atravessando-o ao meio. O fumo, como lingüiça, enrolado nele. Ao gosto do freguês, o vendedor ia picando-o com a faca afiada e a ajuda de um metro de madeira. Mas isso era antes. Agora é completamente diferente, vi isso recentemente na feira enquanto comprava peixe. A banca na feira, ao lado da peixaria, tinha muitos clientes. Nunca os perdera, nem reclamavam dos novos tempos do fumo digital. Estavam já acostumados com a nova tecnologia, pude perceber. Observando o movimento, percebi o gari que chegou e pediu 25 kbytes de fumo. O vendedor atendeu-o, mas perguntou se estava tentando largar o vício com tão pequeno naco. Ele sorriu triste. Era mesmo a pindaíba. Em tal situação somente mesmo sendo fumo picado. Depois veio outro com cara de comerciário para comprar um megabytes. Foi atendido prontamente, mas o vendedor fez uma ressalva, alertando-o. Que ele tomasse cuidado. Da maneira que vinha aumentando a quantidade do vício qualquer hora ver-se-ia às voltas com uma overdose. Travaria como um computador velho; não agüentaria o fluxo da fumaça, pusesse isso na memória. Mal este saiu, outro chegou. Queria 500 megabytes de fumo. Poxa, para que tanto fumo, meu filho?!, perguntou sorridente como era de sua índole bonacheira. Era um comerciante do interior que vinha fazer a sua primeira compra na cidade e recompor o estoque de sua vendinha. Fora recomendado da excelência do fumo digital por um amigo.
Antes que despachasse o bodegueiro do interior, o representante da fábrica de fumo chegou à banca. E as vendas, vão boas? Mais ou menos. Tá precisando de quanto agora? O comerciante coçou o queixo indeciso, esperou o cliente ir embora para definir a quantidade da compra e principalmente a forma da aquisição. Desce pra mim 80 gigabytes, mas só a metade com nota. O representante da fábrica sorriu, anuiu, e disse: “nem a alta tecnologia conseguiu ainda dar fim à sonegação fiscal”.
Eis a vertente non-sense de JJ, que eu não conhecia... ahahah Boa!
baduh · Rio de Janeiro, RJ 24/9/2007 13:49
Leandro,
pois não é que vai servir pra eu mesmo aprender um montão de coisas, estou arquivando pra ler depois com mais atenção, andre.
JJ Leandro,gostei desta conversa com teu filho...prendeu-me do príncipio ao fim, bom como tudo teu..Votado.
Cintia Thome · São Paulo, SP 24/9/2007 19:56
votado. oi leandro, ostei da sua cronica, dê uma olhada na minha primeira. bjos!
http://www.overmundo.com.br/banco/la-noche-de-los-museos
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