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O HOMEM CONSUMIDO

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Ronie · Pedro Osório, RS
12/2/2010 · 4 · 2
 

O HOMEM CONSUMIDO
Ronie Von Martins

Os olhos em lágrimas que jamais não chorariam na pele da cara sua, brilhavam no rosto da cibernética outra criatura. Quadrada forma de intenso devorar a ação. Preso. E junto todo o resto e entorno. A carne mastigada em luz, cuspida em sites, cortada em sítios, a imagem rápida; diversa; de tudo quanto é nada. Um nada presentificado, construído dentro e que se expande gradativamente. Outro mundo?
Plano de nova realidade. Multifacetária, plurinacional, multiplicável, a falácia do discurso total. Todos os discursos, todas as palavras, todas as vozes, todos os rostos. O mundo todo. Mas apenas uma face. Tua. Fascinado. Seduzido. O passado e o futuro te habitam. Tens a vã idéia que te ensinam que te informam, mas a rapidez com que alimentam teus desejos de saber e prazer não condiz com as possibilidades do teu corpo e da tua carne humana. E te constróis através dos retalhos, dos trapos das informações mal ingeridas que compõem teu alimento. Excremento?
E da sensibilidade que pretendias ter do mundo e das coisas que o mantém, o que consegues é o mais comum de todos os sensos. A tela da máquina que és brilha intensa. Queres lágrimas para chorar... Buscas na máquina os sentimentos... Queres imagens para lembrar... Na máquina... Queres inclusive os prazeres que da carne pertenciam anteriormente? Busca na máquina o orgasmo virtual; corpos constituídos e produzidos na ilusão da imagem consertável, sexo da palavra pura, sexo discursivo, dialético, prazeres da contemporaneidade.
O cérebro, empanturrado de informação, prazer e brilho. Mas o corpo, em seu triste estribilho resmunga... e os verbos dominados pelo Estado, rejeitam e renegam a ação. A física dos corpos está contida na luz digital, no som das teclas que constituem um outro plano... Matrix? A ficção? E tudo aquilo que era o homem já mais não o é. Toda a filosofia, a sociologia, a religião, a moral, a ética, a medicina, a educação, até a política... Devorados. Consumidos pela bocarra virtual.
Dragão contemporâneo. Ame-o ou morra encéfalo! O papel, investido de novo vilão das instancias naturais do nosso real, é acusado violentamente da miséria em que vivemos. Abaixo o livro!! O texto deve ser livre... O papel é a prisão do discurso, do verbo... Digam não ao papel!
E limpam, sem exceção, o mundo inteiro, suas bundas... Magras e gordas, raquíticas ou fartas... e correm para a luz , a nova religião, o mais novo vício...
E estamos todos ligados. Energia que nos conecta, veias elétricas que nos transformam numa grande entidade midiática, por fim o verdadeiro “uno”, a criatura final. Nossas vidas depositadas em caixas, nossas imagens expostas ao universo, nossos segredos vendidos como mercadoria. Já não somos o que éramos agora somos o que nos tornamos... E nos tornamos o que querem que sejamos. Somos o Frankstein. Somos fotos, filmes, palavras escritas... Conseguimos por fim eliminar a morte.
A grande vitória. O corpo perfeito, a criatura perfeita. A tecla é pressionada e seu texto é arquivado e enviado pro mundo inteiro, tua imagem é salva das decrepitudes do tempo, você sorri. Está satisfeito. És eterno. Só falta o peso. O corpo. Sim... é claro. Um estalido seco, uma gota de sangue na tela do computador e a grande criação está livre...

Pedro Osório sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sobre a obra

Conto que trata da difícil relação entre virtual e real, tensionando aspectos como perda da individualidade e da massificação do sujeito pelas novas mídias.

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Autoria
Ronie Von Rosa Martins
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Cláudia Campello
 

viva a tecnologia.......salvando trocentos bilhoes de arvores.......
mas os livros.....deixe nos....pelamordedeus!

gostei...escreve com otimo raciocinio e sem frescura.
bjssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 13/2/2010 03:24
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Sihmoneh Maia
 

Diante desse cenário, somos tudo e não somos nada. A contradição em pixels e frases feitas, digitadas com uma ansiedade, uma urgência que talvez traduza nossa covardia de encarar os seres humanos REAIS, que perambulam pelas ruas, nossos vizinhos, nossos amigos que há tempos não vemos. A era da "inexistência", ou pelo menos, da "descaracterização de personalidades".
Taí. É o mundo no qual somos forçados a viver. Teclando e teclando pra todos e pra ninguém. Naturalmente, há os que abominam as novas tecnologias e se mantêm fieis aos velhos padrões de comunicação. Ainda há fanzineiros, ainda há escritores vendendo a preço de banana seus livros em semáforos, travando diretamente - olho no olho - os que compram ou não compram, os que têm sede de cultura dita "marginal" e os que só se saciam diante da tela iluminada de seus PCs, cada vez mais incrementados.
Excelente análise e expressão desses nossos dias. Parabéns! Já está entre meus fav. ones...
Se não tiver nada melhor pra fazer, dá uma pescoçada no meu perfil e veja se tem algo lá que te agrade. Se não tiver, manifeste-se contra. A crítica é tão importante quanto o elogio... Talvez até mais!
abço!

Sihmoneh Maia · Santo André, SP 15/3/2011 14:38
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