O lago dos cisnes

It's mine.
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YNDaniel · São Paulo, SP
18/7/2008 · 110 · 14
 

Eu sei que é maio; está frio.

Em geral, os dias de frio desencorajam as baratas e a maior parte das pessoas a saírem de suas moradas.

São os melhores dias para passear no parque.

No caminho há um bar. É o ponto de encontro de muitos nordestinos do bairro da Liberade. O frio, porém, os espantou. Apenas um homem sentado numa cadeira de metal, tomando cerveja , está lá. Por de trás das portas de vidro, fechadas, ele olha para quem sobe a rua íngrime. Parece deprimido. A depressão lhe cai bem, deixa-o fotogênico. Estivesse ele rindo perderia sua fotogenia.

Dobrando a esquina do supermercado, passa por mim uma mulher com um cachorro vestido com um colete. Neste escrito: "Life guard". O cachorro está usando sapatos e sua dona exibe sandálias de dedo um pouco gastas. O cachorro, é um basset muito bem cuidado e bem "vestido"; de sua dona, não se pode dizer o mesmo. Dá-me a impressão de que ela gastou tanto tempo produzindo o cachorro que esqueceu de si mesma. Alguns passos depois de ter passado pelo cachorro elegante, e sua dona, ouço: "ô coisa fofa da mamãe, ô nenén. Tá cansado? Tá bom, tá bom, a mamãe leva você no colo".

Outro quarteirão. Da chaminé da churrascaria sai uma névoa tão densa que parece gelo seco. Penso em como as árvore transformam CO2 em O2. E tento imaginar que tipo de fotossíntese ocorrerá nas árvores próximas, cobertas de fumaça de picanha.

Começo a correr e, depois de passar pelo restaurante chinês, cheio de chineses, e do coreano, cheio de coreanos, chego ao parque.

Uma volta. Há poucas pessoas. Outra volta. Há uma unidade móvel da polícia com três policias homens e uma mulher. Todos impecavelmente vestidos. Outra volta.

"Segura! Segura! Segura! Jota!!!!!"

Um cachorro que estava na coleira, esta segurada por um homem, se solta e corre na direção dos patos. O parque tem um lago bem no meio. Nele passeiam, graciosamente, vários patos brancos e um casal de cisnes negros.

Os patos se afastam da margem, logo que ouvem os latidos do cachorro.

"Jota!!! Vem cá!!!"

Os gritos são da dona do animal. Corre o homem para pegar a coleira de novo. Mas o cachorro, cujo pêlo era preto e brilhoso, aparentando estar muito contente, se joga na água para seguir os patos.

"Jota!!! Vem cá!!!"

"Se fora da água está frio", penso eu, "como estará lá dentro?"

O casal ri e ao mesmo tempo continua gritando.

"Jota!!! Vem cá!!!"

Seguindo os patos brancos, o Jota vai até o meio do lago. Então, como se tivesse entendido que não seria possível pegar nenhum dos patos, ele volta.

O casal parece aliviado, mas continua gritando.

"Jota!!! Vem cá!!!"

Quando Jota está quase chegando à margem, aproxima-se dele, o casal de cisnes. Impressionantemente belos e plácidos. O cachorro que estava pronto para sair da água, por alguma razão, decide ir atrás dos dos cisnes. Estes, tão curiosos quanto o próprio cachorro, deixam-se ser seguidos, mas não tocados. Com isso, conduzem o cachorro até o meio do lago de novo. Uma vez mais o cachorro desiste e volta para margem. Desta vez, porém, vejo que ele está tendo dificuldades para nadar. Provavelmente o frio está começando a fazer efeito.

"Jota!!! Vem cá!!!"

O casal já não ri mais. Os policiais que viam a cena, e que também estavam achando divertido, perdem suas expressões de alegria.

Os minutos passam. O animal parece aprisionado pela própria curiosidade e sempre que tenta sair da água, o cisnes voltam, como se estivessem convidando-o a participar de sua dança pelo lago. O nublado do céu se acentua. O verde das árvores torna-se mais escuro, bem como o lago; e os cisnes negros, mais parecem sombras que se movem.

A mulher, agora desperada, grita.

"Jotaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

Finalmente, sem mais forças para nadar, no meio do lago, o cão, afunda. Os cisnes olham Jota e nadam ao redor das bolhas produzidas por ele enquanto se afoga.

Todo o parque pára. Silêncio.

A dona, sem mais poder se conter, tira a blusa de lã e se joga na água. As primeiras braçadas indicam não se tratar de uma boa nadadora. O homem fica apenas olhando, talvez paralisado pelo situação. Os cisnes se afastam enquanto a mulher mergulha para salvar o Jota. Ela mergulha algumas vezes, mas o dia nublado, o lago escuro e a cor do seu cachorro, provavelmente tornaram o resgate impossível. Depois de alguns longos minutos, ela desiste e volta à margem. A água do lago não disfarça suas lágrimas. Outra história se desenrolará, assim que ela sair da água. Mas incapaz de continuar acompanhando aquela cena, vou embora.

Antes de passar pelo portão, do outro lado do lago, vejo o casal discutindo. Serão necessários todos os policiais bem vestidos para acalmar a mulher.

Na margem mais próxima do portão, vejo o casal de cisnes negros.

Distantes dos patos, parecem estar em um mundo particular.

Tudo neles emana beleza, elegância, placidez e paz.

Sobre a obra

Crônica sobre homens, aves e cães.

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Autoria
Y.N.Daniel
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Marcos Pontes
 

Que história! até nos dias mais calmos e onde menos se espera, acontecem desgraças. Ces't la vie.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 14/7/2008 21:33
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YNDaniel
 

Ah, ah, ah, ah, ah, ah,ah !!!!!!
As pessoas acham que a morte de um cão de estimação não trará a mesma dor que a morte de um ser humano.
Pois acho que é justamente o oposto.
A perda de um animal de estimação, deve ser devastadora. É a perda de um amor incondicional, creio eu....

YNDaniel · São Paulo, SP 15/7/2008 00:52
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EdimoGinot
 

EdimoGinot · Curitiba, PR 15/7/2008 08:43
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EdimoGinot
 

Saudades de caminhar por São Paulo.
Observando, observando e provavelmente sendo observado.
Belo lago dos cisnes. Leve como o balé.
Morreu um cão meu há quinze dias. Não é o fim do mundo
mas é triste. Pode crer.
Um abraço
EdimoGinot

EdimoGinot · Curitiba, PR 15/7/2008 09:17
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YNDaniel
 

Fofoca, falarei bem baixinho para ninguém ouvir: "em Paris, as pessoas abandonam os cães, depois que eles saem de moda..."
Que nenhum francês me ouça...

YNDaniel · São Paulo, SP 15/7/2008 14:11
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celina vasques
 

Iniciando sua votação!

beijo com carinho

celina vasques · Manaus, AM 16/7/2008 16:53
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

parabéns.(votei).

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/7/2008 17:18
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YNDaniel
 

Mina San,
Domo, arigatô!

YNDaniel · São Paulo, SP 16/7/2008 18:11
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Sônia Brandão
 

Gostei da sua crônica..
Parabéns e um abraço.

Sônia Brandão · Bauru, SP 17/7/2008 02:27
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Sheila Fonseca
 

Obrigada pela força!
Beijo grande,
Sheila

Sheila Fonseca · Rio de Janeiro, RJ 17/7/2008 08:15
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Nic NIlson
 

Que maravilhoso! Ainda q nao fosse verdade seria um texto realista e abstrato ao mesmo tempo. Tao abstrato que chego a entrar nele. Assim me vejo todas as vezes q persigo algo belo, encantado, longe, no meio do mundo, e vou me afundando! Um dia sera tarde demais! Por outro lado, vejo q se eu perseguir algo belo, intangivel, eu vou morrer feliz, pois morro dentro de minha excentricidade.
Assim, seu texto me serve como luva. Aplausos de pé!

Nic NIlson · Campinas, SP 17/7/2008 21:14
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clara arruda
 

Gostei imensamente do seu texto,denso...E falar do ar é falar de transformação.E nunca será tarde o bastante para ter esperanças.
Humanos somos imperfeitos,pensamos ser racionais.
Obrigada por me permitir a leitura do texto.Voto com carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/7/2008 06:03
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Cristiano Melo
 

Caramba...que estória... Narrativa consistente, gostoso de ler e com um quê de humor negro, o que dá um charme a mais ao texto. Além do humor negro há reflexões metafóricas, os cisnes como mensageiros e todos como participantes passivos do desfecho do cão.
Muito bom
parabéns
votos e abraços

Cristiano Melo · Brasília, DF 18/7/2008 10:04
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YNDaniel
 

Obrigado a todos que votaram nesta crônica.

Sobre o humor negro, Cristiano, você têm razão. Tem uns autores de novela que dizem que o brasileiro rejeita qualquer coisa que não seja alegre, eufórico e estriônico. Penso eu: será que nós brasileiros estamos sempre nesse estado de euforia contínua?

YNDaniel · São Paulo, SP 18/7/2008 10:15
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