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O HOMEM DE TERNO

1
Thiago Toscani · Florianópolis, SC
13/6/2008 · 81 · 9
 

- Por favor, eu quero que a minha sepultura seja bem rasa.

Ele ergueu os olhos. Ficou ali, estático. E, sem olhar para trás, ouviu, novamente, a voz:

- É que eu quero sentir a chuva...eu gosto da chuva.

Vagarosamente, o coveiro virou-se. Com a pá na mão, viu, na beira da cova, em pé, a figura de um homem. De terno preto. Segurava as duas mãos na altura do peito. Parecia constrangido e assustado.

- Você entendeu? A cova....não faça um buraco muito grande...assim eu posso...

- Quem é você? – disse o coveiro.

- Eu? Eu, bem...não sei se isso faz diferença. A essa altura da minha vida...

Foi quando o homem de terno parou de falar. Seus olhos, que antes demonstravam uma dose de “pena de si próprio”, fixaram-se no chão marrom da terra tirada de dentro do buraco. Lembranças invadiram sua mente. A palavra “vida” soou em seus ouvidos de maneira estranha. Ao capotar com o carro em uma estrada, o homem de terno jamais imaginara que, algumas horas depois, estaria ali, de pé, ao lado de sua cova.

Ainda sem compreender, o coveiro insistiu: Quem é você?

- Eu sou a pessoa que...vai morar aí embaixo...(pausa)...estranho isso, não?

- Desculpe, mas eu não estou entendendo. Vou subir aí, porque não consigo ver seu rosto, disse o coveiro, confirmando a total falta de compreensão da situação. Ao aproximar-se, o coveiro girou a cabeça para o lado, desconfiado:

- Tenho a impressão que eu lhe conheço...de algum lugar...

As mãos do homem de terno pareciam agora querer dizer algo, embora não soubessem como.

- Hã....deve ser da capela A?

- Olha, até pode ser...se bem que... – foi aí que o coveiro engoliu seco.

- O que foi? Fiz algo errado? – indagou o homem de terno, dando dois passos para trás.

- Você...vo...é o...caixão...eu vi...lá... – as pernas do pobre homem afrouxaram-se. Agarrou-se na pá, que o segurou de seu próprio medo. Ou horror. Ele vira o homem de terno. Duas horas antes. Dentro de um caixão, na capela A. Era o velório de um homem que morrera em um acidente de carro. “Essa vida não vale nada”, pensou, ao olhar o pobre homem no caixão. De lá, o coveiro seguiu para cumprir sua tarefa diária. Abrir covas.

- Olha, não quis assustá-lo. É que já é desgastante o suficiente ficar horas encralacado dentro daquele caixão. Se você puder fazer eu me sentir melhor dentro dessa cova, já me ajuda, revelou o homem de terno, com um sorriso amarelo de dar dó.

Silêncio.
Mais silêncio.

- Você...você está com medo né? Bem, eu....que constrangedor. É a primeira vez que me sinto assim. Talvez porque eu nunca tenha morrido antes né?, disse o homem, tentando descontrair o bate-papo com um risinho.

Mas a face do coveiro parecia envergar-se de pavor a cada nova palavra saída da boca do falecido. Balançava a cabeça negativamente, como que tentando acordar-se de um pesadelo. Mas ele não estava dormindo. Tremendo, segurou a pá. Respirou longamente e, numa ação mecanizada, começou a jogar a terra para dentro do buraco novamente. O defunto continuava ali. O coveiro, trabalhando com a pá de costas para o homem de terno, sabia disso. De repente, um raio invadiu o céu escuro. E os primeiros pingos de chuva começaram a cair. Tímidos. Depois, ferozes. A face do coveiro, molhada, continuava fixa na pá e na terra lançada para dentro do buraco.

Após alguns minutos diminuindo o tamanho da cova, ele virou-se. A visão embaçada pelo temporal – ou pelo temor de olhar novamente para trás – denunciou a ausência do homem de terno. Ele não estava mais lá. Foi quando a chuva cessou. Depois de longos minutos, olhando para dentro da cova, o coveiro, inesperadamente, sorriu. O homem de terno já poderia sentir a chuva.
E descansar em paz.

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Doroni Hilgenberg
 

Thiago, bem estruturado o teu conto e uma leitura agradavél, num tema tão lugubre como a morte. Que bom se pudessemos ter essa chance de aparecer para proporcionar a nós mesmos alegrias momentâneas. Bjsssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 12/6/2008 15:45
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Doroni Hilgenberg
 

Voltei para vdeixar-lhe meus votos e Parabéns!!!!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 12/6/2008 17:13
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Cristiano Melo
 

Caramba! Gostei muito de seu escrito.
uma tragicomédia...
Parabéns.
votos e abços.

Cristiano Melo · Brasília, DF 12/6/2008 19:23
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Nic NIlson
 

Aeh, meu véio, pq vc naum manda este texto como roteiro pro Festival ACI de roteiros? Tem muita chance de ganhar um premio, dá otimo filme.
entra no site, prencha a ficha de inscriçao e manda ele, cara.
http://festival-aci.vilabol.com.br
valeu, bom mesmo!

Nic NIlson · Campinas, SP 12/6/2008 21:40
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Cherry Blossom
 

Maravilha Thiago! Como já disse a Doroni o conto ficou muito bem estruturado e como também já disse o Nic, daria um excelente roteiro para um curta, sum dúvida nenhuma. Você está se superando hein!
beijos!

Cherry Blossom · Dracena, SP 13/6/2008 11:35
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L.S Lima
 

Muito bom, Thiago. Gostei do tema, da abordagem e do final, que é muito terno, delicado e humano. parabens! votado

L.S Lima · Belo Horizonte, MG 13/6/2008 14:08
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ayruman
 

Parabens. Belo e original Texto.jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 13/6/2008 15:14
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clara arruda
 

Achei maravilhoso.
Publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 13/6/2008 18:57
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Nic NIlson
 

Opa, Tiago, enviei seu texto como roteiropara o festival ACI- seu numero de inscriçao eh: Toscani62-2008, ok?
Boa sorte, valeu. So me mande a ficha de inscriçao da aci preenchida para validar a inscriçao, ok?

Nic NIlson · Campinas, SP 16/6/2008 09:59
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