A noite ali caia cedo, não podia mais continuar ir a buscas dos galos, ainda não era homem grande para não temer o escuro, começou a olhar uma estrela que surgia ali, mais outra, e depois outra e num piscar de olhos um céu negro todo pontilhado, se soubesse contar poderia saber quantas ali no seu céu, enquanto chupava o dedão pensou que não podia estar longe o galo, as aves foram chegando, uma a uma, depois em bandos em pousando na arvores, iam se ajeitando nos galhos, iam se aproximando, uma das outras e se aquietando, vez por outra uma saia desembestada, fazia vôos rasantes e voltava para o mesmo lugar. Ele já não observava mais as aves tinham fome, sede e medo, muito medo, pensou me roxinho pulando no precipício para fugir do chicote... Deus era barbudo. Raimundo também tinha barbas.
Na venda de Clovis não havia viva alma, gutiê morreu, o velho gutiê, morrera, dizia que quando o velho morresse sua alma vagaria por noites em busca de seus malfeitores, era cego, vivia de ervas, chegou ali não se sabe como, dizia que sua família teria vindo da áfrica, nunca teve parente, vivia de raiz, de mato, não causava nenhuma comoção, fora encontrado morto, debaixo de uma bungueville, devia ser o calor, antes do anoitecer, fizeram uma cova e sem caixão, sem nenhuma flor, sem nenhuma roupa especial, sem recomendação da alma pelo padre, foi só uma cova rasa e terra. Mas naquela noite e por muitas outras noites ninguém apareceu na venda para tirar um dedo de prosa, para comprar uma pinga, ou um pedaço de lingüiça para a mistura do almoço, por muitas noites, ouvia-se apenas um pio de pássaro, um martelar de sapo... A roça estava vazia silenciosa, com seus sons apenas. ... Um som mudo. Mas algo de diferente estava para acontecer ali, o ronca chegara quase vazio, trazia apenas escurinha, negra de coxas grossas de grandes peitos, de riso torto, viera para a casa de Dolores, já passara da idade para o oficio da sem vergonhice na cidade, agora só restava à casa de Dolores, sabia que ali não haveria nenhum coronel rico que a mantesse em exclusividade, era só os bêbados, teria que ir para a venda de Clovis ganhar um maço de cigarros, brincar na mesa de sinuca de panos verdes rasgado, chegara carregando uma sacola com poucas roupas, uns perfumes baratos e só. A venda estava fazia, sabia que a casa de Dolores não ficava longe dali, com suas sandálias vermelhas escabufadas pos a andar por estrada adentro , deixara filha na cidade, já estava mocinha, sabia que mais cedo ou mais tarde haveria de substituí-la na casa de prazeres e que quando os peitos desta também tivesse caídos, e os homens de bem já tivesse fartado de suas carnes também não serviria mais para o oficio e que se tiver embuchado de outra menina seria substituída por ela, e assim seria a vida, ao contrario se a vida lhe der um varão este haveria de crescer na casa, seria iniciado por alguma rameira, que se apaixonaria por ele, pelo vigor masculino, a esta ele lhe daria algum carinho e depois a exploraria, arrumando clientes e afanando todo o dinheiro arrecado, assim seria a vida, um ciclo simples e obvio... Agora estava ali, com as tosses sangrentas de muitos cigarros, com as dores dos muitos abortos, agora só restava à casa de Dolores, com suas colchas rasgadas, com sues colchões sujos com suas bebidas baratas, no meio do breu da noite que começava Escurinha partia para a casa de Dolores, não haveria nenhum coronel que iria pagar pela sua buceta larga, por seus peitos caídos. Dona clarinha miava um choro por Catarina. Dona Maria se aninhara na beira do fogão, noca continuava mudo também falar o que? As maquinas de limpar arroz há muito estavam paradas, o mato crescera... Caga ovo dormira ali na estrada, queria achar quem o quisesse, o sangue do berne secara na testa, não tinha suas latas, também não achara nenhum ninho que pudesse roubar um ovo, ou matar um coleirinho ou uma andorinha para comer, estava com fome, passara os dias comendo fruta verde... Ainda se não tivesse nascido varão, poderia quem sabe se acolher na casa de Dolores, talvez fosse melhor ter nascido puta.
Godelo a muito vivia completamente bêbado quando não conseguia cachaça fiado na venda de Clovis tomava álcool puro mesmo, invariavelmente pelas três ta tarde, começava a tomas seus tragos, já há muito não possuía nenhuma resistência ao álcool e então após um ou dois goles se deitava na beira da estrada e ali ficava ate que a cachaçada passasse o que geralmente acontecia só dia seguinte, ficara acertado que ele ia trabalhar na casa dona Maria, era preciso dar um jeito naquela terra, limpar os pomares, carpir as ervas, neste dia na sua doidivana alcoólica encontrou fulengo
- ta morando onde moleque desgraçado?
E engraçado, pois se tratando de gentes pensamos numa saída para tal aberração, talvez ali pudesse ter alguém que penalizasse de sua desgraça, talvez outro autor, miraculosamente abrigá-lo-ia num orfanato e o desse outra professora que o ensinasse formar as palavras, talvez pudesse transformar em herói , assim como outros tantos assins , poderia transportá-lo para algum morro e ensiná-lo a manusear estiletes, navalhas, AR 15, poderia fazer merecedor de amor de Juliana, Eloisa, ou outra menina dali, poderia transformá-lo no coroinha do padre nas missas de domingo, poderia matá-lo e ali acabar a historia, mas como conceder tal premio, uma vez que a morte e muitas vezes a solução de tudo, mas que deus ou que diabo iria querer tal criatura? Não sei... A morte é nobre demais para alguns seres, roxinho sim, cavalo de coragem que fora merecedor de tal premio
- o berne secara na testa, tinha um ronco na barriga, tinha fome, há muito que tava ali! To morando em lugar nenhum não senhor! Foi o que soube responder, teve vontade de pedir ajuda, de dizer que não tinha rumo, então godelo prosseguiu, to indo para a casa de dona Maria e de noca, Trem dos infernos!
Fim
MUITAS VEZES A VIDA NAO SE RESOLVE ,
Jovel.
tem gente que já nasce com uma dolorosa sina
e assim continuam até morrer.
Tem razão, caga ovo era um Trem dos Infernos que nem o
diabo o queria, mas Deus sim, e se não morreu pelas mãos do
autor, por certo Deus lhe dará o descando merecido.
Vc escreveu foi tão realista que quase esquecemos que
essa é uma história .Um pouco indigesta mas Valeu!!!
bjs
quando criei o caga ovo, era para ser um sujeito que no final morreria nas maos de uma sociedade urbana , porem a peste foi ficando rural de mais , nao deu !nao cabia mudar ele para um centro urbano , os personagens , nao possuem muitas relaçoes entre si , sao mundos particulares , cada um com a sua carga , é uma pequena historia sem viloes , sem herois , sem final feliz ou triste , assim é a vida , vive- se , ao ponto que ele chegou nao caiba faze-lo presidente da repulblica , nao dava , melhorar a vida dele , ia ser falso , escrever mais sobre ele , ia ser embromaçao , o casal de velhinhos que amo , tao la , o roxinho morreu , suicidio , a mae ta la , louca , o godelo ta la indo para tentar um serviço , coitado nao da conta nem dele , como ajudar
bom a puta ta la , resto de gente assim como infelizmente sao com quase todas as outras putas , no dia que o vicio da juventude acaba ,tem que ir para um lugar pior , agora e a filha que ta em seu lugar , breve sera a filha da filha
obrigado a todos que leram , que gostaram ou nao
Confesso que nao sei se sentirei falta do "caga ovo", rs
ele é tão desgraçadamente infeliz Eu ia acompanhando
sua trajetoria e pensava: meu Deus !!! de onde o Jovel tirou uma
inspiração dessa ? Pior. É possivel sim ,que haja tao atormentado e baixo espirito. aff !
é mesmo um soco no estomago....nauseante.
mas empolgante ao mesmo tempo. É a indiferença das pessoas na narrativa que me incomodava mais.
vc foi fundo..........pariu um personagem que deve ter cuspido na cruz de Cristo.
bjssssssss e ve se volta com mais ta ?
e resolvi chama -lo de o lado azul justamente por este contra ponto o de nem sempre haver o tal lado
jovel · Três Passos, RS 4/4/2009 21:31
Jovel,
Sim, o Lado Azul é um contraste bem grande
e por isso mesmo, me pareceu que Caga Ovo estava revoltado com sua condição de menino, pois não fazia nada para mudar a situação.
Bjs
mas amiga DORONI , vc cre que ele saberia o que e revolta ? nao nao creio
jovel · Três Passos, RS 4/4/2009 22:32jovel, eu estou muito feliz de encontrar este teu talento num texto rico e muito interessante para quem lê. Fico imaginando ler mais e mais, pena que eu cheguei no final...beijos poéticos,
nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2009 18:57
Eu adorei tudo!!
Perfeitinho na escrita,ajustado e na medida certa!
Claro que é uma historia triste,mas apaixonante e envolvente.
Faz agente torcer pra que tu dê certo no final!
Mas tá complicado hj em dia algo dá certo,até nas histórias!!!
Estamos realistas demais!!
É a crise!!
Beijo doce Jovel!!!!
Parabéns!!!
Profundo isso:
"MUITAS VEZES A VIDA NAO SE RESOLVE"
me faz pensar tambme que:
se nao resolve muitas vezes a vida!
...quantas vezes matamos nossas chances, né não ?
bjssssss;)
Nos muitos Brasiz que se divide este meu país a desgraça é cíclica e no fim, tudo é tão parecido que o Zé Ninguém e´ninguém em qualquer canto. As putas são as mesmas as dores então... Parabéns! Votado
Nildo Cordel · São Paulo, SP 7/4/2009 12:09
Isso aí Joel, cada leitor esteve presente em todos os capítulos.
Esteja e se faça sempre presente.
Abraço meu querido
É isso aí Jovel, teu postado está perfeito.Votado.
Abraços...
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