Ainda remoendo as palavras daquele velho monge de o “AMOR É O LIMITE!”, indaguei a mim mesmo, em que estrela teria surgido esse sábio do bem. Não contendo a ansiedade de novamente vê-lo e ouvi-lo, por mais uma vez, não hesitei em procurar o tibetano. Cerca de duas horas depois, o encontrei velando a vastidão da noite balbuciando incompreensíveis mantras, e, sentando-me ao seu lado, onde havia dezenas de outros curiosos, disse-lhe: “Mestre, ensina-nos o que ainda não sabemos!” Ele ergueu compassadamente ao céu o dedo indicador, e rolou-nos enigmáticas pedras de ferir escuridão:
(Nessa noite havia chovido torrencialmente em Belém).
1.
Ouçam-me,
oh! filhos do novo tempo.
É chegada a hora de arrependerem-se
das mal paridas cópulas...
Nada através do olhar
sobrevive a cerca do que tenras lágrimas reivindicam:
— Lutar... Procurar... Talvez achar!
A única vida digna de ser vivida
é a vida impetuosa...
O perigo que a outros acovarda
incita o destemido.
O corpo é a alavanca do espírito;
o corpo e o espírito
são dois aspectos do mesmo ser,
e este espírito caracterizou-o de sua origem verbal:
— O homem ideal.
2.
A despeito de existir o medo
e o negror, a sorte está traçada:
— Vim... Vi... Venci!
Eis acima de nós a perfeita argamassa...
É necessário que ela cresça
e que eu diminua...
É imperativo que eu vá,
não é imperativo que eu viva.
Ponderem convosco
se há qualquer coisa de incrédula
na teoria da parábola:
— O vazio carece de solidariedade,
e sorver-se uma dose de expiação
intimida os flancos da agonia.
3.
Oh! filhos da ilusão!
Advirto-vos solenemente
de que os morros da ganância
ouvem rumores assassinos...
O tempo apresenta-se indeciso...
Obra de longa e célere gestação do desejo.
Lembro-vos do que disse o poeta:
— Derramo todas as lágrimas
que não são capazes de aliviar meu coração
naquele que me expia!
4.
Amem o imo da verdade!
Amem o lusco-fusco da vida!
Quando o sol se puser
vigiem os vossos destinos,
porque aqueles que são escravos
de suas paixões e crimes
negam suas liberdades.
— Não são livres nem de fato
nem de direito...
Perdem-se em seus idealismos
e a ilusão corre à rédea solta.
Amem-se... Amem-se como a pedra ama o silêncio
e desconfiem que o mutável
seja qualquer coisa
— Inconstante!
5.
No caminho do sol
não sacrifiquem seus passos
com murmúrios desnecessários.
Sejam concisos
e não arredem um palmo
dos vossos pressentimentos;
tampouco mudem um viés das vossas verdades.
Lembro-vos do que falou o poeta:
— Todo o homem que dia-a-dia
entrega-se à prática de apoucados atos
que exigem esforços,
que é sistematicamente heróico ou asceta
em combates de inteira paixão,
sentir-se-á amarrado a energias interiores e poderosas...
Pondero-vos que a verdadeira nobreza do homem
é medida pelos sentimentos
que ele domina
e não pelos sentimentos
que o dominam...
O que o homem semeia
na sua boca,
da sua boca abrolhará a corrupção.
6
— É na solidão do poeta
que as mãos,
coração e mente
são sempre concebidos.
Insurgir-se contra o verbo
é insurgir-se contra o inevitável.
Ensino-vos de que o homem vale na proporção
do esforço que se impõe:
quem nada faz nada vale.
— Oh! Filhos do âmago!
Todo trabalho honesto dignifica o homem,
mas se o trabalho não lhe honra no suor
honra-o na dor.
Digo-vos que a vida começa aos quarenta
e aos quarenta e oito
torna-se um primoroso gameta.
Ah! Ver em ação
um homem que é implacável inimigo dos bons,
porque só ama os melhores
é ver o mundo sob uma luz
surpreendente fosca e infeliz.
7.
Sede vós logo perfeitos
como é perfeito o caule que sustenta a liberdade.
Com a injustiça com que injustiçardes a outros
sereis injustiçados.
Não vos esqueçais da virtude:
— Tudo que quereis
que os justiceiros vos façam
fazei também a eles.
Não há perfeição
como não há liberdade sem leis...
De que vale o livre-arbítrio da corda sonora
que foi removida da viola?
— Está livre
mas não vibra,
lastima-se...
É a liberdade da morte!
8.
No pedido da manhã
clamai-vos o alimento com prudência.
Permanecei-vos judiciosos nas horas brandas do sol.
Desconfiai-vos dos puros de mãos corruptas,
porque a cada imperfeição desafiam limites:
— Há limite à perfeição humana
mas não há limite
para a imperfeição da palavra.
Digo-vos de coração:
- As impressões digitais do poeta
vêem-se nos olhos multifacetados de um besouro
e nas asas furta-cores de um beija-flor...
Nada é insignificante
Àquele cuja copulada perfeição
desconhece limites.
9.
Oh! sementes do amanhã!
O ódio não contém em si
o germe do amor...
O amor não contém em si
o germe do ódio...
Ambos caminham continuamente
lado a lado.
Não vos esqueçais
da parábola do vôo do inseto,
que menospreza o ângulo e a fina flor da procura...
Advirto-vos de que vossas galas
são ânimos de vida
e a gravidade do pecado independe do tempo:
Se lenta; se rapidamente...
10.
Não só os perfeitos violam o espírito da lei.
Violam-no o canalha.
Violam-no o trapaceiro
para avolumar lucros.
Violam-no todos os que assistem
aos sofrimentos alheios:
— Quebrado um elo,
está quebrado o todo.
Somente aquele que compreende
que a fome é inexplicável e desprezível
sabe o que ela é capaz...
Trivialidades são trivialidades
apenas aos triviais...
— Malbaratando-as,
malbaratam a própria vida.
11.
Aquele que inventa o tempo insulta a providência.
Desperdiçá-lo de dia na esperança
de reavê-lo à noite é inverter
a força da meiguice.
Lembrai-vos
do que disse o poeta das orquídeas selvagens:
— A fé é a razão da palavra não concebida,
é o alimento daquela que não pereceu...
— Extirpai para longe vós,
o homem corruptível do século XXI:
Esse espécime cruel
que mas parece o símbolo do pentágono,
do que o sujo mendigo das sarjetas.
12.
Irmãos do sol, Primos da lua,
digo-vos bebendo nuvens
de que o homem que habita a escuridão,
é o mesmo de há três ou sete milênios
a quem o aço da humanidade
não alterou a alma.
— Visceralmente egoísta,
altivo e admirável às vezes;
— Execrável e desconcertante outras vezes.
Oh! frutos do bem!
Santificai-vos, por fim, e comam o pão que engole a fome,
que é puro e manso...
Lembrai-vos, agora e sempre,
de proteger esse feixe de musculaturas:
— O Amor...
Cachos de aspirações
e contradições,
que o fadam a perpétua inconstância...
13.
Ofusca-se a clareza do branco
e o negrume do preto.
Tudo se torna verbo
— Essência...
— Matéria...
— O homem, esse desconhecido!
Benny Franklin
"Sem perder a ternura, jamais..."
Série "Eu e o Monge".
Benny Franklin,
e nós ousamos querermos acreditar que nos conhecemos.
As ambições contaminam os caminhos e amor e ódio germinam entre si, ao invés de serem permitidos apenas seguir paralelamente. O saber ter cautela com as leis da ação, sabendo evitar o temor à reação. A clareza sobre si mesmo, pode aplacar o negrume do desconhecido, mas como sempre, é um caminho árduo, que bom que nos salvam as poesias, e sapiências como estas do teu amigo Monge.
Belíssimo, tocante e reflexivo. Parabéns mais uma vez e um abraço.
Deixando toda a minha ternura.
Um grande abraço meu poeta del mundo.
Eis acima de nós a perfeita argamassa...
É necessário que ela cresça
e que eu diminua...
Benny
Repleto de filosofia. Muito bom. Parabéns.
Meu voto.
Um abraço
EG
"O que é escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer.", Samuel Johnson.
Bela poesia! Votado. Abraço
Lembrai-vos, agora e sempre,
de proteger esse feixe de musculaturas:
— O Amor...
Cachos de aspirações
e contradições,
que o fadam a perpétua inconstância...
Benny,
Como sempre, um poema forte e carregado de imagens.
Belíssimo.
abrs,
"não sacrifiquem seus passos
com murmúrios desnecessários..."
Acabei de ouvir esta frase no sermão da Missa das 10.
Religiões, filosofias, poesias: O Homem em busca de respostas, conhecimento dos mistérios que o cerca e sobretudo do auto-conhecimento...
Lindo.
bjs.
AMIGO BENNY
Lendo, relendo e "relendo lendo" (será que posso usar esse artifício?), é uma viagem! Parece que fui ao Tibet(e)? Não usei corretivo!
Bom? Belo? Educativo?
Filosofia? Poesia? Teatro? Magia da escrita?
Tem tudo isso nesse escrito...
É a coerência de um poeta e escritor maduro, que domina
a técnica (como quase ninguém) de prender o leitor... E sabe o que escreve!
É uma aula de filosofia e literatura.
O desconhecido é um caminho perigoso... Mas, necessário ao
desenvolvimento humano!
O monge ensina! A gente lê! E cada um caminha nas estradas da vida...
Benny descreve com maestria!
Parabéns amigo!
Abraços.
Lailton Araújo
O Homem
Em seu verbo
na trans_(a)parência
do que está escondido
Só pra ele ...
Beijos_Meus*
*
Dir-me-ão que sondar estrelas é ouvir os espermatozóides jogando porrinha pra ver quem é o escolhido... Ouvir o monge interior é andar de ponta-cabeça sobre a linha do equador... De palavra forte e retilínea Benny entende tudo... Que dirá de palavra forte e retilínea cozida no fogareiro último da última tribo marajoara traduzida para o III milênio, em forma de poesia, essa poesia que nos inunda a alma humana de benfazeja e imortal agonia... Essa agonia, tua verve, nosso prazer... Dizer que é grande o que escreves é tocar as estrelas com a ponta da lança do imortal guerreiro amazônida... É pintar o muiraquitã com a cor dos festejos caboclos e aquela urbana e necessária lira beatnik... Abraços...
Pepê Mattos · Macapá, AP 30/5/2008 22:47
Benny...você sempre muito inspirado!!!
Que beleza de texto!!Ainda temos muito a aprender nesse percurso do amar....Por isso não alcançamos a felicidade....sem amar...como praticar a fraternidade?Poucos ...muito poucos...conseguem...
Medos...angústias...erros..tão seus..tão meus...tão nossos....
É preciso muita meditação e ação em direção ao outro....eis o caminho do meio que poderá nos ensinar o amor...
Super parabéns,meu lindo poeta...que tanto adoro!
beijinhos azuisinfinitos...
Raiblue
Benny Franklin · Belém (PA)
O HOMEM, ESSE DESCONHECIDO!
Sua Poesia é muito bacana pra gente sempre refletir.
.......Quando o sol se puser
vigiem os vossos destinos,
porque aqueles que são escravos
de suas paixões e crimes
negam suas liberdades.
— Não são livres nem de fato
nem de direito...
Parabéns.
Tem todo merecimento do mundo.
Abração Amigo
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