O homem que sabia mentir

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Alexandre Lana Lins · Belo Horizonte, MG
5/4/2008 · 85 · 12
 

Úmero resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Uma grande mentira que mobilizaria aquela cidade do interior onde viveu toda a sua vida. Úmero sempre mentiu. Aliás, nasceu mentindo. Ao invés de chorar, riu quando o médico lhe deu palmadas no bumbum. Era o sinal. Seria um grande zombador. Achava que a vida seria uma grande festa! No berço chorava de fome, mas quando a mamadeira era colocada em sua boca ele ria. E como ria! Era mentira!

Na escola, todo dia contava uma mentira para os seus colegas. Alguns professores o colocavam de castigo e o dizia “Por que não escreve histórias”? Mas não, Úmero queria zombar, rir da vida e contar mentiras. Inventava mil histórias, porém quantas eram prejudiciais.

Adolescente, teve as primeiras namoradas a base da mentira. Não duravam muito os relacionamentos, claro as mentiras logo eram desmascaradas. Mas sem mulher ele não ficava. Era um galã. Tocava violão, fazia serenata e mentia. Assim, conquistava as mulheres.

Adulto, não parava em emprego nenhum, pois logo a sua fama de mentiroso se espalhava. Não casou. Que mulher queria casar com um mentiroso? E quando se viu diante o desemprego e a falta de oportunidade, um “amigo” lhe convidou para ser político. Ah! Ai foi o momento de glória! Como mentia bem esse filho de uma égua. Venceu várias eleições, mentindo. Não cumpria nada do que prometia. Era um eloqüente mentiroso no coreto de sua cidade, bracejando as promessas invisíveis.

Até que o povo cansou e ele não conseguiu se eleger em nenhum cargo. Mas, ficou rico. Enquanto, procurava outras ocupações continuava a mentir. Até que ninguém lhe deu atenção mais. Úmero, então, resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Espalhou para toda cidade que só tinha seis meses de vida. Inventou uma doença e foi tão verdadeiro que todos acreditaram. Podia ter sido um grande ator. Chorava nos bares e nas esquinas da cidade. Os religiosos rezavam pela sua saúde e Úmero passou a ser tratado como rei. O grande cidadão e prefeito que aquela cidade já teve!

Até que um médico da capital chegou à cidade e descobriu toda mentira. E a notícia logo foi se espalhando. Pronto! A vida de mentiroso do Úmero foi destruído, foi levado a fogueira, assim como o Judas nos sábados de aleluia. Ninguém lhe falava mais e nem um “bom dia” recebia. Foi definhando, acreditou na sua grande mentira e dizia que faltava pouco para morrer. Até que morreu. No dia 1º. De abril. Morreu com a doença que havia inventado. O povo daquela cidade só soube por um cartaz redigido com uma velha máquina de escrever na porta do bar. Ninguém foi ao enterro. Só ele e o coveiro. Afinal, ninguém acreditou que Úmero tinha realmente morrido. Nem o padre. Era mais uma grande mentira!

www.alexandrenoar.blogspot.com

Sobre a obra

A trajetória de um homem que fez da sua vida uma grande mentira.

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Alexandre Lana Lins
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Marcos Pontes
 

Maravilhosos!
Votado.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 3/4/2008 22:59
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david.ang
 

Muito bom. Parabéns.

david.ang · Santa Cruz do Sul, RS 3/4/2008 23:02
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Alexandre Lana Lins
 

Muito obrigado! É um estímulo ler palavras que nos incentivam a escrever e melhorar sempre a qualidade do texto.

Um fraterno abraço!

Alexandre Lana Lins · Belo Horizonte, MG 4/4/2008 10:43
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Elio Cândido de Oliveira
 

BELO TEXTO. VOTADO ..
http://www.overmundo.com.br/banco/matando-saudades
estou em votação
Visite-nos.

Elio Cândido de Oliveira · Ibiracatu, MG 4/4/2008 19:30
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clara arruda
 

No berço chorava de fome, mas quando a mamadeira era colocada em sua boca ele ria. E como ria! Era mentira!


Meus votos para a grande mentira....Adorei

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2008 07:52
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Carlos Parrini
 

Adorei, Boa sorte¹
Tb estou sendo votado. Se gostares, ficarei feliz com seu voto. Abraço.
http://www.overmundo.com.br/banco/procura-se-dona-cora-uma-doce-bandida

Carlos Parrini · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2008 10:39
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Flávio Cardoso Reis
 

adorei seu trabalho, abraços

Flávio Cardoso Reis · Luziânia, GO 5/4/2008 11:47
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Ailuj
 


Tem un ditado que diz que o castigo do mentiroso é que nao acredita em ninguem,o Úmero teve o castigo merecido,já li muitas lendas sobre mentira,mas essa é excelente!
votado

Ailuj · Niterói, RJ 5/4/2008 11:47
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Civana
 

Excelente texto Alexandre, e o final, morrer no dia da mentira, foi perfeito! Nem o padre acreditou, rs. Lembrou-me aqueles versos antigos:

"Coitado do mentiroso,
mente uma vez, mente sempre.
Mesmo que fale a verdade,
todos lhe dizem que mente!"


Parabéns poeta, deixo meu voto com carinho.
Bjos :)

Civana · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2008 14:05
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Alexandre Lana Lins
 

Obrigado a todos que votaram no meu texto! É um estímulo para continuar a escrever. Está na fila de edição o primeiro capítulo de Menino-Homem. A trajetória de vida de José Renato no interior de Minas. Romance, boi-bumbá, religiosidade e muito mais!

Espero que gostem!

Alexandre Lana Lins · Belo Horizonte, MG 5/4/2008 18:28
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Roberto Girard
 

Excelente texto!!!
Reitero comentário de Civana.
Maravilhoso texto.
Abs
Beto

Roberto Girard · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2008 10:51
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anamineira
 

Belo texto.
Cheguei depois, mas voto com prazer.
Abraços,

anamineira · Alvinópolis, MG 9/4/2008 17:40
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