Em qualquer fila, ônibus, metrô, restaurante, onde houvesse algum tipo de ajuntamento de pessoas desconhecidas umas das outras, lá ele estava, já não sabia se por vontade própria ou por necessidade imposta. O que o caracterizava talvez era a face que não expressava coisa alguma ou um trejeito de que nada o tiraria do sério, provavelmente essas eram as características encontradas por todos que tinham um impulso quase incontrolável de conversar com esse indivíduo.
A simples atividade corriqueira de se ler ou dormir em lugares onde o ócio era uma atividade necessária, era de extrema dificuldade. Sempre apareciam pessoas com frases tão óbvias quanto surpreendentes.
- Aí mano, que mina gostosa aquela ali, né não?
Sempre muito solícito, acreditava que um dos cernes dos grandes problemas mundiais estava na falta de comunicação. Nunca, em situação alguma, deixou de responder a menor pergunta que lhe era feita. Essa comunicação às vezes ocorria por meio de gestos, a primeira frase por exemplo poderia ser simplesmente uma troca de olhares, que diria praticamente tudo: a mina era definitivamente gostosa, era o que o olhar coletivo que confirmava.
Desde "o dia tá quente hoje" até "que livro é esse?" o Homem que Conversava já tinha ouvido todo tipo de começo de conversa:
- No Brasil não tem aqueles ônibus de dois andares não né?
- Creio que não...
- Lá em São Paulo já vi uns...
- Ah legal...
Por vezes descontinuava a conversa, só a pequena atenção era suficiente para dizer que ele estava ali a qualquer momento quando surgisse um assunto mais interessante. Mas o curioso de se notar é que o constrangimento da obrigatoriedade de se conversar ficava no ar, com isso se a pergunta tivesse sido feita no começo da viagem em um ônibus no meio deveria rolar um outro questionamento do tipo: "Como será que eles fariam para passar por baixo das passarelas?" Um "não sei" provavelmente satisfaria o protocolo de conversas com desconhecidos. No fim do encontro não planejado, as regras são claras, mesmo que tenha falado uma única palavra despeça-se, ninguém sai sem se despedir, todo aquele vínculo de amizade instantânea será quebrado. Aquele homem seguia rigorosamente todas as regras que o constragimento lhe impunha.
Notou ao longo do tempo, que os assuntos eram tão variáveis quanto a forma como eram abordados. Um assunto extremamente formal para alguns transformava-se na mais informal das situações:
- Puta que pariu, tu viu que o filho da puta do Obama ganhou a porra das eleições? McCain se fodeu!
O assunto religião se fazia recorrente, sempre tinha algum senhor de certa idade querendo dizer que Deus é o cara e que devia aceitá-lo senão, bem... senão o velho inferno o aguardava.
- Um irmão me disse um dia desses que ia seguir o Evangelho do jeito que achava melhor, aí eu disse para ele que desse jeito ele iria pro inferno do jeito que quisesse também. Né não, meu irmão?
O Homem que Conversava tinha já algumas técnicas desenvolvidas com esses anos de experiência, se quisesse discordar de alguém fazia isso quando estava próximo de sair do local, se fosse num restaurante por exemplo, já tinha o prato vazio. Para isso, bastava dizer, por exemplo que não achou aquela mulher tão gostosa, ou que não sabia quem era Osama ou ainda, que era ateu. A pessoa tentaria argumentar qualquer outra coisa, mas ele polidamente sairia, a "semente da discussão foi plantada", dizia; "agora que discutissem com seus pensamentos".
Publicado anteriormente em http://rapensando.blogspot.com/2008/11/o-homem-que-conversava.html
Gostei do teu texto Rap, você escreve com os olhos de quem observa o cotidiano, não perdeu a linha, parabéns..
Votado.Abç..
O homem é um ser que conversa emitindo o verbo! Bela narrativa do cotidiano meu caro. Meu voto e meu abraço!
raphaelreys · Montes Claros, MG 21/11/2008 04:02Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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