Tirei a roupa, o sapato e, regulei a sede com uma cerveja providencial, a única que tinha na geladeira, quase congelada. Não parava de pensar no que poderia estar me incomodando. Duas noites de sono pobre, as pálpebras inchadas pesavam e, nenhum motivo aparente para tamanho transtorno. Até a cabeça lateja de tanto remoer o enigma. Volto atrás, na segunda-feira e, refaço o dia em detalhes. Tenho certeza que foi ali que aconteceu, mas não sei bem em que momento.
04h55 Acordei antes do despertador, culpa de uma barata que voou direto na minha boca escancarada. Passei os dois minutos seguintes cuspindo no penico de plástico que guardava debaixo da cama desde sempre, logo depois que constatei que sofria de incontinência urinária. Aliás, fato esse que me impedia de ter relacionamentos duradouros. Nenhuma mulher gostava de ir deitar ao lado de um homem barbado que ainda mijava na cama;
05h05 Enchi o balde de água para jogar no vaso sanitário, pois a descarga quebrou. Notei o cocô meio mole, mas só posso marcar um exame quando pagar as duas atrasadas do plano de saúde;
05h09 Banho frio. O chuveiro queimou. Pelo menos é verão;
05h22 Não tenho meias secas. As que usei ontem, tive que interditar, jogando no lixo. Meto os pés no sapato, com as saídas de emergência à mostra;
05h31 Acabou o gás, não vou ter café. O leite da geladeira azedou e o pão dormido de dois dias é quase uma arma branca de tão duro. Deixo o estômago roncar até o fiado mais próximo;
05h53 Dois ônibus, duas horas de viagem, roupa amarrotada, dedos pisoteados e o sumiço da minha colônia barata, devidamente seqüestrada por outros odores menos pitorescos.
O dia de trabalho foi inteiramente normal: broncas, esporros, ameaças de demissão, dedo na cara, conspiração, prantos, PF no bar, mais broncas, pressão, apreensão, prazos, unhas roídas, a máquina de xerox quebrada, o elevador que não para no andar, olhares desconfiados, traições e mais ameaças. Nada de excepcional aconteceu. Fui urinar sentado no vaso e fazer uma assepsia nasal com o dedo indicador, quando me surgiu na memória uma cena bem vaga, algo distante e um tanto deslocado do meu cotidiano corporativo. A minha mão fora apertada ontem e, eu não achava a conexão. Ninguém me apresentou ninguém e não costumamos cumprimentar os colegas com mais do quê um grunhido. Lembro de quem sacudiu efusivamente a minha mão. Era isso então! Vejam só: o chefe. O supremo comandante em chefe, apertando a mão depauperada do seu vassalo mais esquecido. Porquê? Por nada que me enchesse de orgulho. Tudo culpa de um pontapé.
A máquina de xerox emperrou e deixou a diretoria em polvorosa às vésperas da reunião do orçamento anual. Ao vê-los atônitos e sem ação, não tive dúvidas, soltei o pé na máquina caríssima que voltou do além e cumpriu a sua função. Então fora só um estúpido aperto de mão que teria me deixado com todo esse incômodo! Ou foi o bilhete da sua secretária na minha minúscula mesa de trabalho? “Amanhã passe no RH”. Amanhã era hoje. Será que ia dar merda mesmo? A máquina refugou e quebrou com o chutão? Ou apertei a mão do chefe com muita força?
“Olá D. Berenice”
“Sente-se, por favor, Haroldo”
“Algum problema?”
“Não, nenhum. O chefe ficou muito grato pelo seu destempero de ontem, tanto que no orçamento anual da empresa foi incluída uma verba para a aquisição de um par de chuteiras. Veja se é o seu número?” – Disse a chefa do RH passando às mãos do rapaz uma caixa de sapato.
“Acho que sim, mas não estou entendendo”
“Ficou também uma recomendação explícita. Chegue aqui que te falo aos ouvidos”
Haroldo curvou-se para ouvir.
“O chefe pediu para lhe dizer que a partir de agora, tudo o que não funcionar direito por aqui, chute”...
(FAÇA O DOWNLOAD PARA LER O CONTO COMPL
Marcelo, muito boa essa primeira parte. Gostei bastante do tom tragicômico da narrativa. Aguardo a segunda parte para breve.
Abraço.
Leandróide,
Obrigado. Estou nas tratativas finais da Parte II. Um abs.
Marcos Bretton,
Teu trabalho é muito bom!
Se tiver barata no próximo texto, estou fora! rsrsrs
Marluce
Marcelo,
Gostei, sinceramente. Você tem talento, cara. Só espero que não tenha sido tudo verídico.
Abs
Cara Marluce,
Obrigado. O pior é que tenho uma novela pronta cujos personagens são um casal de baratas! Kafkiano até as antenas! Chama-se Escatolomorfose. Publicarei em breve.
Caro Spirito Santo, ainda bem que a minha árvore de imaginação têm dado bons frutos, impedindo que eu colete tudo do cotidiano. Obrigado pelo incentivo. Abs.
Muito bacana este teu conto Marcelo. parabéns.
Carlos Magno.
Valeu Carlos,
Obrigado por ter lido. Um abs.
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