O mundo, às vezes, parece normal e o destino nem sempre é tão perverso

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jair · Manaus, AM
2/4/2008 · 98 · 15
 

De uma pequeníssima janela do universo suburbano, prostrado no meio do batente de cimento cru, um pequerrucho, também suburbano, observa o que ocorre ao redor:

De um lado da rua não há nada, do outro apenas um cachorro preto e branco dorme no tampo de metal da caixa de esgoto e um bando de meninos com enormes varas de bambu corre atrás de arraias que caem para os lados da estação de trem. Ele sente vontade de brincar, mas está com preguiça de levantar, correr, pois o tempo é escaldante, escaldante e abafado, não estimula o mínimo movimento.

O suor escorre em seu inocente rosto misturado à poeira levantada pelo vento que faz pequenos redemoinhos nos cantos dos muros, muros cheios de musgos ressequidos e sem viço. O pequenino estômago ronca, ronco baixo e grave, quase inaudível, seus olhos observam as galinhas de vizinha cacarejando; aves de penas alvas como plumas de ganso, grandes e apetitosas aves de cristas imponentes e carnosas, de coxas grossas e tenras, de asas colossais, ele sente o desejo de vê-las girando num espeto, temperadas, engorduradas, douradas e cheirosas, mas, ainda que a rua esteja vazia, nem para planejar uma emboscada seu organismo reage.

O jovem suburbano dispersa, sabe que o máximo que pode fazer é ficar sentado no batente da sua casa, na rua do Sossego, n.º 34, suando, sem vontade de nada, coçando e cheirando a frieira de odor acrimonioso que incomoda o seu dedo mindinho, tentando tirar uma bostela de ferida do joelho, fruto da última travessura, passando saliva nas articulações ressequidas e olhando as formigas que carregam um enorme grilo morto para o seu habitat. Ele cospe no meio do banquete dos insetos e embebeda as saúvas no líquido transparente, aerado e visguento, as formigas debatem-se tentando se desvencilhar do fluido, abandonando momentaneamente a presa.

Naquela cena que ora ele protagoniza, tudo parece morto e apenas seus olhos transmitem um raro filete vital; Grandes e injetados olhos que se contrapõem ao resto do corpo tímido e contundente para a sua idade, onde se destacam apenas as protuberâncias ósseas.

No entanto, a sorte que parecia tê-lo abandonado às traças, parecia ter fugido veloz e sorrateiramente que nem lanceiro de sinaleira, que nem rato calunga surpreendido em cima do fogão degustando restos de comida, decidiu dar o ar da graça, parece até que os Deuses o viram, ainda que ele estivesse escondido na parte obscura do mundo, e resolveram recompensar-lhe a paciência e agonia:

O seu despertar da indolência nasce através de sons do vendedor que troca alumínio velho por algodão doce; A figura alta e magra, de pele vermelha e maltratada, de bigode denso e cabelos grisalhos, carrega uma enorme vara cuja extremidade superior exibe dezenas de sonhos coloridos que acendem as suas revivescências:

Ilusões de circos mambembes montados em terrenos baldios, descortinando seres fantásticos que se expressam debaixo de lonas sujas e remendadas, porém não menos magníficas, delírios de parquinhos itinerantes estacionados na praça principal, exibindo rodas inatingivelmente gigantes, trenzinhos que viajam por belos caminhos e cavalos alados que sobrevoam o além das ilhas que cercam a Baía de Todos os Santos e Orixás, percorrendo todo o recôncavo baiano.

Elevado pelos seres alados, o suburbano vê, ainda que não compreenda, o samba de roda em Cachoeira e a igreja matriz de Santo Amaro, a Praia de Cabuçu e o rio Maragogipe, a feira de Nazaré das Farinhas e a Procissão da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira. Nesse mágico instante, ele inspira os mais belos odores do mundo:

O perfume da pipoca salgada e quentinha e da maçã vermelha e amorosa, as fragrâncias emanadas das “roupas de ver Deus” e da brisa morna que abraça a praça plácida e maternalmente. E eis que, de súbito, a passos largos e sutis, ele entra sorrateiramente na cozinha pela porta do fundo, pega uma panela suja e engordurada que repousava inerte na cheia e entupida pia e corre em direção ao algodoeiro, que a princípio olha desconfiado para o sujo recipiente, preocupado com a sua origem, todavia os negócios falam mais alto, o vendedor escolhe um saco bem grande e entrega ao garoto que, regozijado, sobe para comer escondido na laje, tentando reviver todas as sensações daquelas noites fantásticas.

O dia está quase que totalmente azul com algumas dispersas nuvens pairando no infinito, duas arraias cortam o céu com as linhas temperadas e trançadas e um gato magro e faminto observa, de cima do telhado, as mesmas galinhas gordas e apetitosas de vizinha. O suburbano delicia-se com o algodão doce e colorido que derrete na boca, deixa a língua avermelhada e o remete a extraordinárias paragens, um diminuto oásis sensorial incrustado no coração da aridez suburbana.

O vendedor dobra a esquina com sua barulhenta sineta quebrando a rotina, mas harmonizando-se com a monotonia da quarta–feira à tarde.

E o dia cai, no horizonte, o céu alaranjado e o vento forte prenunciam uma noite chuvosa, o dia lúgubre lembra um final da tarde qualquer de domingo.

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Autoria
Jair Chagas
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jair
 

Valeu Alem, na realidade este texto é uma adaptação de um capítulo de livro que estou testando a qualidade e captando novas idéias.
Testei as modificações que você propôs e ficaram ótimas. Vou pô-las no livro também.
Bom domindo.

jair · Manaus, AM 30/3/2008 00:49
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Lena Girard
 

Interessante como usas as repetições, Jair! Elas dão ao texto uma certa grandiosidade. Torna as coisas muito maiores do que são. Parabéns! Beijos e bom domingo!!!

Lena Girard · Belém, PA 30/3/2008 08:13
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Ilia Noronha
 

Gostei e votei.
Beijos poeticos.

Ilia Noronha · Manaus, AM 31/3/2008 23:40
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jair
 

Obrigado pelo voto, ilia. São reminiscências de um suburbano soteropolitano.

Valeu!!!!

jair · Manaus, AM 1/4/2008 00:07
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Elio Cândido de Oliveira
 

http://www.overmundo.com.br/banco/do-sonho-de-ter-voce
Ola acabo de votar em seu texto.
Parabéns pelo seu trabalho.

Elio Cândido de Oliveira · Ibiracatu, MG 2/4/2008 06:21
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clara arruda
 

Deixando meu voto e carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2008 09:16
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Marco Bastos
 

Um real ou hiper-real com cara de surreal. A pobreza suburbana trazida pela pobreza dos acontecimentos mais que comezinhos. Do seu conto escorre um musgo verde-amarelo onde a vida teima e se retrata nos murais limosos pichados por anti-heróis - não pela (in)consciência do menino, mas pela insensibilidade social e pela inércia dos adultos. Mas não senti que nele você cultuasse a estagnação e a pobreza como algo a ser cultuado. O escritor foi altamente isento dos julgamentos de valor e deixou que tudo falasse por si mesmo.
Gostei. votei.
abraço.

Marco Bastos · Salvador, BA 2/4/2008 13:13
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jair
 

Obrigado, helio. Estamos num mesmo barco.

jair · Manaus, AM 2/4/2008 15:21
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jair
 

Valeu pelo voto e pelo carinho, Clara.

jair · Manaus, AM 2/4/2008 15:23
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jair
 

Fiquei lisonjeado com todos os comentários, mas o seu, Marco, abriu uma nova perspectiva de ler o texto.
Na realidade não quis discorrer sobre a violência gritante dos assaltos, das mortes ou tiroteios. Tentei retratar a violência silenciosa do abandono, que corrói a lucidez e destrói a alma.

jair · Manaus, AM 2/4/2008 15:47
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Civana
 

Excelente texto Jair, parabéns pela forma que retratou o abandono, realista, mas ao mesmo tempo senti uma certa doçura.

Bjos e deixo meu voto com carinho! :)

Civana · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2008 16:35
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Ailuj
 

Estou ,mandando vc pro banco
um beijo!

Ailuj · Niterói, RJ 2/4/2008 18:19
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jair
 

Cara Civana, obrigado pelos elogios. A doçura é o oásis no meio do deserto.

bjs

jair · Manaus, AM 2/4/2008 23:06
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jair
 

Ailuj, esse é o poder da internet: de Niterói, você pode mandar um cidadão de Manaus repousar num banco apenas com um clique.
Obrigado,
Riaj

jair · Manaus, AM 2/4/2008 23:13
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Doroni Hilgenberg
 

Jair,
mas que poder que vc tem em saber usar a palavra
o texto todo é de uma resignação silenciosa

bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 7/5/2009 17:09
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