Nos finais dos anos 70 e inÃcio dos 80, ainda adolescente e morando no Rio de Janeiro, me recordo com muita satisfação do hábito de comprar o jornal de domingo, inicialmente O Globo, depois o Jornal do Brasil (JB). Após a leitura, guardava alguns recortes. O tempo passou e poucos restaram. Isso em razão de algumas mudanças de endereço, inclusive aquela realizada do Rio para Aracaju, no ano de 1982.
Mas, dos poucos recortes que ficaram guardados em minha memória, um deles era uma reportagem de natal (no JB), com destaque para a reprodução de um bilhete do pintor das marinhas, José Pancetti, endereçado à sua filha.
O bilhete, reproduzido com a letra do pintor e com o desenho que o acompanhava, falava da preocupação de Pancetti com a questão da injustiça social que distanciava algumas crianças de outras.
Dizia Pancetti à sua filha que era necessário que ela não se esquecesse de que na noite de natal, enquanto estaria participando de uma ceia farta de comidas e guloseimas e recebendo brinquedos caros, muitas crianças estariam comendo muito pouco ou quase nada e seus brinquedos estariam reduzidos àqueles que a sua imaginação poderia fazer com os restos do material que seus pais ou elas catavam no lixo.
Com isso, o pintor estava começando a querer ver sua filha envolvida pelo cuidado com aqueles que não dispunha de tantas oportunidades como ela.
Naqueles fins de 70 e inÃcio dos 80, o grupo musical Secos e Molhados irrompia na cena musical com um jeito de cantar e de se apresentar que marcou a vida de quem os viu nascer.
Das músicas do grupo, Rosa de Hiroshima já faz parte do nosso imaginário musical brasileiro. Como no bilhete de Pancetti, a letra de Rosa de Hiroshima, da autoria de Vinicius de Morais, nos convida a lembrar das crianças vÃtimas do sofrimento. No caso dessa composição, o sofrimento gerado pelas guerras.
Agora, a partir do segundo semestre de 2009, além do meu trabalho como produtor cultural, voltei para o convÃvio com adolescentes em uma escola da região metropolitana de Aracaju, conjunto Jardim, e várias cenas me fazem recordar o bilhete de Pancetti e a música Rosa de Hiroshima.
Numa dessas cenas, por mais de uma vez me deparei com um menino cego, guiado por sua jovem e bela mãe dentro do ônibus, vindo de uma escola para crianças especiais em Aracaju.
Em outras cenas, dentro da escola, vejo crianças e adolescentes com muita necessidade de atenção, tanto no campo dos conhecimentos próprios de cada matéria, como nos aspectos emocionais, afetivos e éticos.
Vejo e sinto também que elas respondem de forma positiva quando a gente mostra que pensa neles(as) considerando todos as suas necessidades e, quando enxerga e valoriza suas potencialidades .
Um exemplo disso foi a comemoração do meu aniversário em novembro, quando quatro turmas de alunos(as) se organizaram para celebrá-lo, com direito a fila de uma das turmas na porta da entrada da escola, para nos cumprimentar, com abraços e beijos.
E aà me lembrei de um aniversariante muito especial que poderia ter nascido em um lugar cheio de luxo e brilhos e preferiu nascer em um lugar bem simples para nos lembrar da necessidade de olharmos com muita atenção para quem ainda não dispõe dos meios necessários para uma vida de plenitude.
Ao mesmo tempo em que nasceu em um local adverso, Jesus de Nazaré nos quer mostrar que isso não significa que ele e todos nós, inclusive as crianças e adolescentes residentes nas periferias de nossas cidades, não tenhamos guardado dentro de nós um potencial grande de carinho, criatividade, beleza, alegria, gratidão e solidariedade.
Depende de nós, cultivarmos estes valores em nós e utilizarmos todos os meios possÃveis para que sejam semeados nos corações e nas mentes de todas as nossas crianças e jovens, para que possam se materializar em atitudes e ações de bem estar e felicidade geral.
E sei que por meio das linguagens artÃsticas, do esporte e das novas tecnologias podemos fazer isso do modo mais eficaz e com a urgência que os sofrimentos do nosso tempo requerem.
Para concluir, reafirmando tudo isso, lembro do trecho de uma música que marcou a minha adolescência, tornando-se uma das minhas preferidas: “Sim é como a flor: De água e ar, luz e calor, o amor precisa para viver, de emoção e de alegria e tem que regar todo dia(...) No jardim da vida, já plantei um pé de esperança, fruto da vivência, é a consciênciaâ€.
Pensem nisso, pensem em Jesus de Nazaré, pensem nas crianças que estão próximas e distantes de vocês, pensem na criança que habita dentro de vocês, pensem nas crianças que vocês foram. Vez em quando.
P.S: O ano de 2010 é ano de eleições, por isso peço a vocês que irão participar que não deixem de pensar na hora de votar nos compromissos dos candidatos com atitudes, muito além das palavras e promessas de campanha, com a ampliação e qualificação dos investimentos necessários em favor da educação integral de nossas crianças e jovens.
A despeito dos avanços que estamos obtendo, faz-se necessário ainda muito mais esforços para tornar realidade o sonho e a luta de diversas gerações de brasileiros que colocaram suas vidas a serviço de uma nova escola, lugar por excelência para a construção de um futuro melhor. Para isso, precisamos dispor de professores bem renumerados e preparados para lidar com as transformações do tempo presente, as quais para o bem e para o mal, repercutem na vida de todos nós.
Além de equipamentos e prédios adequados para as necessidades que “rugemâ€, destacamos dentre estes: construção de auditórios e salas arejadas, bem iluminadas e com cadeiras e mesas que não deformem o corpo; quadras cobertas, com banheiros e vestiários; laboratórios; espaços de convivência; áreas verdes, piscinas e salas multiusos para práticas artÃsticas, equipamentos de som, imagem e informática.
Faz-se necessário também investimento maciço em formação continuada para os professores e funcionários saberem lidar com os novos saberes e práticas necessárias para a educação do futuro, que é agora!
Dedico esse texto à minha mãe e a meu pai, que me alimentaram com muito afeto, carinho e consciência ética, sem os quais teria sucumbido, aquilo que diz o texto de uma música muito tocada nas rádios ultimamente. “O mundo quer lhe ver chorando, ouso dizer e apenas clamandoâ€.
Dedico também aos mestres: Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Frei Betto, Rubem Alves, Leonardo Boff , Marcelo Barros, Eduardo Galeano, Alberto Ruz, e Reginaldo Veloso, que me ensinaram a certeza de que nós somos os braços, as pernas, enfim, o corpo do Deus-Amor que quer vida em abundância para todos.
Esses mestres também me ensinaram/ensinam a escrever da forma como o faço.
No ano de 2007. conheci um excelente texto sobre o natal, do teologo Faustino Teixeira, e resolvi divulgá-lo para os amigos (as) como mensagem de natal, acompanhado de um comentário da minha autoria.
Já em 2008, elaborei um outro texto e em todos eles a combinação da espiritualidade do natal, a qual é marcada pela esperança, com a defesa da arte como canal para transmitir e fixar essa esoerança em todo o nosso ser, através dos sentidos e da emoção, sem deixar de lado a razão, é claro!
Neste ano de 2009 a história se repete. Porque todo os anos, o menino Jesus renasce para nos lembrar aquilo que a gente nunca deve se esquecer. É para o amor que fomos criados e a nossa humanindade ainda não é obra pronta, e somente completando a nossa humanidade, obra do criador, é que chegaremos mais perto Dele.
Zezito de Oliveira · Aracaju (SE)
O natal e a e_terna criança que nos habita.
Lindo Trabalho.
A Vida é um Grande teatro que vai ensinando a todo mundo.
Faz a gente lembrar do Paulo Freire e do Augusto Boal.
An gente lembra da Pedagogia do Oprimido e da necessidade de libertar tanto o oprimodo como o opressor, porque ele tambés esta escravizado a um destino sem glória como sendo o Judas que trai todos os pobres pelo que usurpa e estraga a vida dos outros, tornando a sua própria semsentido e suja na essência.
Natal é o Nascer de Jesus com esperança de o Mundo Mudar e todo mundo se irmanar com amor ao Próximo e Boa Vontade.
No nosso papel vamos colocar o amor do mestre que esta em nós.
Feliz Natal a todos.
Abração Amigo.
Meu querido amigo, embora distantes fisicamente, sinto-me perto dessa tua essência divina tão importante, maravilhoso aquele som da Mercedes Sosa e a sua dica pra 2010, depende mesmo de nós o futuro dessa pátria !
Parabéns também por agradecer da forma que faz, lembrando dos seus mestres e parentes, responsáveis por quiem és hoje...
A gente num pode se esquecer das nossas origens...
Um beijo !
Olá Zezito!
Olha, agradeço por vc. proprcionar-me estes sublimes momentos.
E impressionante como viajei lendo este texto, sentindo o tempo voltar a cada palavra. Parte das referências citadas fizeram e fazem parte da minha vida, principalmente às musicais, e esta preocupação com os contrates sociais sempre fez parte também da minha vida.
Acredito que todos deveriamos ter a mesma preocupação do pintor que vc. citou (Pancetti), com relação ao Natal.
Infelizmente isto não acontece.
Penso que o papel de cada um é fundamental para que tenha-mos um mundo mais igualitário no futuro.
Um fraterno abraço!
Do amigo,
Antonio Vieira.
Caros,
Azuir - Grato pela visita e pelo comentário que enriquece o nosso texto. A sua lembrança de Augusto Boal é muito importante. Também faz parte da minha história e não esquecerei de citá-lo em outra ocasião oportuna para isso.
Alcanu- Lembrar por e de onde tudo começou/começa é fundamental, como também de como e de quem fomos acrescentando na caminhada. Valeu!!!
Antônio – Uma das coisas mais interessantes ao compartilharmos um pouco da nossa história e das referências que nos fazem ser do jeito que somos, é descobrir o quanto temos de comum. E a internet é uma conquista fantástica para isso, fazendo-nos sair do isolamento, em especial aqueles dissonantes ou que costumam desafinar o coro dos contentes.
Sobre a música, a sua reação calorosa a uma outra que enviei para você em outra ocasião, fortalece a certeza de que ela é um canal poderoso para nos conectarmos de coração a coração.
A esse propósito o Buda/Nagô Gilberto Gil, disse.
recebido através de e-mail
"ArÃsia Barros dos Santos"
Em 2010 que tenhamos diante dos sonhos uma idade indefinida.
http://www.cadaminuto.com.br/blog/blog-raizes-da-africa
Que venha 2010!
Com uma consciência ampliada do mundo entre a crÃtica e a construção. Nada da inveja humana desagregadora. Que tenhamos diante dos sonhos uma idade indefinida.
Que deixemos de lado o jogo cênico da convivência humana. Que possamos ser sinceros na medida em que a sinceridade não ofenda princÃpios e comÃcios e não coloque nossas vidas na ponta da flecha. Precisamos da coerência. Que não tenhamos idéias simetricamente unÃssonas, mas que aprendamos a lidar com as diferenças de nossas idéias e nossas próprias diferenças. Que não esqueçamos que vivemos em permanente transição e essa transição vai além do novo ano. Uma transição casuÃsta entre o bem e o mal, o possÃvel e o que não pode ser. Somos arquitetos e arquitetas de outra história e histórias não se fazem de repente. Elas se fazem ao longo de muitos natais e vários e curtidos anos. Que possamos na nossa vida cotidiana conjugar questões essenciais sem desaprender o sorriso, a lembrança, as pessoas especiais. Contemporaneamente o tempo é nosso pior inimigo. Não temos mais tempo. Só para o trabalho e a famÃlia. Amizade hoje é artigo descartável Que nossa vontade de compartilhar vidas e conhecimento seja andarilha, ampliando o alcance da melodia renascida pela presença “transitória?†do novo ano.
Que possamos apreciar, de verdade, a mistura de gentes sem esquecer nosso verniz pessoal. Que possamos escrever no caderno-diário a meia dúzia de sonhos simples(sem envolvimento do crescimento financeiro), que a escassez de tempo nos permite ter. Somos mimetizados pela urgência. Não nos preocupamos mais em desapontar pessoas. O que nos importa verdadeiramente é garantir o futuro. Somos, hoje, antropofágicos de um tempo em sintonia com o supérfluo das relações humanas e nos entregamos a uma desenfreada autodissolução de valores e laços afetivos até que a morte nos puxa para valoração do momento presente.
Essa é à hora, ou metaforicamente, de cantarolar as músicas frescas com tantos e tantas que habitam a memória de nossas histórias. O individualismo nos abraça com uma intimidade avassaladora e fragmenta o continente de possibilidades de parcerias no jogo dos reflexos humanos. Estabelecemos uma comunicação meticulosa e introspecta com um número seletivo de amigos/amigas cúmplices do nosso mimetismo relacional.
Que não nos contentemos com o estado mÃnimo de direitos. Precisamos dos bastantes, numa justa fruição de legado do representante polÃtico eleito por nós. Vejam, somos nós que os/as elegemos! Homens e mulheres que só comem panetone no Natal. Precisamos de bastante respeito à pessoa humana. Precisamos começar a decidir o nosso destino polÃtico.
Que nossas teorias e reflexões tomem corpo e espÃrito e transformem-se em atitudes. Precisamos estabelecer, novamente, a interação com o outro ou outra que habita nesse conglomerado mundo de meu Deus, Olorum, Tupã e aà formar redes, alem da internet.
Precisamos voltar a cultivar a delicadeza de ser humano eliminando monólogos e estimulando o agrupamento e interlocução de novos protagonistas, sem arredar pé do idealismo que faz do universo um ponto de encontro entre o sonho, esperança e as possibilidades de mudança. Ok! O primitivo e o civilizado fazem parte da essência humana.
É preciso que prestemos atenção ao silêncio do nosso grupo social que em muitos reflete a nossa contemporânea omissão cidadã. Estamos muito silenciosos diante das caminhadas contemporâneas? Somos uma sociedade participativa, agregadora?
É preciso que tenhamos tempo para compreender a verdadeira dimensão do ano que sem subterfúgios rompe parecido com tantos outros nascimentos, portanto é urgente que inventemos encaixes diferenciais para desfrutar a delÃcia e o desafio de um novo ano.
E que possamos vivencias nossas raÃzes africanas. Sem preconceitos!
Seja bem-vindo 2010!
Solidariedade a Zilda Arns e ao Haiti. Com ou sem terremoto!
http://consorciocultural.blogspot.com/2010/01/solidariedade-todos-que-morreram-no.html
Lá está ela. A Ãrvore da Vida.
Infinitamente sábia e absoluta.
Através das eras sempre existiu.
Desde o Jardim do Édem,
acompanha a trajetória da humanidade.
Suas fraquezas, seus vÃcios, seus medos
mas também suas realizações e evolução interior.
A Ãrvore da Vida. Atemporal.
PrincÃpio gerador de todas as coisas.
Essência Divina que a tudo permeia.
Quem comer de seu fruto e beber de sua seiva,
alimenta seu EspÃrito e supera gradualmente
a apuração de todos os sofrimentos.
A Ãrvore da Vida. Vida Ãntegra.
Libertadora... Perfeição Divina.
"A Vida só tem sentido se for permeada por gestos de Amor".
Abraço fraterno. jbconrado
jbconrado*
Sabe Zezito, a gente costuma dizer que uma andorinha só não faz verão, mas é através dela, que uma criança pode se regenerar e outras seguem o bom exemplo. É uma corrente que vai longe e é tão bom fazer o bem. Já trabalhei ( serviço voiluntário) com crianças especiais, e senti na pele o quanto elas tem necessidade de amor e carinho, pois muitas familias desestruturadas nem as enxergam.
bjs
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