- Mãe, posso ficar com ele ? - pergunta o garoto, aproximando-se da mulher que enfrentava uma pilha de louças.
Ele, no caso, era um filhote de gato magrelo. Preto, com uma mancha branca na ponta do rabo. Fora achado pelo menino numa esquina, e trazido dentro da mochila do colégio, tendo o cuidado de deixar a aba aberta para o animal respirar. A mãe, desempregada há pouco tempo e ainda se acostumando aos afazeres domésticos, não entendeu direito a pergunta, abafada pelo barulho da máquina de lavar roupas desregulada.
- Pode ir pra onde, meu filho ?
- Não, mãe, tô perguntando se posso ficar com ele, olha aqui ! - diz o menino, quase gritando e estendendo o bichano na direção da mulher.
- O que é que você foi me arrumar ?!? - ela berra, com um tom de desespero.
- É só um gatinho, mãe. Posso ficar com ele ?
- De jeito nenhum, você tá louco ? Não sabe que eu perdi o emprego, tamos passando por dificuldades ?
- Ele come qualquer coisa, mãe, não vai ter problema. É barato.
- Menino, não é só dar comida. Tem que tratar, levar no veterinário. E o seu pai ? Você sabe que ele odeia bicho dentro de casa.
- Mas ...
- E você e o seu irmão vivem com nariz entupido, cheio de alergia. Além disso, aqui no prédio não pode ter bicho.
- Eu prometo que num fico doente. E a Dona Lúcia, não tem um cachorrão ?
- E todo mundo vive enchendo o saco dela, não é ? Chega, não vamos discutir. Vai botar ele de volta onde você achou, agora mesmo !
O menino acaba desistindo diante de tamanha reação. Recoloca o animal com carinho na mochila, e caminha desolado em direção à porta. Parece se lembrar de algo e volta.
- Mãe, onde ele tava é numa esquina, cheia de carros. Pode até morrer atropelado. Posso botar em outro lugar mais seguro ? Ou tentar arrumar um dono ?
- Faz o que você quiser, só some com ele daqui.
A mãe volta a seus afazeres com certo pesar no coração. Mas tinha que ser dura nessas situações. O garoto se afasta lentamente, pensando o que faria com o animal. Enquanto desce as escadas do antigo prédio, ele nem nota a ansiedade do bichano, que tenta insistentemente sair da mochila agarrada a seu corpo. Ao pisar na rua, pensa que o melhor seria deixar o gato no parquinho, a alguns quarteirões dali. Ficaria feliz com outros que lá viviam. E foi o que fez.
Envolto em seus pensamentos, retorna abatido para casa. Lembrou do pai naquele momento: “Homem não chora !”. Não se importou em desobedecê-lo.
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
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