Insuportável
Inconstante
Incontável
Isabel não sabia o que fazer
Por isso nada fez.
Ficou olhando pela janela
Enquanto os soldados levavam seus pertences
Ela devia impostos ao rei
Eram muitas moedas de ouro
Isabel não tinha dote
Os soldados jogavam tudo dentro de uma carroça
Com força e desdém
Como se aquelas peças não fizessem parte de uma vida
Como se Isabel não fosse uma pessoa
E riam da situação como se tudo não passasse de uma cena circense
Isabel começou a chorar
As lágrimas rolavam por suas bochechas vermelhas
E caiam no chão de madeira
Sem fazer barulho
Pobre Isabel, não tinha mais cama.
Depois de tudo recolhido
O capitão dos soldados foi ter com Isabel
Disse-lhe que a hora era chegada
Que deveria deixar a casa
Ou sofrer as conseqüências.
Isabel limpou o rosto com a manga de seu vestido
Encaminhou-se em direção da porta
Passou pelos soldados que riam
Olhou para trás e pôs-se a caminhar
Pela estrada que parecia não ter fim
Ela chorava e caminhava
Não tinha idéia do que fazer
Não queria virar prostituta
Mas não conseguia ver luz em seu caminho
Pareciam que todas as portas estavam fechadas
Chegando a cidade
Foi direto ao bordel
Falou com a cafetina local
Pedindo-lhe emprego
Ela olhou Isabel e concordou
Disse-lhe para se arranjar
Entregou-lhe a chave de um quarto
O custo era de uma moeda de ouro por noite
Clientes não iriam faltar
O lugar era bem freqüentado, e ela era bonita
Isabel fechou-se em seu quarto
Banhou-se demoradamente
Recolocou seu vestido e voltou a sala
Sem maquiagem, despenteada
Não fazia diferença se iriam gostar ou não
Seu primeiro cliente apareceu
Parecia ser gentil
Disse-lhe que queria conversar
Que tinha uma proposta para ela
Foram até seu quarto
Fechou-se a porta e o homem sentou-se na cama
Olhou para Isabel que começou a tirar a roupa
Ordenou que ela parasse
Queria mesmo apenas conversar
Isabel sentou-se ao seu lado
Ele era um pintor
Queria uma modelo
Ela riu-se, perguntou para que
Ele disse que queria pintar
Uma mulher, nua
Isabel não sabia o que dizer
Era imoral, tão imoral quanto o bordel
Deus não a perdoaria
Não poderia
Não aceitaria
Ele olhou-a
Passou a mão em seu rosto
Com um carinho jamais visto
E mandou ela se despir
Se não queria ser modelo que fosse meretriz
Ele foi o primeiro
E voltou todas as noites
Sempre lhe deixava uma moeda de ouro e uma de prata
E toda a noite lhe fazia a mesma proposta
Queria pintá-la, nua
Nos intervalos dos atos sexuais
O pintor e a meretriz conversavam
Ele sabia que era o único
E ela estava aprendendo sobre arte
Uma troca justa ele dizia
Isabel contou-lhe sobre sua vida
De como quando o pai, então amigo do rei morreu
E ela recusou-se a deitar-se com ele
O rei então lhe cobrou todos os impostos
Que não cobrava de seu pai
Ela não tinha como pagar
Então ele lhe levou tudo
E tudo que lhe sobrara era seu corpo
E um vestido
Estava sozinha, sem saber o que fazer
O pintor a convidou para uma viagem
Que tal Paris
A cidade luz
Onde ninguém a conheceria
Poderia de novo ser uma moça da sociedade
Mas e como ela faria para se sustentar lá
Não tinha um vintém
Não conhecia ninguém por lá
Não conhecia a cidade
Provavelmente voltaria a mesma vida
O pintor disse-lhe que poderiam morar juntos
Tinha um emprego a sua espera
Logo partiria
Ela que pensasse bem
Poderia ser a oportunidade de sua vida
Ele voltou na outra noite
Ela disse que tudo bem
Que fossem a Paris então
Ela começaria de novo
Prometeu-lhe ser uma boa esposa
O pintor não queria uma esposa
Queria uma modelo
Ela aceitou
Ele tomou-a em seus braços e deu-lhe um longo beijo
Amaram-se mais uma vez
Na manhã seguinte partiram
Ele pagou suas despesas no bordel
Isabel não tinha malas
Ele comprou as passagens
E se foram felizes a Paris
Chegaram ao raiar de um novo dia
E procuraram uma pensão
Isabel ficou a dormir
Enquanto o pintor fora de encontro com seu emprego
Não muito distante dali
Falou com seu chefe
Ele daria aulas
Mas teria que ter uma vida regrada
A escola não admitia que seus professores
Fossem uma má influencia aos alunos
Ao voltar a pensão
Isabel estava deitada nua sobre a cama
Dizia que estava pronta
Que ele poderia pintá-la agora
Que ela se entregaria a sua arte
Ele pegou seu estojo de tintas
Seus pincéis e uma tela
Pôs o cavalete em frente a cama
E começou a desenhar
Com amor e euforia
Então a tela ficou pronta
E todos os dias quando voltava da aula
Isabel espera o pintor nua
Em uma posição diferente
E muitos quadros foram feitos
Um dia, o diretor da escola pediu-lhe um quadro
Queria colocá-lo em sua sala
Um enfeite cedido pelo seu melhor professor
Faria bem para imagem da escola
E para seu trabalho
O pintor chegou em casa
Isabel já o esperava
Posição de Vênus
Ele a olhou
Mas não a pintou
Disse-lhe que não era mais preciso
Que já tinha feito todos os quadros que queria com seu corpo
Que precisava de uma nova inspiração
Que ela já estava ultrapassada
E falou sobre o quadro que o diretor pedira
Disse-lhe que achava que sua arte era inapropriada
Que ele jamais aceitaria um de seus quadros
Que não poderia ser considerado o melhor professor
Pois não teria arte a mostrar
Desdenhou a arte do corpo de Isabel
Ela começou a chorar
A pintura de seu corpo nu era o que os ligava
Como poderia ele não perceber que enquanto a pintava
Pintava sua alma
Nenhum outro homem jamais teria isso
Mas isso não fazia diferença para o pintor
Ele queria ser famoso
E não apenas um reles professor
Precisava de quadros que honrassem a escola
Precisava de uma nova arte
Pegou seus pincéis e tintas
Uma tela e saiu
Foi procurar sua inspiração na cidade
Algo belo e digno da sala do diretor
Algo grandioso
Isabel ficou a chorar
Se sentindo natureza morta
Deposta por seu ídolo
Jogada fora por seu amor
Sem função alguma
Preparou o jantar
E abriu um vinho
Pôs-se a beber
Quando a chuva começou a cair
E seu algoz não voltava
Quando o pintor chegou
Isabel estava deitada na cama
Ele deitou ao seu lado
Sentiu o seu cheiro de vinho
E sentiu uma enorme angústia
Sentia como se aquela mulher o tivesse destruído
Passara a tarde no parque e não encontrara inspiração
Apenas conseguia ver Isabel em todos os lugares
A imaginava nua por entre as árvores
O chamando para pintá-la
Ela havia tirado todo seu dom criativo
E roubado para ela
Depositado em seu ventre
Como se seu corpo fosse a única coisa digna de sua pintura
A única coisa que o fazia ser um artista
Então ele foi até a cozinha
Pegou uma faca e voltou ao quarto
Olhou Isabel, nua como sempre
E desferiu-lhe um golpe na barriga
Seus olhos se abriram espantados
Ela o olhou com dor
Ele desferiu um novo golpe, no peito
E mais outro e outro
Ela não gritava
Nem dor sentia
Por fim fechou os olhos
Assim como os tinha aberto
Estava morta
O sangue se espalhava sobre a cama
Como a água de um rio
O pintor se levantou
Buscou uma de suas telas
Cortou um chumaço do cabelo se Isabel
Embebeu no sangue
E depositou sobre a tela
Contornou seu rosto
Seu peito e suas coxas
Criou os detalhes
Sua boca sorria
E seus olhos brilhavam
Dado terminado o trabalho
Limpou suas mãos e deitou-se ao lado de Isabel
Olhou-a, segurou sua mão e beijou sua boca
Ela estava gelada
Assim como sua inspiração
Tomou um longo gole de vinho
A chuva havia parado
A noite caído
O sangue secado
E o tempo passado
Pegou novamente a faca
Olhou seus pulsos
Deslizou a lâmina sobre sua pele
E o liquido vermelho jorrou
Seu coração se acelerou
Deitou-se ao lado da meretriz
Olhou-a uma última vez
Segurou novamente sua mão
Fechou os olhos
E não foi mais trabalhar.
Um romance digno de poesia...
Extremamente criativa essa sua narrativa, Ana, uma história empolgante que a gente não consegue largar por nada desse mundo, um final dramático, uma perfeita condução, abordagens precisas, colocações perfeitas, um perfil psicológico muito bem bolado, pequenos detalhes que fazem a diferença !
Um excelente conto !
Um beijo, Alcanu !
Um conto, um romance, uma poesia azul e rosa. Linda, indefectível,saborosa e terna. Parabéns.
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