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O INVERNO CHEGOU

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Julio Rodrigues Correia · Manaus, AM
27/9/2007 · 34 · 4
 

O inverno chegou carregando chuvas. Houve tempo que eu gostava de vê-lo chegar e sentir suas auras frigidas. Hoje não. Eu o abomino. Sua presença gélida me torna irremediavelmente triste. Em outros tempos eu o esperava ansioso. Suas primeiras chuvas me fascinavam. Mas, como tudo no mundo se transforma até o inverno de hoje já não traz a sonância poética dos inverno preteritos. E hoje ele chegou. Encontrou-me na varanda gasta de anos da casa de meus pais, onde outrora a garotada do bairro se reunia para variadas brincadeiras. Chegou mais frio que nunca. As casas velhas encharcadas, valas abertas, as águas rolando velozes pelas sarjetas, entristece-me. No interior da casa a vida mastiga a rotina. Esta casa está cheias de recordações.Quando o inverno chega elas se multiplicam. E, é, por isso que hoje em dia não gosto mais dele. Invés de apagar acende as saudades de há muito apagadas nos quatro cantos desta casa. Procuro relaxar para não ficar nervoso.A velha cadeira de vime me convida ao descanso. Acendo um cigarro, lento suicidio, e atraves da vidraça observo a queda ritmada da chuva nas folhas das árvores em frente a casa. Ela, a chuva, neste instante tece saudades e tristeza. Houve épocas em que esta casa era repleta de gritos pueris.
Na parede uma fotografia de meu pai simboliza um missão cumprida e tantos invernos passados. Em cima da mesa de inumeros almoços e jantares, uma foto de criança, em preto e branco, sintetiza de como fora alegre esta casa. É a Shirley. No chão da casa ela deu seus primeiros passos na vida. Não só ela. O Tintinho também. O cigarro chega o fim. Deixo de contra os pingos da chuvae vou até a estante velha e empoeirada. Procuro um livro para matar o tempo. Leio o titulo: Obras completas de Plinio Salgado,volume 5, a Quarta Humanidade. Folheio-o. Encontro na pagina 25,disperso, um artigo do meu irmão Waldomiro com titulo "Cena de Sangue na Fronteira".
Continuo a folhear o livro do velho integralista. Detenho-me á pagina 32 e leio." O homem procede de Deus e vai para Deus. A terra é uma passagem caminho entre dois infinitos. Fecho o livro. Volto para a cadeira de vime. A chuva agora é toda torrente.
Meu filho Sandro, o Sutil, ajeita os trihos para deixar correr seu trezinho á pilha, indiferente ao inicio do inverno que roi o barro e abre valas lá fora. Ele é ainda muito criança. Ainda se encontra no viço da primavera. Quando criança eu também não possuia sonhos de inverno. A vida se apresentava como uma planicie onde somente existiam flores.Hoje já colhi três estações e com os cabelos inaugurando os primeiros luares, estou chegando ao inverno da vida que é uma quadra penosa. Nela as forças desaparecem ao sôpro de cada dia e traçamos o roteiro da volta."O homem procede de Deus e vai para Deus". A chuva agora se torna densa como querendo barrar minha visão do mundo. A noite é imenso frigorifico. O frio gela os ossos. As lamparinas nos casebres já ardem. E o que resta agora é dormir e esperar o amanhã.
Ah, ia me esquecendo. Recebi uma carta do mano Chico dizendo que virá no fim do inverno com as crianças. Isto é bom. A casa voltará a reviver dias de alegria. Mas, será que até o fim da quadra hibernal, ainda estarei aqui? Onde estarei não sei. Só sei que a terra é uma passagem caminho entre dois infinitos.Mas, não me descuido continuo traçando o roteiro da volta. E o que resta agora, neste momento, é deixar que chuva aplaque sua ira os telhados das velhas casas, ajeitar a rede e dormir.Amanhã, Judite, a amda dirá que depois da chuva o sol voltou a brilhar...

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Julio Rodrigues Correia
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Branca Pires
 

Júlio, que DEMAIS!!!!!!!!!!!!
Amei a tua prosa emforma de saudadesm de incertezas, dúvidas e infinitos pesares...
dos tempos primaveris...
Levou-me as minhas doces saudades de um tempo muito distante, onde criança adorava a estação da chuva, ou seja, inverno no interior do maranão. Ficava hors a contemplar os pingos grossos da chuva a cirem nas poças-riachos em frente a minha casa. Dava vários nome s a isso, pois me pareciam chupetas (pipos), gurad-chuva se abrindo, entre tantos... quantos devaneios, já nesa época. E assim seguimos, olhando a vida com olhos diferentes, imaginando mundos diferentes...
Linda, amei e vou reler, talvez volte a falar de outros devaneios.
Um garnde abraço e muitíssimo prazer!

Branca Pires · Aracaju, SE 27/9/2007 13:19
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Felipe Henrique
 

júlio, adorei...

Felipe Henrique · Mesquita, RJ 28/9/2007 12:25
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Rita Costa
 

Nossa! Maravilhosa mesmo.
Também eu me peguei pensado na infância. Quando adorava tomar banho de chuva, brincar nas poças. Fiquei aqui com saudades.
Eu vou ler um cadinho mais depois também viu. Parabéns Julio.
Muito grata pela leitura partilhada viu. Abç.

Rita Costa · Rio de Janeiro, RJ 28/9/2007 17:27
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Adriana Costa
 

Dinâmico e introspectivo...
Esta frase já vale o voto: No interior da casa a vida mastiga a rotina.
Obrigada pelo prazer da leitura ;-)
Flores pra você @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 28/9/2007 22:31
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