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O Plágio Nosso de Cada Dia

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
22/8/2008 · 82 · 16
 

Quem de nós haverá que não tenha tido uma idéia brilhante e tempos depois descobre que alguém se aproveitou de algo muito parecido e utilizou como sendo dele? O nosso Santos Dumont que o diga. Não registrou? Dançou.

Eu mesmo corro o risco de ser desmascarado, mais dia menos dia. Ando cometendo alguns haicais, que, como sabeis, são manifestações poéticas brevíssimas, coisa de meia página e três ou quatro linhas. Lendo as que escrevi, fico em dúvida se sou mesmo o autor de todas elas ou se estou a me apropriar de coisas do Bashô, o grande poeta japonês do século XVII, mestre de nós todos na área, inclusive do nosso Millôr Fernandes, que publicou um enorme rol deles, devidamente abrasileirados. Nada como lembrar o mestre japonês neste ano centenário.

O João Cabral de Mello Neto leu tanta poesia na vida que, quando a inspiração lhe trazia um poema prontinho, ele o escrevia, como o fazemos todos nós, e depois o modificava inteiramente, com medo de que essa inspiração fosse apenas a lembrança de trabalho alheio cujo autor não lhe ocorria no momento. Com tanto escrúpulo, só poderia ter aquelas dores de cabeça diárias que quase enlouqueciam nosso embaixador poeta.

Sabe o que é plágio? Os romanos usavam a palavra para indicar a reprovabilidade do ato de quem se apropriasse de escravo alheio. Mais ou menos como a dona de casa que oferece salário maior para a empregada da vizinha. Quer ter meu escravo? Pois então me pague. Na linguagem de hoje esse valor se chama royalty.

A excelente revista piauí, escrito assim mesmo com modestas letras miúdas, trouxe certa vez o relato de uma “fazedora de trabalhos acadêmicos”. Inicialmente, ela fazia TCCs. Não é do seu tempo? Eu explico: Tese de Conclusão de Curso Universitário. Ou seja, o aluno é obrigado a fazer pesquisa e depois escrever um trabalho, que não será lido por ninguém e depois levado para uma sala onde, naturalmente, será posto sobre uns tantos outros, à disposição dos ratos. Acontece que aquela senhora fazia trabalhos jurídicos e psicológicos tão sérios que acabou sendo procurada para fazer trabalho de alunos de pós-graduação.

“Sou como uma cozinheira: eu faço bolo sob encomenda. O que a pessoa que me contrata vai fazer com o bolo não é problema meu” diz ela, sem a mais mínima razão, como diria ela em algum trabalho sobre a língua portuguesa. O fato é que a tal senhora tanto se aperfeiçoou no seu ofício e no tal trabalho, que este foi ficando tão bom, mas tão bom, que os dois “orientadores” de um de seus clientes não tiveram dúvida em fazer com este um acordo: eles passam a ser considerados os autores da tese e dariam ao seu orientando (!) uma compensação qualquer. “O aluno ganharia a aprovação, mas os orientadores (!!) queri-am que o trabalho virasse a tese de doutorado da dupla”. Nome da universidade: USP. Só não sei se o tal trabalho é a respeito de deontologia acadêmica.

Gente, que se passa? Longe de mim aceitar desde logo a acusação e já aplicar ao denunciado o merecido opróbrio, palavra que nem sei o que significa, pois acabo de pegá-la de um texto erudito que estou lendo nas minhas horas vagas. É claro que o plágio é reprovável, pois implica a apropriação de trabalho intelectual alheio, o que é feito não só pela glória da autoria como pelos proveitos econômicos que isso lhe proporcionará ao plagiante. Nome disso: royalty.

Reconheço que nem sempre é fácil punir um plagiador, menos pelo cargo que ocupa e mais porque certas idéias são como passarinhos: ficam voando aqui e ali; quem pegar é dele.

O Paulo Vanzolini, homem inteligente e sensato, afirmou que entre Zeca Pagodinho e Caetano Veloso prefere a obra do primeiro, pois o compositor baiano é mero fruto de marketing. Seria isso uma insensatez do renomado cientista de São Paulo, não soubéssemos que ele não perdoa o Caê por haver “plagiado” (é o Vanzolini quem o diz) sua música Ronda, criando sobre ela o consagrado hino da cidade de São Paulo, ao falar do que ocorre no cruzamento da avenida Ipiranga com a São João, em seu belíssimo Sampa. E o Pagodinho, para quem não sabe, é aquela figura ética que recebeu um bom dinheiro para elogiar certa marca de cerveja e, pouco tempo depois, recebeu mais dinheiro para falar mal da mesma marca de cerveja. “Faça como eu: mude!” dizia ele no segundo comercial, convidando-nos a seguir seu exemplo deontológico. E sermos tão processados criminalmente quanto ele?

Em relação ao Villa Lobos e ao Tom Jobim também já houve quem apontasse estranhas coincidências entre músicas de autoria deles e outras, muito anteriores a seus nascimentos. Ora, é sabido que tanto um quanto o outro não escondiam que se baseavam em obras anteriores, dando a elas roupagens mais modernas. Ninguém em sã consciência acusaria Villa Lobos de haver plagiado as cantigas de roda, que aparecem em sua obra e, a partir dela, correram o mundo.

Por outro lado, o Samba de Uma Nota Só, do Tom, nos lembra a introdução do Night and Day, mas, e daí?

Ocorre que o nosso Tom pretendia, segundo declarou mais de uma vez, mostrar que as pessoas ditas comuns gostam de música clássica. E, para provar isso, ele as fantasiava de bossa-nova. Para comprovar, ouça o Prelúdio nº 4 de Chopin e, depois, Insensatez, do Jobim, e veja do que estou falando.

Só na mísica e na literatura isso ocorre?

Dentre os milhares de quadros que deixou Pablo Picasso, encontraremos claras referências a obras de artistas anteriores, numa espécie de intervenção sobre a obra alheia, uma releitura do mesmo tema. Compare seu Las Meninas, que é de 1957, com o quadro homônimo de Velázquez, que é de 1656, e verá que lá estão os mesmos elementos.

E não houve que descobrisse que o tango Por una Cabeza, composição de Carlos Gardel e letra de Alfredo Lepera, tem o DNA do nada argentino Wolfgang Amadeus Mozart?

E se você se escandalizou com minha Mona Lisa bochechuda aí de cima é porque não conhece aquela que foi feita por um artista francês que, por sinal, está com uma exposição no MAM, aqui em São Paulo. Ele sapecou duas pinceladas na obra do Leonardo e lhe deu o pomposo nome de L.H.O.O.Q., um espetacular trocadilho, pois isso, pronunciado em francês, tem um som que diz mais ou menos o seguinte: "Ela tem fogo no rabo".

Depois dessas vou publicar meus haicais sem o menor escrúpulo.

Sobre a obra

Quem escreve ou compõe tem um tormento permanente: o nosso grilo falante interior. Acabamos de redigir um ótimo texto e o grilo nos indaga: "Tem certeza de que isso foi feito por você?" Eu cantarolo para minha mulher uma bela melodia que me acaba de ocorrer e ela: "Isso é coisa do Chico, né não?" Pois eu continuo achando que o compositor daquela música sou eu. E também há pessoas que não estão nem aí.

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Circus do Suannes
 

Circus do Suannes · São Paulo, SP 20/8/2008 07:20
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EdimoGinot
 

Muito bom o artigo.
Nada se cria...
Um abraço

EdimoGinot · Curitiba, PR 20/8/2008 09:48
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delen
 

Parabéns pelo trabalho , termino minha manhã de leitura com um excelente texto , deixo aqui meu carinho e admiração. Abraço...

delen · Cotia, SP 20/8/2008 13:25
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EdimoGinot
 

EdimoGinot · Curitiba, PR 22/8/2008 08:45
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Marcelo Marcio
 

Eu já fui plagiado.
É uma sensação estranha.
Mas certamente não é boa.

Marcelo Marcio · Cascavel, PR 22/8/2008 08:50
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celina vasques
 

Eu acho o seguinte: as palavras são sempre as mesmas, então existem os plagios de palavras...os sentimentos é que são diferentes e a maneira de expo-los também...
Meus votos e meu carinho!
beijos

celina vasques · Manaus, AM 22/8/2008 08:52
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Langinha
 

Ad: Gostei muito Acho que as idéias e as coisas originais vão se esgotando, com o passar do tempo... E. se ficou lá no fundo da memória o que já foi idèia do outro, que fazer ? Aproveitar o momento e a inspiração e seguir em frente. Outro,mais adiante nos plagiará, também, com certeza... bjs Langinha.

Langinha · São Paulo, SP 22/8/2008 09:24
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Renato de Mattos Motta
 

Realmente, Adauto!

A diferença é que , ao plágio assumido chamamos "citação" - que sempre é, no mínimo, um pouco mais honesta, e que eu mesmo costumo usar bastante. Em arte, a citação é uma forma de homenagear, comentar, criticar o trabalho de outro artista ou simplesmente um instrumento para, através de uma forma conhecida comentar um fato novo.

Acho que a porca começa a torcer o rabo quando entra pro ramo da ciência e começa a se tornar "fórmula" para os famigerados TCCs. Em tese é coisa muito boa: para que alguém possa se intitular um bacharel, de certa forma um "cientista", precisa ter contribuído para a ciência com uma tese inédita. Na prática, isto é bem difícil e, portanto, acaba não sendo exatamente isto. O aluno acaba por eleger um assunto marginal, que não tenha sido explicitamente tocado por muita gente, mas que transparece nas obras de quase todos os autores (algo como, por exemplo "a predominância de linhas retas na Arquitetura do Século XX e a ocorrência de curvas") O aluno escreve um texto curto em duas vias, uma intitula "Introdução" a outra "Conclusão" e, entre elas coloca entre 20 e 100 páginas de citações. Tudo digitado nas normas da ABNT, defendida em frente a uma banca, a tal tese irá mofar nas prateleiras das bibliotecas e teremos um novo bacharel no mercado de trabalho.

Nem a "tese" é mais do que uma formalidade a ser cumprida, algo que não tem importância real, nem o bacharel é um cientista já preparado para o mercado de trabalho. Muitas vezes acontece de - por recomendação dos próprios mestres - o bacharelando fazer um TCC aquém do que poderia deixando para usar o trabalho com toda a sua capacidade, aí obviamente mais aprofundado, durante o mestrado (claro, se ele não resolver que a mesma tese pode ser ainda mais melhorada em seu doutorado).

A verdade é que, do jeito que estão as coisas atualmente - claro que sempre existem maravilhosas excessões - fazer uma tese realmente não é tão diferente de seguir uma receita de bolo... e ser um cientista talvez acabe por não ser muito diferente de ser uma quituteira.

Grande abraço!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 22/8/2008 10:03
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Eldo Meira
 

Nesse mundo nada se cria, tudo se transforma. Epa! Será que alguém já falou isso? Brilhante como sempre mestre. Parabéns.

Eldo Meira · Carazinho, RS 22/8/2008 11:58
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto,
Parabéns pelo texto
usar idéias de outro e tranformar é uma coisa construtiva,
mas o plágio em si devia ser crime.
Eu já fui plagiada e sei do aborrecimento de ver uma poesia minha
ser editada como de outro e ainda faturar em cima dela.
Ainda bem que o poema já estava lançado em livro e eu pude provar.
Quanto as teses, até no jornal já estão comercializando monografias e teses abertamente. Um absurdo tão grande que breve não saberemos nas mãos de quem estamos.
O jeitinho brasileiro a prosperar.

Inda bem que vc se atem aos haicais, se mudar uma palavra já se salva.
bjsssssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/8/2008 14:33
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Circus do Suannes
 

Há ainda a questão da paródia. Alguém trabalha sobre trabalho alheio sem autorização. Pode? Há paródias excelentes, como esta a que se refere o tag. Vale a pena ver.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 22/8/2008 16:59
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M H Rolim
 

Concordo com tudo o que foi dito e acrescento uma receita de bacalhoada.

M H Rolim · São Paulo, SP 22/8/2008 17:11
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

maravilha de texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 22/8/2008 17:14
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celina vasques
 

celina vasques · Manaus, AM 22/8/2008 19:00
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto
Vi a paródia
Excelente mesmo!
Yakisoba! De quem será que afanaram a receita?
bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/8/2008 23:44
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Lila Su
 

Quando pela primeira vez adentrei a antiga Casa de Detenção, pensei em escrever um livro chamado DO OUTRO LADO DO MURO. Não escrevi. O tema foi explorado no livro Carandirú e o titulo foi usado por um artista da Globo, cujo nome não me ocorre. Ou seja, plagiaram a minha idéia e o meu título, sem saberem de minhas intenções.....Coisas da vida. Lila Su ou Lilinha.Parabéns, bro.

Lila Su · São Paulo, SP 24/8/2008 23:13
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