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O Monstro

Adroaldo Bauer/colagem
1
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
25/7/2008 · 124 · 8
 


(Aviso aos navegantes: esse é um poema na contra-mão do consenso de washington)


Os que aqui chegaram há tantos anos
Buscando o que não tinham de onde vinham
Nem mais esperanças sequer traziam
Vieram construir um visão de mundo e destruir
Longe, mas ungidos pelo Papa e o Império
Como bons religiosos, enforcaram, assassinaram,
Amealharam o que puderam de pedras e metais
Para enriquecer, prostituíram, roubaram, escravizaram.
Ainda hoje, de longe e de perto até aqui vêm
Eles vêm aos milhares submeter a natureza, destruir a floresta.
Já não temos laços com uma coroa, há muito se romperam
Ocupamos o cerrado e a floresta e a vamos destruindo
substituindo as árvores pelo capim, o manejo pela erosão
Enquanto assim constroem, roubam e continuam matando.
Construindo sobre escombros e corrupção esse nosso chão
Iniciada a nação com o massacre dos gentios, do africano escravizado.
Nós sorrimos displicentes e abanamos as cabeças.
E a todos cedemos nossas riquezas, nossas crianças
Para demonstrar nosso espírito e nossa gentileza.
O azul e o verde são sujados, a diferença pisoteada
Chutadas como a um cachorro enlouquecido
Essa guerra nunca acabou, o poço d’água está cercado
Uns poucos acima de nós ela amontoou.
Eles empinaram o nariz, erguendo sabres e fuzis.
Estão nas salas em todos os quadros
Outros já acenam nos cais lenços brancos aos navios
Estão nas paredes e nas ruas empalhados,
Estão há séculos nos comandos empilhados
O passado tem muito essa cota de injustiça
De gente de espírito não muito bondoso
De protetores e amigos de seus sonhos de muito além
Agora há no chão um monstro à solta, não te quer obedecer.
E no mar uma quarta ronda que ninguém vai combater
Ordem e progresso cobram os guardiões da iniqüidade.
Parecem até generosos, bondosos, bem intencionados
Não conseguem sê-lo, mais que o queiram,
Tal ordem e tal progresso têm outros donos verdadeiros
Quem mantêm a exploração iniciada na colonização
Também empinaram o nariz, erguendo sabres e fuzis.
Estão nas salas em todos os quadros
Estão nas paredes e nas ruas empalhados,
Estão há séculos nos comandos empilhados
Eles tagarelam sobre lei e ordem até global
Mas é tudo só um eco do que sempre foi dito
O monstro à solta trocou o porrete pelo foguete
Amarrou nossas cabeças pela tevê e te diverte
Assistimos as cidades se tornarem selva
Impera enquanto o arco dourado e as duas cocas
E a corrupção como sempre encanta os idiotas
A polícia vigia a propriedade e a ordem, e arranca vidas
E o povo se desentende por representação,
Não quer saber como cuidar ele mesmo de si próprio
Nesse exato momento há também uma guerra aqui
Não importa quem a vença, nós a estamos perdendo
Se não somos os bandidos e a polícia mata crianças
Nós não podemos pagar o preço de deixar o monstro à solta
Ele tem nossas cabeças amarradas, e vamos ficar assistindo
Onde estão todos os indignados agora?
Todos que se importam com crianças assassinadas?
Todos que querem o fim da exploração imposta?
Não podemos lutar só uns poucos contra um monstro assim
Os verdadeiros donos estão logo ali nos navios às nossas costas
Precisamos de nós todos exatamente nessa hora.


(A propósito do artigo Escopeta não é chocalho, de José Luís Fiore, e da canção The Monster, de Steppenwolf, esta de 1968 quando as bestas estavam com as patas no Vietnã, com uma bazuka na mão e merda na cabeça).

Sobre a obra

A estupidez ainda triunfará!

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Autoria
Adroaldo Bauer
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clara arruda
 

estou lendo para a edição meu amigo,na volta deixo meu comentário.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 23/7/2008 06:56
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EdimoGinot
 

Adroaldo

Em primeiro lugar obrigado pela audição do MONSTER. Ouvia Stepenwolf lá pelos idos de....mil novecentos e trantos...
Bela recordação.
O seu texto está corretissimo.
"Não importa quem a vença, nós a estamos perdendo"
Parece ser nosso destino.
Um abraço

EdimoGinot · Curitiba, PR 23/7/2008 12:58
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clara arruda
 

Iniciando sua votação.me perdoa amigo,mas nem comentar hoje consigo.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 25/7/2008 01:50
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celina vasques
 

Meus votos com carinho


beijo no coração

celina vasques · Manaus, AM 25/7/2008 07:51
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

maravilha de texto, bom de ler,parabéns.votei.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 25/7/2008 09:45
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Cristiano Melo
 

Caro Adroaldo,
Muito pertinente seu clamor aos que se indignam com tais fatos, a coroa já não é a mesma, mas é da mesma estirpe, modus operandi distinto com mesmo fim.
Parabéns
abraços

Cristiano Melo · Brasília, DF 25/7/2008 17:49
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silviaraujomotta
 

S"ei que o mundo é dos espertos..." "É dos vivos" É de quem grita e reclama...de quem tem dinheiro e tem fama, por isso espera na cama...
Que em tua estrada florida
de paz, alegria e glória
floresçam por toda a vida
só girassóis de vitória.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 25/7/2008 18:23
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Cintia Thome
 

Pois é Adroaldo lembrei do poeta beat Lawrence Ferlinghetti que tão bem criticava
esse Monstro...E em falar em Monstro, sucesso de bilheteria "Cloverfield", um filme de gde bilheteria, na base de Tubarão...um receio deles e sempre faz pensar que nada irão tirá-los como O Grande e aí inventam para mostrar que só bonequinhos poderão destruí-los, ficção,nem dias como 11...mas o made usa está por toda parte, ensinando os desavisados...uma guerra silenciosa,mas um dia teremos o The Day After, esse sim violento...
Bobagens, mas aqui temos ainda bananas?
Devaneios...

um pouco de Ferlinghetti
e sua paisagem surrealista de
pradarias estúpidas
supermercados subúrbios
cemitérios com calefação
e catedrais que protestam
um mundo à prova de beijo um mundo de
tampas de privada e táxis
caubóis de butique e virgens de Las Vegas
índios sem terra e madames loucas por cinema

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/7/2008 14:45
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