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O Ladrão de Cartas

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Thomas Hohl · Campinas, SP
23/3/2008 · 126 · 22
 

A espreita do carteiro, alguns metros atrás, para que este não desconfiasse que estava sendo seguido, encontrava-se um rapaz franzino, cabeleira vermelha , semelhante a uma raposa.
Ele se aproximava sorrateiramente até as caixas de correio, fuçava “os ninhos”, selecionando “os ovos bons dos estragados”. Os ovos estragados eram assim denominados, pois não possuíam a autenticidade e o sentimento de uma carta legítima. É o que os publicitários chamam de malas-diretas.
Quando o carteiro, tomado pela preguiça, deixava metade das cartas para fora das caixas, nosso raposo se sentia agradecido, pois facilitava o seu trabalho. Entretanto, quando o acesso era difícil ele recorria a gravetos compridos montados como grandes prendedores de roupa, que pegavam até as cartas mais escondidas no fundo da caixa de correio. Depois de um dia de serviço, o raposo se dirigia até um parque no centro da cidade, subia numa árvore bem alta para não ser perturbado e lia as cartas como se fossem endereçadas a ele.
Um jovem relatava orgulhoso o nascimento de seu filho, fazendo-o sentir como o novo avô a quem era endereçada a carta. Uma esposa, que não suportava mais as inúmeras tentativas de reconciliação e pedia a separação ao marido, trouxe-lhe angústia. A carta enviada pelo exército relatando o suicídio de um soldado que não suportava a vida militar, trouxe-lhe sofrimento.
O raposo era alguém absolutamente solitário e todos os sentimentos vindos das cartas preenchiam sua existência . A declaração de amor de um adolescente e a revelação de uma doença incurável de um ente querido são antagônicos na sua essência , mas ambos geram sentimentos autênticos.
O raposo teve seus dias de fartura de ovos, ou melhor, de cartas. Estas, no entanto, cessaram quando as caixas de correio da região passaram a ser vigiadas. Em pouco tempo, o esperto raposo foi pego com a “boca na botija”.
O raposo foi preso sob a acusação de violação de correspondência e não havia argumentos que o fizesse se safar de uma condenação. Os depoimentos foram fundamentais para que o juiz tomasse a decisão em favor das vítimas.
Houve casos como aquele da reconciliação de irmãos após trinta anos , que não pode se concretizar, pois o destinatário falecera antes de ter a oportunidade de ler a carta...
As testemunhas esbravejavam aos prantos pedindo a condenação do pequeno raposo. Ciente de que sua condenação era certa, ele pediu ao seu advogado que solicitasse ao juiz um aparte para expor suas razões.
- Eu não peço que me perdoem ou compreendam minhas atitudes. Digo, apenas, que sofri pelo soldado que se matou, torci pelo pronto restabelecimento da operação de seu Vítor e suspirei pela declaração de amor do jovem adolescente. Senhores, eu me considero culpado, pois roubei informações valiosas, seus sentimentos íntimos e seus segredos.
Assim que terminou de falar, foi declarado culpado pelo juiz, mas antes que a sessão terminasse ele deixou sua última mensagem.
- Eu vou ser mandado para o Quinto Distrito Policial e peço que aqueles que compartilham da minha solidão me escrevam .
O astuto raposo recebeu, no período em que estava preso, nada menos que 89 cartas de outras raposas solitárias que não invadiam “ninhos alheios”, mas compartilhavam de sua busca por sentimentos.

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clara arruda
 

Espero ser avisada da votação.Um grande abraço.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2008 14:03
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Nydia Bonetti
 

Tocante, Thomas...
Acho que somos todos meio raposas, vivendo de pedaços de emoções... Algumas nossas próprias, outras alheias. E os ninhos andam cada vez mais vazios...
Lindíssimo.
Abraços!

Nydia Bonetti · Campinas, SP 20/3/2008 14:30
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Rubenio Marcelo
 

Thomas, que legal poder novamente ler um texto seu. E, como sempre, é afagar o espírito o exercício desta leitura, posto que a gente se envolve na sua criatividade literária: forte e fecunda. Excelente! Voltarei para re/ler e votar.
abrs,

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 20/3/2008 18:27
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marilia carboni
 

Ótimo texto!!! Mil beijos e boa Páscoa !!!!!

marilia carboni · Londrina, PR 22/3/2008 16:01
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soninha porto
 

Muito legal! Belo personagem, o "roubador de sentimentos", aplausos!Poebeijos.

soninha porto · Porto Alegre, RS 22/3/2008 23:28
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raphaelreys
 

São pedaços de emoções! Por aqui tinha o Tutiá, um carteiro que colecionava cartas, fotos de mulheres somente. Eram as sua amadas. Fez um arquivo pessoal para cada uma. Crtas, fotos, e peças íntimas roubadas nos varais. Era um tremendo solteirão feitichista! Exelente texto meu caro Thomas, dá um romance! Parabéns pelo humor!

raphaelreys · Montes Claros, MG 23/3/2008 06:23
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Sérgio Franck
 

Thomas, não tão somente gostei como reli. Eu, como bom aprendiz que sou, gosto muito de ver outras fórmulas, caminhar entre outras letras, saber de outros barcos. É muito bom ver crescendo aqui a divulgação de outros gêneros.

abço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 23/3/2008 08:23
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Thomas Hohl
 

Caros amigos,

Raphael coloca um caso real semelhante ao tratado no conto. Muito interessante! Eu desconhecia esse caso, mas jah li um texto que sugeria que os escritores são capazes de captar fatos do inconsciente coletvo. Quem sabe essa historia não pairava no ar e eu captei ela?

Thomas Hohl · Campinas, SP 23/3/2008 09:41
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Ailuj
 

\Interessantíssimo seu conto,Amei e votei!

Ailuj · Niterói, RJ 23/3/2008 10:08
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Saramar
 

Thomas, belo, belo demais e emocionante!
Fiquei imaginando untensidade desta solidão do raposo que só sentia os sentimentos alheios.
Muito tocante.

Quanto ao inconsciente coletivo aqui do Over, já tive várias oportunidades de percebê-lo.

beijos, feliz páscoa

Saramar · Goiânia, GO 23/3/2008 12:26
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Dora Nascimento
 

Thomas...

O que é a solidão humana, não é...?
Houve um tempo em que eu não roubava cartas para alimentar e preeencher meus obscuros dias vazios.
Mas as esvrevia, sem endereço, nem destinatário, e as colocava dentro de livros por bibliotecas va´rias por onde andava.
Até que um dia, pensei,
"E se nunca forem encontradas?"
Nunca as procurei de volta.
Aliás, fazia questão de não emorizar em qual livro eu havia deixado.
Aí, a solidão foi partida e os cacos transformaram-se em amores, fraternos ou carnais, que preencheram os espaços vazios.
Passei a escrever cartas para a minha irmã caçula - mesmo morando na mesma casa, seguia e chegava para o mesmo endereço, mas não para a mesma pessoa - para amigos, mesmo morando na mesma cidade, e, quando existindo, para alguma paixão desenfreada.

Desculpa a invasão, assim... é que este teu conto fez lembrar esse tempo em que eu era a minha única companhia.

Parabéns e um abraço.

P.S.: essa minha mania temporária - durou uns dois anos - de escrever cartas anônimas para ninguém e deixá-las dentro de livros em bibliotecas, virou trecho de um conto que estou trabalhando, chama-se "Eternidades Efêmeras", em que um homem conta a uma mulher, que um dia encontrou dentro de um livro de sonetos do Shakespeare, uma carta de amor anônima.

Dora Nascimento · Olinda, PE 23/3/2008 12:55
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Raiblue
 

Thomas,que texto maravilhoso!!
É a tal modernidade e a solidão coletiva!As pesssoa só vivem se falando p e-mails e msn,mas não se encontram mais...não querem contato...nada q possa abalar o seu comando...o seu remoto controle sobra a vida...sobre os sentimentos...ele até ouve(ler) os outros...mas não se revela....não compartilha nenhm sentimento...

Multidão de aglomerados solitários...na cidede deserta de emoções...e de sentimentos...
Parabéns pelo texto!!
Adorei sua sensibilidade e estilo!
Beijinhos bluezenblues

Rai...Blue...

Raiblue · Salvador, BA 23/3/2008 15:04
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Raiblue
 

Corrigindo...rsrs..

Thomas,que texto maravilhoso!!

É a tal modernidade e a solidão coletiva!As pesssoa só vivem se falando p e-mails e msn,mas não se encontram mais...não querem contato...nada q possa abalar o seu comando...o seu remoto controle sobra a vida...sobre os sentimentos...elas até ouvem(lêem) os outros...mas não se revelam....não compartilham nenhum sentimento...

Multidão de aglomerados solitários...na cidade deserta de emoções...e de sentimentos...
Parabéns pelo texto!!
Adorei sua sensibilidade e estilo!
Beijinhos bluezenblues

Rai...Blue...

Raiblue · Salvador, BA 23/3/2008 15:07
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brigitte
 

Thomas,
excelente narrativa, envolvente!
Imagina, um ladão de emoções alheias!!
Parabéns!

brigitte · Goiânia, GO 23/3/2008 19:30
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Regina Lyra
 

Thomas,
Além de partilhar o lado mistério da história, tão bem contada,
veio a lembrança do tempo que recebíamos cartas...
Puxa, bateu uma saudade...
Era muito bom.
Belo conto acendeu boas lembranças.
Parabens!
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 23/3/2008 21:20
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azuirfilho
 

Thomas Hohl · Campinas (SP)
Feliz Pascoa. Jesus se sacrificou para nos irmanar.

O Ladrão de Cartas
Um texto muito bem escrito.
Você escreve muito bem.
Sabe usar as palavras, envolver e encantar.
Todo Trabalho seu tem Muita Qualidade.
Já comentei outro texto seu no meu início de Overmundo.

Estou votando atestando o seu merecimento.
É um Trabalho admirável.
Parabéns.
Gostaria que isso não fosse uma coisa Mecánica e que estabelecessemos uma amizade fraterna.
Tentei da outra vez e náo conseguir.
Fica de novo a proposta.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 23/3/2008 22:09
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Dora Dimolitsas
 

Thomas Hohl
boa noite
ja deixei meu voto
gostei
de seu texto muito bem trabalhado,
claro de facil entendimento.
Ja deixei meu voto, parabéns. abraços Dora

Dora Dimolitsas · São Paulo, SP 24/3/2008 02:46
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Thomas Hohl
 

Agradeço as palavras de todos, pois trazem a motivação necessaria para que eu continue ecrevendo.

Abraços para todos amigos no Overmundo

Thomas Hohl · Campinas, SP 24/3/2008 12:36
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Tati MOTTA
 

Adorei o "raposo" :)

Tati MOTTA · Belo Horizonte, MG 28/3/2008 07:30
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Adriana Costa
 

Muito interessante, Thomas! Gostei do conto!
bjs e flores @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 2/4/2008 19:04
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Rita Costa
 

Thomas,.. seu texto é ótimo, parabéns!

Rita Costa · Rio de Janeiro, RJ 21/4/2008 16:43
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sergio luizz
 

Sensacional e envolvente, Thomas. E na era do e-mais, msn's, as pessoas cada vez menos comunicam-se por carta...a caligrafia da pessoa ali, todo o sentimento transpassando em cada linha...bateu saudade. A única coisa que não dá saudade é mala direta entupindo a caixa...rs
abs.

sergio luizz · Duque de Caxias, RJ 28/4/2008 21:26
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