Cresceu pobre, pé-rapado, podre por dentro, diziam alguns
Encardido a cor, jambo, marrom quase negro
Pés rachados, olhos amarelos, mãos grossas, descascadas, de leve toque
Ombro magro, ossos à vista, barriga saliente, cachaça e rum.
Não houve chance, sequer de sonhar ser alguém diferente do que é
Aceitou sem mais delongas. Ódio, raiva, mão na cintura: abstraiu
Um dia até deu a mão a um desvalido na sarjeta, que tinha pouco como ele
Não foi um fim de flores e abraços, não houve agradecimento. Sempre soube como é.
A vida sem reserva de surpresas novelísticas, amores roubados, ser feliz
Nunca pensou mesmo ter seu nome nos créditos finais da história humana
Nem ao menos cogitou estar a frente de qualquer coisa que fosse
Conservou seu andar lento, sem pressa, não ter aonde ir.
A idade avançou como um câncer em metástase, corroendo tudo, que sempre fora o nada
Vez ou outra sorriu, sinceridade, simplicidade, alma do negócio
Cabelos brancos, salientes, tornaram-se maioria. Cabelos de cor de gente de filme
E as músicas? Sabia cantar, canções de seu tempo, de gente que como ele, deixou de amar.
Fígado estragado, a velhice é sentida no andar, ao levantar, ao ir além
Tosse seca, cigarros baratos, dentes faltando, gengivite, mau hálito, repulsa do limpo e claro
Olhares tortos que se projetam direitos - diretos -, poderes, castraram a chance
De um dia sentir-se igual, a ti, a mim, a nós, a vós... Amém.
Olhares tortos que se projetam direitos
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