O mistério de Quatro Pontes

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Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ
15/5/2008 · 63 · 7
 

Faz 10 anos que Jamilly Cristine se tornou a personalidade mais famosa de Quatro Pontes – embora só um dos 3.400 moradores da pequenina cidade no Extremo Oeste do Paraná conheça até hoje sua identidade secreta.

Era 13 de maio de 1998. Naquela quarta-feira de outono, Quatro Pontes acordou como de costume. Comerciantes abriam as portas de seus estabelecimentos. Moradores saíam apressados para mais um dia de trabalho. Uniformizadas e ainda sonolentas, crianças seguiam em direção as duas únicas escolas da cidade – ambas públicas e que dividem o mesmo endereço. Um grupo de beatas cruzava a Praça Cristo Rei, atendendo à convocação do sino da Igreja Matriz, Paróquia Nossa Senhora da Glória, para assistir a primeira missa do dia. Bicicletas e automóveis disputavam as ruas. Nada, absolutamente nada, parecia prenunciar o que estava por vir.

Habituadas a uma rotina de anos e anos, as pessoas demoraram a perceber que a paisagem quatro-pontense mudara. Havia algo novo. Totalmente inesperado. Enigmático. À primeira vista, um simples outdoor. E uma mensagem mais simples ainda: “Feliz aniversário Jamilly Cristine”. Aos poucos, os moradores tiveram sua atenção despertada pela peça publicitária e começaram a se aglomerar na rua em frente a ela. Não tardou e o tititi, inicialmente tímido, ganhou mais volume do que o alto-falante do carro de som da prefeitura, em dias de inauguração de obras.

Definitivamente, o aniversário de Jamilly criou um rebuliço em Quatro Pontes como nunca acontecera antes. Mobilizou a população. Suscitou comentários os mais estapafúrdios. Provocou ares de novela líder de audiência. E deixou no ar a pergunta: “Quem é Jamilly Cristine?”.

Logo, Jamilly virou o assunto central em todas as rodas de bate-papo em Quatro Pontes. Desde o intervalo de jogo de futsal do time da prefeitura – o único da cidade - à fila do banco no dia do "cheque do leite", que reúne os produtores da cooperativa de leite ávidos por receberem o pagamento do mês. Da Câmara de Vereadores, que criou uma comissão para investigar o mistério, à beira da piscina do Clube Cultural. Das barraquinhas da feira semanal de produtores agrícolas à mesa de jantar das famílias quatro-pontenses.

Não há dúvidas de que Jamilly deu vida nova a Quatro Pontes. Por semanas a fio, homens e mulheres, idosos, jovens e até crianças puseram em prática o seu lado Sherlock Holmes e saíram em busca de pistas para solucionar o enigma. Tudo em vão.

No cartório local, um levantamento de registros de nascimento e casamento nos cinco últimos anos frustrou as expectativas de solucionar o caso. O carteiro também não pudera dar dicas: Jamilly nunca recebera correspondência alguma - nem cartas, nem boletos de cobrança. No único hotel local, nenhum vestígio: o Under Haus com seus dois andares – único “prédio” da cidade - não tinha registro de que a então já ilustre desconhecida se hospedara por lá. Até o posto policial, com seu efetivo de três garbosos (e um tanto ociosos) soldados, foi requisitado, mas ocorrência alguma envolvera Jamilly.

Esgotadas as possibilidades nos domínios de Quatro Pontes, houve quem estendesse a investigação para municípios vizinhos. Afinal, aquele era um dos raros outdoors – e o primeiro com mensagem pessoal - da história quatro-pontense e fora importado, provavelmente, de Marechal – maior e mais desenvolvido economicamente - ou Toledo. Depois de uma meia dúzia de telefonemas, conseguiram localizar a agência responsável pela peça publicitária. No entanto, a frustração foi grande. Quem contratou a instalação do outdoor fez tudo sem se identificar: acertou o serviço por telefone e depositou o dinheiro direto na conta da agência, sem exigir recibo. “Homem ou mulher?”, perguntaram. “Os dois”, respondeu o dono da agência. “Como assim?”, insistiram. “Foram dois telefonemas. Primeiro uma mulher, depois um homem. Ou vice-versa”, explicou ele.

Diante de tanto mistério, não houve como evitar: os boatos invadiram Quatro Pontes. Para uns, Jamilly era o codinome de alguma mulher casada, que estaria traindo o marido. “O amante foi quem a presenteou com a mensagem”, diziam. Para outros, tudo não passava de propaganda eleitoral: “Isso é coisa de político para chamar a atenção”. “Nada disso. Tem ligação com a próxima Copa do Mundo. Não vê que o nome é francês?”, chutavam, sem direção, outros. “Vai ver é algum artista que a prefeitura vai trazer pra Festa do Município”, especulava alguém, citando o evento que só movimenta a cidade de dois em dois anos.

Foi graças a Jamilly que Quatro Pontes conquistou seus 15 minutos de fama. A história chegou à mídia, com direito a matéria num famoso programa dominical de TV, em rede nacional. Nessa noite, boa parte da população se reuniu na Praça Cristo Rei, onde a prefeitura instalara um telão para que todos assistissem à reportagem e vissem a cidade na TV. No final da exibição, os moradores, emocionados, voltaram a suas vidinhas pacatas, sem saber que sempre estiveram tão perto de Jamilly e, ao mesmo tempo, tão longe de conhecer seu segredo... Afinal, Jamilly, uma das figuras mais populares da cidade, também estava na praça.

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Helena Aragão
 

Também quero conhecer Jamilly Cristine! :))
A parte da exibição na praça me remeteu aos textos sobre o Revelando os Brasis aqui no Overmundo, hehe. De certa forma, é o mesmo tipo de comoção.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 14/5/2008 13:12
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Tetê Oliveira
 

Helena, é verdade, pra "cena" da praça me inspirei mesmo no Revelando os Brasis! Acho que veio bem a calhar pro meu conto... risos
Beijos meus e de Jamilly!

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 14/5/2008 16:52
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Ilhandarilha
 

Ei Tetê: ficou o mistério: pq será que Jamilly Cristine preferiu não desfrutar seus 15min de fama?

Ilhandarilha · Vitória, ES 15/5/2008 16:12
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Pedro Monteiro
 

Muito interessante.
Acho que Jamilly, deve ser alguém que conseguiu seu intento.
Promover a pacata Cidade.
Abraços; muito boa essa!

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 15/5/2008 21:25
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Tetê Oliveira
 

Olá, Ilhandarilha, há quanto tempo!!! Essa é mais dúvida sobre Jamilly...
Talvez você, Pedro, tenha razão. Quem sabe ela não quis só promover sua cidade? Acho que nunca vamos saber. :-)
Beijos e obrigada aos dois!

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 15/5/2008 22:10
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Saramar
 

Ah! Tetê, por favor, conte-nos quem é a famosa Jamilly.
Uma delícia de história a mostar quanto são (ou foram) pacatas nossas pequenas cidades.
Obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 16/5/2008 19:53
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Tetê Oliveira
 

Oi, Saramar!
Quatro Pontes ainda é uma dessas cidades pacatas. E Jamilly virou uma sensação por lá... Mas prefere o anonimato. Talvez sofra de timidez, né?
Beijos.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 17/5/2008 08:04
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