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O nada

1
Fabrício Costa · Vitória, ES
8/7/2008 · 134 · 13
 

Amostra do texto


Ele faz performances enquanto toma banho, canta até quatro a canção de Leslie Feist. Pensou em livrar-se da dor de escrever e rabiscar rascunhos de tristezas nas poças d'água do chão no banheiro onde jazia, queria gritar hallelujah com Leonard Cohen, queria esquecer das músicas, poesias, livros e apostilas, queria morrer sem sentir dor mas, antes, queria acabar com todas as dores. Ele era jovem e descobrira cedo que viver era breve, ele queria entender tudo, mas descobrira também que não existem respostas para dúvidas e que dúvidas existirão mesmo quando houver certeza de que algo é certo ou errado, ele queria praticar a teoria, mas esqueceu de aprender que a prática deve ser sempre teorizada. Quando pensou no pensar, descobriu que pensar é impossível e que jamais alguém havia dito ao menos porque tal palavra foi concebida, seus questionamentos esbarravam em paredes de azulejos que, também, não sabiam por que haviam sido feitos, queria ser diferente, mas viu que não haveria mudança. Em meio à destemperos e paranóias, descobriu que nunca haviam descoberto nada, descobriu que mentiram quando disseram que na vida é feliz quem vive, descobriu depois que na vida só vive quem tem a sorte de pensar que vive, de pensar que a palavra pensar existe. Pensou que um dia tudo seria diferente e quis fazê-lo naquele momento, antes que suas pernas congelassem nas águas frias que desciam de um chuveiro que também não sabia por que o banhava, quis perguntar-se sobre tudo e lembrou-se que um dia pensou que tudo não existia. Conformou-se. O pobre jovem choroso se recusava a derramar suas lágrimas, pois sabia que lágrimas não existem, lágrimas são devaneios de mentes que pensam, quando assim pensou, teve a impressão que a palavra dor deveria caracterizar o ato inexistente de pensar e que pensar deveria chamar-se dor. Pensava nas dores de quem amava e nas dores dos desconhecidos. Pensava! Por que um dia disseram que “amar se aprende amando”? Por quê? Queria emburrecer como muitos, queria massificar sua nudez e expandir sua falta de lucidez...
Daniel levantou-se do chão do banheiro e seguiu em direção à cozinha, enrolado em sua velha toalha de bichinhos, tomou quatro copos d’água, queria limpar-se por dentro. Dirigiu-se à janela e apreciou o nada por longo tempo. A realidade quase o fez acordar quando viu os ponteiros de seu relógio denunciando que as horas se passaram mais rápido que imaginava. Os dias de uma pessoa que trabalha numa metrópole são muito corridos e Daniel era metropolitano e moderno, era chefe do departamento de recursos humanos de uma média empresa de turismo. Vivia seus dias loucamente e era severo nas ordens que impunha à seus subordinados, enquanto trabalhava, raramente pensava na contradição que era sua vida. Ao dia, vivia tão intensamente para alcançar bons resultados no exercício de sua função que, durante a noite, se esquecia de viver. Suas noites eram repletas de perturbações sem fim, não havia descanso em seus absurdos pensamentos. O pequeno “caroço de arroz” (era branco e pequeno ao extremo, por isso denominava-se assim), queria viver sem preocupar-se com aflições e sofrimentos, tarefa que julgava possível somente durante sua exaustiva jornada de trabalho. Perguntava-se todas as noites o porquê de não livrar-se por completo das dores que sentia, dores não físicas, mas que por vezes transcendiam para tal. O desconforto que sentia vinha de medos, aflições, remorsos e sentimentos de culpa. Ele era apenas um “caroço de arroz” o que podia fazer se não doer-se por tudo que julgava ruim? Pelas podridões do mundo? Pelo amor que há tempos não vinha vê-lo? Pela família distante? Pelos doentes do mundo todo? Pelos pobres? Por todos? Por tudo? Por si? O que faria? Apenas sentiria, não queria adoecer, queria estar sempre saudável, mas o medo da dor física vir a ele era grande e perturbador, tinha medo, pois sabia que como os outros ele era frágil e por frágil ser, era humano e por assim ser, tinha medo. Daniel queria algo bom algo que o fizesse parar de sofrer, algo que o fizesse parar de questionar tudo, queria demitir-se, pois era bom e estava cansado de ser tão desumano em seu trabalho, tão duro, inflexível, isso o atordoava, mas era assim por não haver escolha, era forçado a ser assim, pois também recebia ordens. O jovem homem queria algo inesperado, queria mais alegria, mais distração, queria amigos. Numa tarde de sexta-feira...
Sua cabeça doeu intensamente a ponto de fazê-lo pensar que o momento que tanto temia havia chegado. Doença. Pensou em ir a um hospital, mas lhe aconselharam a descansar em casa, estava muito estressado, era evidente, aceitou que de fato seria melhor ir, e foi-se embora. Ao chegar a seu apartamento, a dor de cabeça era incontrolável, o trânsito esteve caótico naquela tarde e sua consciência pesava por não ter cumprido sua rotina. Ao abrir a porta avistou o sofá e a ele atirou-se em um sono que duraria até as 22 horas do sábado. Acordou sem a menor dor de cabeça e com o corpo totalmente revigorado, sentiu-se novo, e não quis pensar em nada a não ser sobre o nada. Daniel estava decidido a pensar uma mudança de rumo para sua vida, e pensou. No momento em que começou a pensar estava em transe pelas longas horas de sono que havia dormido, tinha a sensação de ter experimentado ácido lisérgico pela segunda vez. Há quanto tempo havia abandonado a normalidade da loucura, seu defeito era ser normal demais para um louco, um ex-louco. Um dia fora louco, ainda era, mas escondia, a decisão de esconder a loucura era pelo seu conformismo. E Daniel pensou nisso, pensou o quanto era conformado com tudo e por nada, por tudo que era tão pouco, tudo que diziam muito, mas se resumia a um pequeno poema pós-moderno,
Acordar
Levantar
Andar
Comer
Mijar
Cagar
Lavar
Escovar
Respirar
Andar e
Comer
Não satisfazer
ler
Reler
Dormir
Sair
Cumprimentar
Despedir
Chegar
Pegar
Despir
Beijar
Despedir
Agarrar
Esfregar
Desamar
E novamente
Dormir e
Acordar.
Decidiu-se, estava à beira da janela e ouviu o cuco bater pela décima segunda vez. Meia noite. Hora dos mortos, como insistia em dizer sua avó. Boa hora pensou. Quis conhecer o nada mais de perto e encontrou-o no chão da rua, que fazia frente a seu prédio, enquanto agonizava os últimos segundos de vida que ainda lhe restavam. Lembrou-se, antes de partir, que um dia pensou que o nada não existe para quem pensa, e deixou de pensar, perdeu-se no nada e encontrou a paz.









Sobre a obra

"O nada" trata da crise de um jovem, um jovem homem em crise, crise existencial, vivendo as pressões e medos do viver e vivendo por viver.

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Autoria
Fabrício Costa Silva
Ficha técnica
O nada
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Cristiano Melo
 

Fabrício,
Sua narrativa é muito gostosa de ler, reflexões de um personagem sobre sua existência, sobre o caos do cotidiano urbano, o vazio que não se preenche e a última tentativa de se desprender do nada!
Parabéns pelo escrito.
abraço

Cristiano Melo · Brasília, DF 7/7/2008 09:47
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Fabrício Costa
 

Obrigado Cristiano! Obrigado mesmo. abraço.

Fabrício Costa · Vitória, ES 7/7/2008 13:17
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Beto Mathos
 

Gosto da poesia que transcende a vida, transgride os mitos e agride o estômago.
O fim do nada, ou o início do tudo, foi bem construído e deu à personagem a escolha sobre a sua própria existência.
O livre arbítrio. Gosto do livre arbítrio de poder exercer sobre a vida o dom divino, mesmo que esse dom seja levado ao extremo.
Bravo!

Beto Mathos · Vitória, ES 7/7/2008 23:51
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Renato de Mattos Motta
 

Fabrício!
Gostei muito do teu conto!
Me lembra muito um que escrevi há muitos anos (se quiseres te mando pois não pretendo publicá-lo aqui) e que ganhou 2º lugar no Concurso Mario Quintana de Literatura DCE / ADUNISINOS. São dois contos diferentes, mas se tocam fantasticamente!

Aproveito e te convido a visitar este meu poema nesta mesma fila,
se gostar, comente e vote, se não gostar, ainda assim comente:
http://www.overmundo.com.br/banco/poeminha-dificil
Abração!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 8/7/2008 00:15
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EdimoGinot
 

Fabricio.
Belissimo texto. Senti um pouco de Hesse e seu lobo da estepe.
Vi um lobo na cidade, desencontrado, faminto de alma.
Parabéns. Um grande escrito.
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 8/7/2008 08:36
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clara arruda
 

Fabrício vou te dar meus 9 pontos pelo texto e por ter filho jovem.Carinho e a sua publicação.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2008 10:22
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azuirfilho
 

Fabrício Costa · Vitória (ES)
O nada

No que tem o nome de Nada, verdadeira imensidáo de criacáo.
Parabéns Amigo, um Texto de folego.
Cheio de merecimento.
Firmeza e continuar que iniciou muito bem.
Abracáo Amigo e Voto de louvor.

azuirfilho · Campinas, SP 8/7/2008 17:22
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Ilhandarilha
 

Gostei muito da sua prosa. Leve, cotidiana, mas cheinha de sentidos.
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/7/2008 18:30
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Marcinha Scapaticio
 

Muito bom, tb,não com tantos nós.

Marcinha Scapaticio · São Paulo, SP 31/7/2008 10:44
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Fabrício Costa
 

Mas não tem jeito Marcinha se não houver uns nózinhos, mesmo que, sejam poucos, não tem graça, hehehee.... Obrigado pelo comentário. Abraços!

Fabrício Costa · Vitória, ES 31/7/2008 15:22
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Doroni Hilgenberg
 

Fabricio.,
Grande texto, a loucura quando não controlada, acaba-se sozinha.
Mas você, tão novo e escrevendo assim, com toda esta estrutura e conhecimento de causa. Vai longe menino!
Parabéns.!
bjsssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 31/7/2008 17:10
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Carlos Mota
 

Carlos Mota · Goiânia, GO 5/1/2009 18:17
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Ériton Berçaco
 

Quero reler, mas já senti que dá pra render algo. Engraçado que tenho um roteiro pronto, com dois personagens. Um deles é um jovem em crise, mas que ainda lhe falta corpo, tato, sentidos. Talvez o seu jovem seja o corpo que falta ao meu.
Abraços

Ériton Berçaco · Muqui, ES 19/3/2009 01:26
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