Avisa pra ela que tem uma praia no sul onde os ventos incessantes nos fazem levitar e que o mar aberto se estende em paralelo com as areias infinitas ao olhar. Avisa pra ela que lá, o céu é o maior que já se viu, parece que vai te engolir, e que o horizonte também é mais aberto e distante, a perder de vista.
Avisa pra ela que foi lá que tudo começou e tudo há de terminar. Que é o pequeno paraíso guardado da infância, imutável apesar de tantas mudanças. Que quando criança, a luz elétrica era escassa, telefone e televisão não existiam, e que quando as tempestades de verão chegavam aos trovões, e os raios cortavam como arame farpado o maior céu do mundo, nós nos escondíamos dentro de casa, vendo a água invadir a sala, entrando pelas frestas das portas. Que a luz fatalmente caía e as velas acesas debilmente combatiam o apagão, e tínhamos a sensação de que a natureza era a representação máxima de um poder supremo.
Avisa pra ela que, ao primeiro sinal de estio, corríamos para as ruas de chão batido olhando para o céu - o mais aberto do mundo - e começávamos a contar as estrelas que pipocavam na escuridão. Que, em fascínio, localizávamos as referências de sempre – as três-marias, o cruzeiro do sul – e de repente a visão ficava tão clara, tão contrastante com a escuridão total da praia, que as estrelas passavam a se confundir e se fundir em manchas brancas – a via Láctea – e outras galáxias a perder de vista. Nenhum telescópio poderia aproximar-se da grandeza do espaço daquele céu, visto por nossos olhares inocentes e contemplativos.
Mesmo depois, quando a luz elétrica ficou mais confiável, tínhamos sempre a alternativa de correr para trás das dunas, e bloquear, ainda que não totalmente, as luzes das casas e dos postes, que nos impediam de enxergar a totalidade da beleza e infinitude daquele céu mágico, onde nos perdíamos em devaneios e sonhos de grandeza, apesar dele nos revelar de forma tão bela, nossa total insignificância.
E hoje vejo, que posso estar em qualquer parte deste mundo, trancado num quarto escuro e abafado, e ainda assim, poderei fechar os olhos e lembrar da liberdade que a vastidão daquele céu estrelado proporcionava.
Avisa pra ela também, que sou um alguém mais feliz por haver experimentado isso e nada poderá arrancar este tesouro de mim, pois será para sempre meu patrimônio da memória: o maior céu mundo, aquele que pode me levar para longe, além de qualquer lugar.
adorei o texto, muito bonito mesmo!!!
acho que todo mundo precisa ver o maior céu do mundo!
Uma corrente libertária. Uma liberdade singela e terna. O texto divaga sobre o imaginário coletivo e fala de coisas universais sem perder a peculiaridade dos momentos realmente bons da vida. Como olhar o céu infinito retido em cada olhar. Olhar livre. E o texto casa com o tema porque ele permite a liberdade da leitura de quem lê. Ele leva a mente até o lugar onde o Céu é o maior do mundo. Não o céu especifico do autor, mas todos eles.
Soul Sócrates · Salvador, BA 10/8/2006 11:56
É verdade, cada um tem o seu maior céu do mundo, suas memórias da infância, suas fantasias, mas com certeza a essência é a mesma.
Jaguaruna! Eu estive lá, e posso dizer, Jaguaruna deixa claro quem é que manda. Entre o mar sinistro, do Town In na Lage, da cidade espremida entre a praia e as dunas, e depois a Lagoa, com sua água maluca que fazia a gente afundar.O salto da corda na árvore, a floresta no meio do areial, e aquele bar que vendia cumbuca de camarão frito apor R$ 4 reais. Tio Patinhas, Marisquinho...ê tempo bom!
avisa pra ele que, como uma garrafa atirada na água, a mensagem chegou, ganhou vida, além de qualquer lugar.
celia p · Florianópolis, SC 18/3/2007 20:33Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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