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O mundo e suas gentes interessantes

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Roberta Tum · Palmas, TO
14/9/2007 · 102 · 10
 

O nome dela é Clara. Reza a lenda que não há, em todo campus universitário outra mais temida, respeitada, e controversa do que ela. Seus pouco mais de 1,62 de altura, surgem no alto de um salto que ecoa pelos corredores nas noites de aula. O corpo não chega a ser franzino, mas dá o que pensar o fato daquela mulher pequena parecer tão grande aos olhos dos seus alunos, a ponto de ser a protagonista desta história tão interessante. Aconteceu na primavera, quando os ânimos juvenis estão mais exaltados. Na turma de comunicação não faltavam roqueiros, gente underground e aqueles “piolhos” do movimento estudantil, detestáveis seres alienados buscando alienar novos “militantes”. Sammy vagava por entre os grupos todos, sem se encaixar em nenhum.

Na aula de teoria da comunicação, nunca tinha dado o ar da graça. Primeiro foi a greve. Depois vieram os feriados. Por último o ataque dos vândalos protestando sei lá contra o quê. O certo é que naquele dia de extrema letargia Sammy pensava seriamente em por fim aos seus dias tão tediosos. Especulava como. Era covarde demais para usar uma arma. Tinha horror a veneno. Saltar de um prédio era a opção mais plausível, mas até para isto estava sem coragem. Uma coisa era certa: não via mais graça em viver. Exatamente: não via. Até aquele dia.

Clara entrou na sala fulminante. Estava dentro de um modelito básico, primaveril. Vestido solto, em tons da terra, bijuteria, cabelo cuidadosamente penteado. A mulher era a própria imagem de um furacão. Entrou, depositou os livros sobre a mesa, lançou mão de um pincel e traçou três frases no quadro branco. Nome da disciplina, seu próprio nome e telefone celular, bibliografia básica, dois pontos.

- Anotem aí - chamou a atenção da turma já antenada. Bateu as mãos nervosamente
- Você moça - apontou justamente para Sammy - Qual o seu nome?

Ela custou a acreditar que aquilo era com ela. Ajeitou-se na cadeira, respondendo baixinho.

- Olha, não faço questão que venham às minhas aulas. Mas se vierem, venham para participar. Os que quiserem ir, podem assinar a lista de presença e sair...

Sammy tomou um choque. Não estava acostumada com aquele tratamento. Clara despejava o histórico da disciplina, a ementa, seus métodos de ensino. Falou sem parar durante vinte minutos. A turma se esforçava para acompanhar. De algum modo, o tom de voz, a vivacidade, a paixão que aquela mulher transmitia, foi mexendo com a letargia em que Sammy se encontrava.

- Você, por exemplo, por que decidiu ser jornalista?

-Eu?..- balbuciou sem resposta pronta - ... acho que por que queria mudar o mundo – se ouviu dizer de repente, assustada com a própria resposta.

Clara parou o que estava dizendo e olhou firmemente a moça à sua frente. Não devia ter mais de 19 anos, camiseta com temas de bandas de rock, jeans rasgado, tênis all star, cabelo desalinhado num corte curto e meio punk, anéis e piercings por todo corpo.

- Tudo bem, boa resposta, vai render uma discussão. É meio inocente, mas... prefiro os que acreditam alguma coisa aos que não acreditam em nada - Prosseguiu a professora com seu tom absolutamente seguro.

Uma hora e meia depois de muito conteúdo, explicações e normas despejados sobre a turma, a aula chegava ao final. Sammy levantou-se como se tivesse sido literalmente atingida por um raio. Para a próxima aula, ia precisar produzir um artigo científico de 12 laudas, e a lista de referências para pesquisar não era pequena. Na saída, arriscou a pergunta:

- Prof. por que você colocou o telefone celular?

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Autoria
Roberta Tum
Ficha técnica
Crônica inspirada em pessoas especiais
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Ize
 

Adorei Roberta. Mexeu comigo. Que beleza o encontro entre Clara e Sammy contado por vc. Obrigada por me fazer ter vontade de ser como Clara.
Bjs

Ize · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2007 18:55
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Roberta Tum
 

<strong>Ize</strong>, eu é que agradeço sua sensível passagem por aqui. Grandes e inspiradoras mulheres estas que vivem a educação e nos contagiam com sua paixão por ensinar!
Grande abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 13/9/2007 15:04
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Lígia Saavedra
 

Roberta, eu também era um ET na escola e me identifiquei, em parte com sua personagem. Muito bom
Votado.
Bjs

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 13/9/2007 20:03
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Robert Portoquá
 

Olá Roberta!
Seu texto se casa muito bem com o título!
Às vezes pessoas assim (“Claras”) são as que nos fazem ver um mundo melhor no presente e futuro, e acreditar que vale a pena seguir nossos sonhos e transformá-los em vida real.
Muito bom, adorei!
Abçs.

Robert Portoquá · São Paulo, SP 14/9/2007 08:41
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Noelio Mello
 

Roberta.
Teus textos são como as brisas matinais, os ventos da tarde, saboreamos com avidez pela construção perfeita, pelas palavras certas, exatas, e temas fascinantes.
Excelente, querida amiga.
Beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 14/9/2007 08:46
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Cintia Thome
 

Clara..Clareou...Teu texto é supremo, criação por demais bonita.
Votado.
bjus.

Cintia Thome · São Paulo, SP 14/9/2007 08:55
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Nydia Bonetti
 

Seus textos são sublimes... Este então... sem comentários! Que mensagem... Vtdo. e Arquivado! Bjs...

Nydia Bonetti · Campinas, SP 14/9/2007 12:46
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Roberta Tum
 

Lígia, todos nós somos seres em mutação nesta fase da vida não é mesmo? rs...que bom que te tocou!

Robert , fico feliz que tenha gostado, pessoas como Clara são uma injeção de ânimo para quem se acomodou

Cintia, agradecida por tanta gentileza. Bjs

Nydia, nem sempre a gente consegue deixar uma mensagem positiva. Neste consegui, grata pela leitura, e pelo voto. Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 14/9/2007 14:19
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Francinne Amarante
 

bacana, Roberta.
ótimo texto
beijão

Francinne Amarante · Brasília, DF 21/9/2007 09:41
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Roberta Tum
 

Valeu Fran, também tenho lido os seus e gostado muito.
Bjim

Roberta Tum · Palmas, TO 21/9/2007 14:19
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