Antes que alguém me pergunte quem seria o lunático de criar um galo num apartamento, devo esclarecer alguns pontos. Em primeiro lugar, não era bem um apartamento. O prédio era bastante antigo, em um subúrbio que parecia estacionado no tempo. E os moradores do primeiro andar foram privilegiados com uma área extra descoberta. Podia-se dizer que funcionava mesmo como um razoável quintal. Os vizinhos menos afortunados, além de viverem em espaços mais restritos, ainda tinham que tolerar o galo do cento e um. E olha que isto não era nada fácil.
Já é difícil suportar um cachorro disposto a latir em um condomínio, principalmente aqueles que gostam de perturbar na hora em que você está em frente à televisão ou ao telefone. Ou ainda, deitado na cama pra dormir. Entretanto, cães são figuras fáceis nos centros urbanos – eu mesmo já tive o meu - e acostuma-se mais ou menos com seus ruídos. Quem nunca teve por vizinho espécimes caninos a afrontar a santa paz ? Pois é, caro leitor, tive muito mais que isso, tive o marido da galinha como morador de meu edifício. E daí adveio o desespero. O motivo de meu desabafo.
Foram longos dois anos suportando a criatura de penas, que parecia ter um relógio biológico alterado. Para o mal. Não era um galo comum, era pior. Não cantava às cinco e meia, seis horas, todos os dias. Se o fosse, eu poderia até reclamar, porém acabaria me acostumando com a regularidade e o despertador gratuito. O dia até renderia. Mas não, o animal cantava à hora que lhe desse na cabeça, durante toda a madrugada. Certa noite, insone, registrei: ele cantou à meia-noite e quarenta, às duas e dezoito, às quatro horas e três minutos e encerrou os trabalhos às quinze para as seis.
Tampouco era um canto de galo qualquer. Não ouvi muitos na minha vida, mas eu tinha conhecimentos suficientes para constatar a anormalidade daquela cantoria. Era extensa, longa demais, e também intensa - carregava em certos agudos, apesar da rouquidão. Era de furar os tímpanos. Eu tentava me disciplinar para não enlouquecer, após inúmeras tentativas frustradas de diálogo e reclamações com meu vizinho. Procurei incorporar o espírito bucólico, colocar tampões, usar fones de ouvido. Fazer ioga e meditação. Nada adiantou. Era sempre aquele som maldito cortando a madrugada e intoxicando-me de vilezas.
Intoxicando-me, sim. Não quero me justificar, mas era impossível ficar passivo diante daquela situação. O desespero intenso levou-me a pensamentos vingativos, que rapidamente me consumiam. De início, canalizei meu ódio no vizinho. Era natural. Procurava um pretexto para me desentender com ele (além da maldita questão do galo, é claro ! ), mas não conseguia. Provocava-o para que perdesse a cabeça, mas ele reagia com um cinismo apaziguador. Não se perturbava com nada. Então, numa outra fase, passei a me esforçar para abstrair, na esperança de que o galo morresse de causas naturais. Em vão. Não sei quanto tempo esses animais vivem, mas ele continuava insistindo em viver.
Certa noite em que o maldito bicho entoava sua irritante cantoria de forma mais intensa, passei a tratar o assunto como pessoal. Era uma questão entre mim e ele. Somente nossa. Não sei por que os outros vizinhos não se desesperavam como eu. Reclamavam, sim. Comentavam, discutiam o problema. Mas logo depois deixavam de lado. Eu não tinha solidariedade alguma nessa questão, e isto aumentava o meu desespero. Foi então que comecei a imaginar o galo morto. Sim, mortinho da silva, com o maldito bico fechado e a garganta murcha. Maldade ? Pode ser, mas plenamente motivada.
Foi aí que tive a tal ideia. Galos se alimentam de quê ? Baratas, minhocas, restos de comida. Além destas porcarias, ração e milho. Milho ? Era simples. Eu morava no segundo andar, e a janela da minha sala dava para o quintal do vizinho. Bastava dar ao galo alguma coisa, digamos, indigesta para comer. Nesta noite fatídica, cozinhei um punhado de milho até que amolecesse um pouco. Precisava de algo para dar liga, e experimentei maisena. Deu certo. Por fim, acrescentei uma pitada de veneno para ratos. Seria o suficiente para um bípede emplumado, ainda que parrudo. Arremessei a massa pela janela lá pela meia-noite e deitei-me.
Isto foi no final da noite anterior. Eu não dormi de tanta ansiedade. O galo continuava a cantar, cortando o silêncio da madrugada diversas vezes. Eu ria sozinho, imaginando o seu fim. Acordei pelas dez da manhã em um triste sábado, ouvindo a gritaria lá embaixo. O caçula do vizinho, de três anos de idade, ingeriu um pouco da pasta tóxica. Vomitou e sentiu dores, sendo levado às pressas para o hospital. Graças a Deus, recuperou-se e passa bem em casa. Senti-me torpe e cruel. Jamais me perdoaria se tivesse acontecido o pior. E o galo, querem saber ? Continua vivo e loquaz.
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