Cortar pessoas ao meio, esse era o seu trabalho.
Fazer com que coisas desaparecem.
Fazer com que as pessoas não prestassem atenção no que realmente era importante.
E ele era bom.
Usava muito bem as mãos, as expressões, o texto, o fator surpresa. Sabia como ninguém manipular. Não mentia, nunca. Afinal, quando vamos a um show desses, já sabemos o que vamos encontrar. Ninguém é tão inocente assim. A não ser as crianças. As crianças realmente crêem. As crianças vêem o carro desaparecer, e crêem. As crianças vêem as pernas moverem-se depois de arrancadas do corpo, e crêem. As crianças crêem!
Às vezes, nós, os adultos, agimos, como crianças.
O ilusionista cumpria uma rotina. Ninguém entra em cena sem se preparar com antecedência. Colocava todos os objetos nos lugares. Arrumava todos os truques. Checava todas as ilusões. Armava o circo, como se costuma dizer. Ele sabia que seu sucesso dependia disso. Ele sabia que seu sucesso dependia da crença das pessoas de que, afinal, aquilo poderia ser verdade. Ele sabia que era necessário transformar toda a platéia em crianças, mesmo que por um segundo. E, para isto, tudo deveria funcionar como um relógio.
Os relógios são objetos fantásticos. Tão simples e tão complexos ao mesmo tempo. Uma série de molas e cilindros colocados de tal maneira que conseguem medir o tempo. O tempo... esse incrível enganador... medido e preso por molas e objetos sem valor. Ou não?
O ilusionista, por outro lado, não se deixava prender a nada. O ilusionista tinha em mente, única e exclusivamente, seu show. E isso era bom... sua dedicação rendia-lhe seu sustento. Mas, o ilusionista também era um homem. E por vezes, desviava-se de seus intentos. Às vezes seu olhar era traído e por um segundo via-se preso a sonhos. Seu olhar desejava. E o objeto do desejo, na maioria das histórias, é de vidro. Lindo. Translúcido. E frágil.
Os objetos de vidro são fantásticos. Ao mesmo tempo em que passam por um batismo de fogo para serem moldados, transformam-se em algo que deve ser cuidado com atenção. Ao menor contato podem se fragmentar. Romper. Deixar de existir. Ou não?
O ilusionista então, preso num desses momentos, cometeu um erro - para o bem da trama e como já era de se esperar. E só se deu conta do erro no momento da apresentação. Seu relógio de vidro estava à sua frente. Não havia como recuar. As crianças da platéia, todas, já haviam percebido que algo não ia bem com o número. O ilusionista havia sido pego. No erro. O ilusionista estava, agora, nu. Translúcido. E frágil.
Na platéia uma criança sente a tensão. A tensão do desastre iminente. Pobre criança, tão frágil diante do inevitável. Pobre ilusionista, tão surpreso diante do inevitável. A tensão inevitável.
O ilusionista, despido de seus truques, deseja que o tempo não pare. Deseja que o relógio não se rompa com o impacto. Que o vidro continue translúcido, nem que seja só para ele. A criança, despida de maldade, deseja o mesmo, embora não tenha consciência disso. A criança só quer ver a mágica. O ilusionista sua. A criança prende a respiração. O relógio é só um relógio.
E então, para a surpresa de todos, a mágica, acontece! Mágica mesmo, não os truques que estamos todos acostumados a ver. A criança aplaude. O ilusionista respira, aliviado e atônito. O público aplaude e crê. Tudo acaba bem.
Pelo menos, era nisto que eu queria acreditar, embora eu mesmo seja de vidro...
Max, meu caro, que criatividade...
Meus parabéns pelo uso da metáfora vítrea, em seu conto ilusionista.
Pergunto-me quem é o mágico aqui, o escritor ou a personagem.
Muito inteligente
Parabéns
abraços
Mágico, mágico!
Para ler e reler, encontrando a cada vez, uma surpresa neste mundo ilusório do mágico.
Perfeito!
beijos
Pois é. A mágica acontece
(nem sempre) mas acontece.
Quando a gente menos espera.
Belo texto
Um abraço
A mágica é maravilhosa! a ilusão é terrivel!
beijos no coração e meus votos
Bom. Acreditamos em tudo q queremos acreditar. Até mesmo q somos crianças, imagine! Valew
Nic NIlson · Campinas, SP 24/7/2008 18:27Suspense no ar, tensão no leitor. Narrativa primorosa, despida de clichês e muito original.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 24/7/2008 20:05
Que legal! O Ilusionista e sua maior ilusão, talvez?
Bem escrito. adorei
Gostei tanto que contribuo para a publicação.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 25/7/2008 02:14
Quanta criatividade e transparência!
Um bj
com o VOTO CERTO.
Sílvia.BH.MG.Brasil
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