Não é assim tão difícil. Se olhar bem de perto dá para ver que não são completamente lisas, parecem mais um aglomerado de faces que fingem uma esfera. E, com um cuidado cirúrgico, empurra mais uma ervilha para a fila que organizou em seu prato. Com a ponta da faca esquadrinha-as entre alguns restantes pedaços de presunto e marcas de molho. Parecem uma tropa, com seus capacetes, rumando em direção ao campo de batalha; muito organizada, é verdade. Ela, afinal, é uma general exigente. Ele se surpreende olhando-a organizar suas ervilhas. Pode pedi-la em casamento naquele instante e surpreendê-la, despertando-a de seu sonho desperto; há algum tempo carrega as alianças no bolso esquerdo apenas aguardando um momento. Imagina-se seguindo em passos curtos, ainda que decididos, rumo ao altar para encontrá-la: sapatos minuciosamente engraxados, um muito escuro terno,... não, não. Não sabe ajeitar um só certeiro nó de gravata. Desiste da cerimônia. Um noivo não pode entrar para seu desfile sem uma gravata bem disposta e simetricamente colocada. Solta um curto riso, daqueles semelhantes a um soluço, transbordando certa ironia a si mesmo, a algo que segreda para si em silêncio.
Um, dois milímetros entre cada ervilha. Ela as olha bem de perto de modo a notar suas estreitas faces que servirão de apoio; como um superior em revista ao batalhão, é rigorosa: aquelas que não se adequam a seu padrão são isoladas de forma muito pouco gentil perto de sua taça. Não faz mal, nunca gostou mesmo de ervilhas... sequer ela sabe o porquê de insistir em pedir molho parisiense.
Ele traz à boca a taça de vinho - branco, é claro. Vê a poesia no fundo, um salão disperso em prisma; ri elegantemente de um singelo arco-íris sobre o qual um garçom caminha. Baixa o copo. Ela é delicada em cada gesto: vaidosa que é, desenha um colar de ervilhas sobre seu prato. Ele carregando-a no colo para seu novo apartamento, ela em um lindíssimo vestido branco, sorrindo-lhe secretamente em um desses silêncios nos quais conversam fluentemente... não, suas costas doeriam, pensa. Pode até vê-la debruçada sobre o prato, brincando com a comida. Reprovável. Definitivamente, uma criança à mesa.
Seus soldados, no entanto, não imaginam o que os espera. Em um rápido e voraz golpe, o garfo espalha as ervilhas por todo o prato. Muitas baixas. Um sargento rodopia, tenta subir a beirada da louça mas sucumbe quase no topo de sua escalada; rola monte abaixo. Alguns soldados, mantendo-se ainda em formação, sequer conseguem distinguir um segundo golpe do garfo: um cabo, tamanha a violência do ataque, é arremessado para fora do teatro de operações; repousa, inerte, no guardanapo já amassado e sujo de vinho - tinto, é claro. Espetando cada um de seus homens, o garfo constrói em um de seus dentes um sórdido trofeu: ervilhas empaladas uma sobre a outra. Por um momento a general fecha os olhos em dor. Mas ela nunca gostou mesmo de ervilhas. Devora-as todas de uma só vez.
Ele tenta imaginar o que ela pensa. Cotovelo sobre a mesa, cabeça apoiada na mão enquanto arranha o prato com os talheres: está, definitivamente, entediada; não é a hora do pedido. Sempre foi ótimo em decifrar seus silêncios, em conversar ainda que sem dizer uma só palavra. Observa-a levando o garfo à boca e, em seguida, retirá-lo já vazio. O modo de fechar ligeiramente os olhos, como que sentindo cada ervilha que saboreia delicadamente. O talher, sendo puxado para fora, arranha em seus dentes.
Repugnante. Um modo definitivamente vulgar de lidar com os bons modos. Sente saudade do tempo em que jantava só; sabe, no entanto, que assim o faz para sentir-se mais vivo, deliciar-se com a companhia: ser julgável é um de seus atributos mais notáveis.
Pensou em pedir-lhe a mão, acabou pedindo a conta.
Triste... e o pior de tudo... real... tem gente que vive assim...
Acho que eu já havia lido esse texto seu.
Abraços!
Quequaquá!! Raymond Queneau na cabeça!!!
Ótimo!!
Owa, esse eu não conheço. Mas tenha certeza de que conhecerei em breve =)
Pedro Ferrari · Brasília, DF 10/10/2006 09:41Uquê? Leia Queneau com urgência, Pedro!! É um dos maiores escritores de todos os tempos - infelizmente pouquíssimo publicado e conhecido no Brasil.
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 1/11/2006 18:34
Muito triste, mas toca a alma. Gostei bastante.
Fê Pavanello · Brasília, DF 15/3/2007 12:02Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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