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O ovo
Fred Teixeira · Extrema (MG) · 1/9/2008 11:02 · 5 comentários ·  
Humpty Dumpty is dead
Humpty Dumpty is dead
Sou saprófita. É duro confessar... só agora percebi que sou, e portanto não posso ser culpado por não ter dito antes. Saprófitas são formas de vida que surgem em meio à matéria morta. Há fungos, bactérias, liquens e até mesmo orquídeas saprófitas. E agora há eu, também. Não sei como surgi neste cadáver que por enquanto animo, nem quais foram os anseios de seu antigo proprietário, quando vivo. Só sei que posso mover seu corpo, que funciona como um fantoche sendo controlado de dentro – uma máquina. Evito que ele apodreça comendo os alimentos que ele anteriormente consumia, pois seu organismo continua funcionando, apesar da morte. É preciso entender que sou uma espécie de parasita, também. Como um vírus inteligente, mas não sou um vírus, nem mesmo sou um animal. Sou algo que está além. Ou aquém. Eu não tenho... forma. Não tenho aquilo que se denomina consistência. Não sou físico, e contudo existo. É como ser uma programação, ou um sentimento, ou um fantasma. Eu não sou o que aparento ser. Por fora, veja, sou esta carne. Por dentro possuo estes órgãos, sadios, que funcionam perfeitamente bem. Meu cérebro, ou antes o cérebro do antigo dono, continua tendo os mesmos pensamentos de antes. No entanto, não sou mais ele... pois fui eu mesmo quem causou sua morte.

Sim, agora posso reconhecer. De que outra forma teria ele morrido? Se eu não tivesse sugado toda sua essência através da espinha, secando na fonte sua rica matéria nervosa feito um câncer maligno, ele ainda estaria vivo, posso garantir. Mas eu não sabia o que estava fazendo, só queria comer para crescer e ficar mais forte. Não sabia que eliminaria meu hospedeiro, não podia entender que eu era uma espécie de vampiro interno, um verme sem substância que aos poucos dilapidava todos os neurônios personalizados do ser que verdadeiramente animava este corpo. Agora estou com problemas de adaptação. É gozado, sempre vivi parasitando o outro e, como ele morreu, não sei mais se sou um carrapato que venceu seu hospedeiro ou o locatário de um imóvel móvel que invadi sem permissão. Está vazio – a não ser por mim. Digo espiritualmente. Sua alma, seu espírito se foi. Só fiquei eu, e não sei como funcionam certos aplicativos, tenho medo de acionar algum botão que cause uma pane no maquinário. Não tenho manual de instruções, ninguém que me explique como pilotar essa coisa que se denomina corpo. Minha preocupação sempre foi apenas sugar a vida a quem eu me aferrava, e agora que estou no comando sinto que consegui o que queria – mas nunca soube o que queria, nem que seria assim. Alguém aí sabe o que é amor? E fome? E dor? O que é que se faz quando os olhos ficam úmidos? E quando o abdômen parece pipocar? E quando o coração bate apressado, e os pulmões ciciam? Ah, que trabalheira apreender os significados ocultos desta geringonça!

Creio que comi demais de um certo fruto, de menos de outro. Não sei o que é cozinhar, apesar de saber que o fogo, aquela matéria amarelada e ondulante que não consigo fechar num frasco, está envolvido no esquema. Acho que mastigo mal os alimentos. Tentei comer terra, mas há poucos nutrientes, diz-me o paladar. Leio livros que só fazem complicar ainda mais meus pensamentos. O que é Poesia? Diz-me o coração, que é o utilitário das sensações, que é a principal responsável pelos sentimentos mais esdrúxulos e pelas emoções mais descartáveis. Não seria preciso objetar contra isso? Não é o coração simplesmente uma bomba de sangue? E não é o sangue um combustível refinado pelos rins? Céus, não entendo uma série de coisas! Fala-se em cérebro. Que é que faz o cérebro? Eu fico aqui, sentado nele, e tudo que sinto é que serve de encosto para minha insubstância. Serei insensível a tudo? Toco com os dedos dele a face dele, e tudo que sinto são as pontas dos dedos dele tocando a barba grande dele. Não sinto que é em mim que toco. Não sou eu isto daqui. Mas, então, o que sou eu? Eu sou algo menos que eu? Um déficit de mim? Que restou dele, além da carcaça, e quem sou eu, além de algo retroativo a ele? Serei sua parte primitiva? Não me lembro de onde vim, se é que vim de algum lugar. Terei vindo daqui mesmo? E se sou sua programação primeva, por que não consigo compreender o funcionamento fundamental dessa coisa articulada? Andar de quatro, de gatinhas, é dificílimo. As mãos e os joelhos não têm coordenação, caio sempre, os pés e os braços se esfalfando sem resultado no ar. Onde fica o chão? O que é macabro? A linha, o selo, o que representa representar? Perco a calma, mas nem sei o que é. Sou o que sou? Sim, digo-me, mas discordo automaticamente. Piloto automático? A função pneumática tem raízes hidráulicas. Pneuma do cóccix? Gaseificado odor parte do labirinto delgado, minhas narinas frementes se embriagando na putridez do grosso interstício. Umbela malar? Núcleo de feto, sou ambíguo e contudo não vejo de dentro, observo de fora o interior externo, não sei mais o que é fora, o que é dentro – lá dentro? É isso loucura? É isso eu? É isso isto? Lombriga que sou, verminose agreste que ele é em mim. Saltar do trampolim? Claro, como não? Pulo, ele pula, eu sigo, ele cai comigo na piscina vazia da cabeça. Ele morre novamente (sua máquina?), eu escapo escalpelado pelos vãos da realidade e vou, vou, vou. Para onde? Melão é o crânio, espatifado, eu não era ele mesmo, ele era eu ou o quê? Eu pensei que sugava ele, foi meu erro, eu sugava eu e ele não existia, só eu havia, e agora nem eu há. Tudo que resta é o ausente lacunar e oco do raciocínio, o ovo que não brota da podridão no antro do ânimo morto, semente que não foi, não é nem será.


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Não sei, exatamente, o que vc é.
Sei que gosto.
bjos
CD
( parasita, fungo e lá vai vc encantando como se quisesse espantar! Sei;))
Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 1/9/2008 13:17 
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Fred, texto lindo prum nada, cara !
Você tem o seu valor, de verdade !
Um abraço !
alcanu · São Paulo (SP) · 4/9/2008 01:44 
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Gostei do teu texto. Se renasce todo dia, pela matéria, pela imaterialidade, pelo nada.
Abraços
zilka jacques · Porto Alegre (RS) · 4/9/2008 12:14 
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Fred,
"Ele morre novamente ( sua máquina?)
e eu escapo escapelado pelos vãos
da realidade e vou, vou, vou...
Fredy, tu es um fantasma,
ou um cadáver ambulante?
bjssss e votos
Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 4/9/2008 22:23 
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muito bom.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 5/9/2008 10:08 
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