Parecia bem mais velho ontem à noite, no escurão lá do teatro.
Mas naquele tempo éramos, todos, meninos.
Cada qual a seu modo, todos carregávamos nosso jeito displicente de guri.
Seu nome era João, embora João quase todos fôssemos: João Bosco, João Batista, João Gualberto, João Pivete, João Bonito, João Palito, João José, João Mineiro, João Antônio, João do Norte, João Divino, João Peralta, João de Deus, João da Encosta, João Sem Sorte, João de Sá, João Disso e João Daquilo; Pereira, da Silva, Oliveira, dos Santos, das Dores, Rodrigues, dos Mares, de Abreu, de Tal e Tal e...
Ah! Figueiredo!
Era disso que ele era João. Oliveira Figueiredo, ou algo assim.
Lembro bem de nossas diferenças de nome (ele mesmo era João Batista apenas; se ocorre-me o nome quase completo, deve ser pela semelhança com o de um outro João, que não deixaria saudades em certa história política – coincidências jônicas).
Mas desde bem cedo até... ele nunca foi conhecido por nenhum nome de João; carregara lá do berço uma das razões pelas quais notabilizara-se: a alcunha (inusitada entre nós) de Gáia. O Gáia.
Nosso ponto de encontro era a rua Sete.
Éramos muitos de lá; alguns da Rua Nove, e até uns tantos da Dez. Além do que de vez em quando admitíamos um ou outro dos engomadinhos da onze ou da oito, mas era raro um pé-calçado daqueles, achar espaço na roda; geralmente acabava dando o cu por uns tempos, pra depois, já bem depenado, desaparecer dos trechos. Surpreendia quando um dos tais, demonstrando que entre aqueles merdas existia uns gatos pingados capazes de ter força de caráter, cavava um canto em nosso meio.
Enfim, fosse cada qual de onde fosse, nosso quartel-general era sempre a rua Sete.
Alí se transcorria a história de todos nós; distantes das porradas de nossos poucos pais cansados, era onde desenvolvíamos nossas relações com o mundo.
Uns mais grandes, outros mais menores, uns mais nó-cegos, outros mais sarados, uns mais maneros outros mais desminingüidos; os que falavam mais grosso, os que já tinham pelo no saco, os que iam mais ao Grupo e aprendiam que não era pra falar mais grande, nem mais melhor, mais menor, sem nunca entender muito bem porque; os que tinham medo da pomba-gira e do lobisomem, os que sabiam roubar na feira, os que comiam a Teresoca, os que gostavam do troca-troca, e os que não gostavam de trocar. Uns mais velhos, uns mais novos, uns cacete, uns borracha, uns precoces, uns além e aquém, éramos todos muito diferentes. Mas seguíamos iguais, pois que permanecíamos todos meninos; naquele tempo, na Sete, nenhum passante grande via nóis como pivetes perigosos; não representávamos mais que um bando de meninos inofensivos em um bairro calmo. Afinal, muitos de nós ainda traziam o nariz a escorrer.
O Gáia mesmo era um desses; mas dele ninguém ousaria tirar uma, frente-a-frente. Ele era o Gáia. E Gáia era só ele – com muita honra!
Com o tal ninguém se metia a besta. Muito, é verdade, por causa de seu irmão mais velho, o Miltão.
Ah, o Miltão!, daquele não havia quem não tivesse medo.
Quando resolvia pegá um de nóis, num tinha choro; era porrada pra valê.
Deixava marcas pra nunca mais se esquecer.
Mas, independente da vítima, o comando do Gáia sabia sempre conduzir a força do Miltão, razão pela qual, nariz escorrendo ou não, o Gáia era o mais temido guri da área. Sua esperteza rivalizava com as magias lá do circo.
Perto do campo sempre aparecia algum circo mambembe.
Pena que, passadas poucas semanas; partia, deixando saudades. Ficava o lugar liberado para outro, que também logo ia embora. A nós, porém, cada vez que surgia um novo circo as breves semanas multiplicavam-se para honrar-lhe a imponência.
Depois vinha de novo a mesma ausência; e tudo que nos restava era o comando do Gáia.
Qualquer decisão grave a ser tomada no chão duro lá da Sete – Jogo Contra, Pau com os cusão do outro lado da praça, Corrida de carrinho de rolemã, Campeonato de pião, pipa, baloera, jogo de biloca, o que fosse; tudo sempre tinha de passar pelo comando do Gáia. Até para penetrar pelas paredes furadas lá do circo, ele sabia exatamente a hora certa. Quem quisesse discordar podia, mas se uma diferençazinha mais assim o indispusesse, logo o decidido Gáia acionava seu exército de plantão, o musculoso Miltão. E nisso, eu ainda havia de concluir, ele não desmerecia o João que no verdadeiro nome iria lembrar.
“Quem for contra a democracia, eu prendo e arrebento”, diria-nos a filosofia futura.
Mas na Sete, onde ninguém nem nunca veio a saber o que é filosofia, muito antes, bastava o Gáia resolver e o Miltão botava pra arrebentar.
Sofríamos às vezes; mas, no fundo, todos gostávamos das soluções gaiatas; achávamos cômodo ter uma cabeça distinta, que decidisse por todos.
Eu mesmo sempre fui dos maiores admiradores do pequeno Gáia. Jamais ousei discutir qualquer de suas decisões. Mesmo quando tinha de mal disfarçar meus medos de guri-de-pouca-ação, e sentia-me exposto a algum tipo de ridículo, nem assim eu deixava de cumprir o melhor possível as determinações lá do líder – melhor sofrer na rua do que em casa, onde nada me ensinava o sofrimento.
Mas, na rua ou em casa, nada de eu aprender, compreender, que o sábio Gáia me sabia muito mais do que eu próprio.
Um dia, decidido a brincar sério com meus medos, ele deduziu perante todos que eu era o mais bunda mole dentre os inúmeros bunda-moles da Sete. Eu, que então já morava havia tempos lá na Nove, e tinha até sapato e escola pra ir à força.
Pois de todas as decisões do Gáia, aquela foi a mais dura que eu tive de aceitar.
Não fosse a simpatia que sua autoridade despertava-me, acho que desde então eu o teria odiado com uma força só comparável talvez ao medo que eu tentava fingir não ter.
Por sorte o tempo continuou passando por debaixo do meu odioso medo.
Já não sou da Sete, nem da Nove, nem das redondezas.
Não sou sequer nenhum João daqueles todos, pois que me chamam Vandin, e meu olhar lá para trás dá só saudade – nostalgia de um tempo em que moleque de rua era menino, e tinha até casa pra dormir.
Talvez por isso ontem à noite, no sossego do teatro, eu estive quase abordando aquele velho gaiato – pena! Quando pensei em encará-lo ele já ia bem longe.
Apoiado em sua bengala, escarrava sob a chuva.
E eu montado em meu cavalo, como um ás.
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Wancisco Franco
Vandin, com reminiscências de menino de rua.
Ótima!, mais uma do Vandin!
volto pra votar
abçs
Rapaz, bunda nole ou não Vadim é o maior barato.
Wancisco Franco, parabéns. Você é ótimo em suas remanescencias .
Muito gostoso de ler. "Bote esse Vadim pra escrever" mais peripécias. Bjs Mirtes
Que delícia este Vandin. Todos carregamos a infância na alma.Parabéns.
solares · São Paulo, SP 26/3/2009 10:46
Dios mio ! Quero beliscar a bunda desse Vandin, rs.....Não é tara
não....é paixao por ele.....hehehe
essa sensação eu conhecõ, ó.
"Por sorte o tempo continuou passando por debaixo do meu odioso medo."
... e o final, ótimo. Nada como deixar o tempo passar e beijar nossas covardias heroicas. rs né não ?!
a d o r e i.
bjsssssss;)
Wancisco, voltei e votei amigo. Bjs, Mirtes
Mirtes Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 26/3/2009 18:40
espetacular !
..eu sempre detestei valentoes...rs
e , a tempo : o que vc tem contra os joão eduardo ?...rsrsrs
abraço, vc escreve amgnificamente !
um texto de se recomendar, muito bom mesmo.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 26/3/2009 19:31AMIGO COM PRAZER VOTADO SUAS LETRAS SAO OTIMAS PARABENS PODE CONTAR SEMPRE COM MINHA PRESENÇA DEVIA PUBLICAR ESTAS OBRAS EM LIVROS UM ABRAÇO AJUR SP
ajursp · São Paulo, SP 26/3/2009 20:07
wancisco franco · São Paulo (SP)
O GÁIA
Umas descrição bem feita de uma turma de adolescentes que sempre eram vistos passando e desfrutando do movimento e das alegrias da Rua Sete.
Lembra muita infância e juventude.
Lembra desse tempo importante da vida.
Abração Amigo
bem escrito meu amigo e pem pensado os personagem um abraço
arnaldo cavalle · Jaboatão dos Guararapes, PE 26/3/2009 21:16
Wan,
Que desforra!!!
mas independente disso,
nossa meninice e mocidade,
deixa um lastro de
lembranças e de saudade.
bjs
wancisco,
desforra precisa de muito fôlego.
e você tem de sobra...
completando a votação!
Muito bom mesmo, parabéns ! O moleque sempre encanta a gente !
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 26/3/2009 22:28
Amigo Wancisco, esse vandin é mesmo um bisbilhoteiro.
O vandin é para mim
Alguém comprometido,
Repassando seus lembrados
Convocando o esquecido
Para ouvir a história
Do Teatro divertido
Parabéns!!!
Voatdo!!!
beijo
Doce!!!
É... Vandim ta crescendo, rs
qdo vai pintar um "more" na vida dele ?! rsrs
Quero sabe-lo louuuuuuco de teeeeeeerapia ! rs
bjssssss;)
muito bom ! Wandim estava perfeito nesse belo texto, parabéns!
Chico Piancó · Fortaleza, CE 27/3/2009 11:02
Já virei fã do Vandim. Ele está merecendo um livro.
Abraço
Caro poeta, contista, enfim, carpinteiro das letras, votado! Forte abraço.
Gilbson Alencar · Brasília, DF 27/3/2009 20:43
wancisco,
Cá estou, caro overmano, a me deliciar com as histórias de Vandin.
A atmosfera me fez lembrar dos meus tempos de menino, em que a rua era um mundo a ser desvendado junto com as outras crianças da redondeza.
Existia também uma tal rivalidade com alguns vizinhos de outras ruas, mas nada de muito sério a ponto de rolar socos e pontapés. Só um sentimento de querer fazer do seu cantinho melhor que o do outro.
Hoje, as ruas estão tão vazias. Tenho pena das crianças de hoje, presas em seus castelos de aço e entretidas com seus jogos de video game. Elas não sabem o que estão perdendo..
Parabéns mesmo pelo trabalho.
Voto com todo mereceimento.
Belo e primoroso o texto e toda a história. Wancisco, será sempre um prazer ler o que escreves nestas páginas. Parabéns!
Bruno Resende Ramos · Teixeiras, MG 28/3/2009 01:18Gostei, aprovei, votei e tá votado. Seus textos são bons pra caramba!!!
José Cycero · Aurora, CE 28/3/2009 15:38
Com atraso mas, com imenso carinho compareço.
Pouco tempo hoje usando uma lan.
wancisco ,
Realmente um belo trabalho!
Votado!
Abs
Tenho medo que Wandim morra...
Franco, que arretado cara, dignamente belo.
abraços
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