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O moveleiro

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lucaspinduca · São Gonçalo, RJ
26/5/2011 · 4 · 2
 

Ele parecia um personagem de filme nacional com baixo orçamento. Barba sempre por fazer, vestia um casaco sebento e encardido, um “allstar” manchado e o velho “blue jeans”, ícone de uma geração já cinqüentona, bastante gasto pelo uso contínuo. Xingava como uma prostituta bêbada e andava como um beato às avessas, sempre propagando o “venha a nós, ao vosso reino nada”. Os arcos da Lapa eram o seu lugar de triunfo. Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários que, vez ou outra, expunham as suas obras, seus pequenos relicários dos infernos, em frente a sua porta para o deleite dos incautos.
Seu lugar era ali, na Lapa, que sempre foi reduto da autêntica malandragem e boemia carioca. E que, com o passar dos anos, a necessidade, mãe de toda contravenção, fez aumentar em muito sua população de renda estagnada e os seus brechós; ah! Os brechós! Onde os garimpeiros de móveis e cenografistas de cinema e televisão começaram a chegar e depois levar as preciosidades antigas, e junto com elas, suas velhas histórias... Mas ele não se incomodava com estes. O problema dele era com os leiloeiros. Principalmente aqueles que vendiam para gente de muito longe, fazendo com que as histórias entranhadas na madeira velha e em suas resinas quatrocentonas, se perdessem em meio às estradas e caminhões de mudanças interestaduais. Por isso, sua afeição pelos falsários; por essa gente que reproduzia com esmero as nuances de um tempo findo; o desenho de uma realidade que a muito havia esvaecido... Ele era capaz de estudar um Louis XV só para ajudar um desses “mestres” perpetuadores da antiga magia do mobiliário.
Sua vida, como tantas outras que orbitam em torno dos Arcos e do Circo, tem os seus momentos de tragédia e comédia privados. Seu gosto por destilados alcoólicos fez o ocaso profissional chegar mais cedo; ainda assim, entre um “delirium tremens” e outro, desenha cadeiras, banquetas, mesinhas, namoradeiras, suportes para chapéus, cabides de parede e tantos outros objetos de mobiliário antigo que o seu cirrótico cérebro consegue lembrar. Os falsários, escondidos em pequenas marcenarias improvisadas em sobrados escuros e mal freqüentados, verdadeiros arcabouços de alquimias secretas que possibilitam cores exatas para corresponder às necessidades mais estranhas, ouvem suas histórias de móveis desenhados, mas por necessidade de argumentar com um possível e desconfiado cliente, do que por gosto pela história da arte.
Entre um desenho e outro gole de “red label” ele continua justificando a existência dos falsários como uma resistência à extinção da memória histórica dos costumes ligados a velha mobília dos excêntricos e ricos moradores de outrora; depois de uma enxurrada de injúrias e palavrões, ele segue implicando com os leiloeiros, talvez porque eles são os únicos dotados de capacidade para, em seu escrutínio, dizerem se é autêntico ou não um “pufe” francês do começo do século XX. Ele não vê à hora de expulsar da Lapa estes vendilhões engravatados... Enquanto isto não acontece, ele desenha um aparador do começo da nossa república e refresca sua garganta com mais um gole.

Sobre a obra

Mais um personagem anônimo no limite da auto preservação.

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Autoria
lucas manoel da silva filho
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kfarias
 

Belo texto que me fez passear pelos Arcos da Lapa que a muitos e muitos anos não visito.
Obrigado e parabéns.

kfarias · Águas de Lindóia, SP 9/6/2011 19:33
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Sihmoneh Maia
 

Ahhhhhhhh... Eu já comentei esse texto!
'Cê tirou meu comentário do ar? Tiraram com ele? Minha conexão caiu na hora do envio? Deu bug nesta m* de site bem na hora do envio? PQPariu, viu!!!

Ah, até perdeu a graça!
Só lhe digo (novamente) que o texto é bom demais e que gostei muito.

Abraço frustrado (e broxado), rs.

: )

Simone Maia
(vamos ver se desta vez a coisa vai, né?)

Sihmoneh Maia · Santo André, SP 27/6/2011 09:35
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