O país dos horizontes
(Araguari 1944, carro de boi 108)
Quanta chuva, poeira fina, lamaçal e inexistência de estrada nos sonhos do meu avô e no pragmatismo sem nome e impotente da minha avó, que o seguia. Mas no fundo daquela falta de rumo e prumo, no esmo da vida feita de vontades desgovernadas, o dirigia com doces mãos de ferro! Quanta metafísica de tudo isso na minha história, na saga tropeira do meu avô tangendo o boi bravo da vida exigindo o futuro andante das gerações.
Quanta ferrugem, meu Deus, rangendo desde o mais profundo tempo das Minas Gerais até à travessia das almas que fecundaram em Goiás! Quanto pasto ruminou os bois carreiros, quanto choro de criança, resmungos e explosões de fúria da minha avó! Quantos silêncios e desatinos do meu avô! Quanto descompasso na toada do canto dos carros e no lombo daqueles bois e daqueles dias que viraram lenda perdida na memória dos que a viveram! Quantas exclamações disfarçando perguntas sem respostas!
E quantas ave-marias, pais-nosso, salve-rainhas, rosários de contas e lágrimas nas rezas de minha avó? E esperanças, muito mais que sonho, na travessia em definitivo do rio Paranaíba? E mais que um retrato, um estado de alma, Minas virou a imensa e inatingível pátria do meu avô, que jamais reencontrou em suas visitas, porque estava dentro, entranhada nas raízes que ficaram lá atrás, antes daquele momento da poeira fina da estrada grudando como nódoa naquela alma surrada.
Assim, nos habituamos às histórias de meu avô Belisário, em que tudo era pretexto para Minas. Não comprou terras em Goiás, porque terra boa, de cultura, era de Minas. E água? Ah, água boa era a de Minas. Não sei, toda vez que penso em Minas, sinto água brotando de escondidas grotas dentro de mim, gotejando fria, fria, atingindo os ossos da eternidade.
Ainda vejo o meu avô, aquele chapéu bailarino no longe - longe, relampagueante e corajosamente único sobressaindo-se no meio da boiada, um mito que queimou e queima como brasa o sopro lírico de nossas vidas.
Escuto ainda, como num sonho, as histórias de brabezas e valentias daqueles homens de sertão, de silêncios e de ermos. Escuto, querendo tocá-lo, meu Deus! Os seus passos no corredor do alpendre que adiava a casa beirando uma eternidade; tento segui-lo, já atravessando a sala, mas paraliso todos os músculos, como fazia quando criança, enquanto ele passava por nós, destemido e temido como um deus. Bastava rascar a garganta, que a gente sumia. E se soltasse aquele temido merda expressando o seu profundo desagrado com as nossas artes, aí tudo estava perdido e só restava mesmo a proteção das barras da saia da minha avó, às voltas de quem ficávamos, até que o dia escorresse e o velho Belisário envolvido com a lida da fazenda nos esquecesse por completo. Ufa! Era um alívio.
E a vida recomeçava sempre igual naqueles cafundós de quintais, beira de rio, o Capivari de perigos insuspeitados; vasculhar os campos atrás de passarinhos, embrenhar nos brejos, o sonhar acordado com os olhos pregados naquelas neblinas de manhãs. O nevoeiro denso que vinha lá das bandas do rio e chegava até os beirais das janelas nos enchia de um fascínio de ver. Só reencontrei essa sensação das neblinas daquelas manhãs ao ler As Brumas de Avalon. Em pensar que a minha barca de passagem para esse mundo perdido é um simples objeto com a gravação do nome do lugar, a data e um número de inscrição... A imagem da neblina misturada à fumaça esvaindo-se do fogão à lenha e o café no bule eternamente sobre a chapa quente chega a me inebriar.
(Íntegra do texto no download)
Maravilhoso! Tudo! Desde o título, a imagem e o texto perfeito! Lindo demais... Emocionante. Me deu vontade de remexer no meu baú de lembranças... Abçs... Vtdo!
Nydia Bonetti · Campinas, SP 17/9/2007 08:40
Nydia, que bom que gostou do texto, dessas memórias cavucadas no brejo das almas. Remexa, sim, o seu baú de lembranças e lá garimpe o ouro absoluto, o que nos explica e motiva a seguir na correnteza das gerações. Obrigada pelo retorno caloroso das impressões de leitura.
Beijo grande!
Uma maravilha seu texto querida. Parabéns!
Penso que deva ter sido uma deliciosa viagem escrevê-lo
Votadíssimo viu. Um abraço.
Quando esse carro de boi rangia, eu estava fumando meu "Cachimbo Vermelho". Gostei muito! Victorvapf.abrs. (se voce puder dar uma olhadinha nele, agradeco.)
victorvapf · Belo Horizonte, MG 17/9/2007 19:48
Cida,
Se vai conhecendo em prosa de profundidade lírica por onde passaram teus avós e mesmo tu à medida que teu texto avança a passo e nos repassa por tua pena um passado tão presente em ti, para nós um mimo.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!