O POEMA ÓRFÃO
O poema escorrega
Da ponta do lápis,
Salta ágil ao chão,
Em meu rumo dá um passo
E fere-me num soco
Com a mão.
Mão que o criara para os abraços.
Que mal-agradecidos
Os filhos são!
Critica-me os erros
De português,
A pieguice
E outros defeitos
Com que lhe fiz.
Caminha para a rua,
Mas antes me diz
E logo depois se vai:
Prefiro ser órfão
A te ter como meu pai!
Um adendo,
SÚPLICA A MEU POEMA
Esse poema surgiu enquanto viajava pela internet em busca de portais de literatura. Saí em um cujo nome era "Na ponta do lápis". Quando li o nome, imediatamente o poema surgiu em minha cabeça. Rápido digitei-o, e ele, rebelde, fez o que fez. Sei que nasceu prematuro - o coitado -, mas mesmo teratogênico um pai não deve segregar amor ao filho. E isso nunca fiz, deixo claro a todos que me possam estar culpando. Apesar das deformações (como ele disse-me à cara, culpando-me, para mim são apenas diferenças!), quero-o de volta. Sou seu pai e sei que nenhum outro autor vai entendê-lo e, por conseguinte, adotá-lo. Hoje estou a sua procura, tentando que se converta, que volte a casa, que seja um filho pródigo. Não tenho notícias dele, se alguém souber de seu paradeiro, por favor (isso é súplica de pai!) envie-me um email que agradeço bastante. Houve um amigo, na melhor das boas intenções, que sugeriu ir a um programa de tv, desses que expõem foto e tudo, fazer um apelo e quem sabe algum vizinho possa alertá-lo sobre o pai em desespero. Mas esses programas são sempre sensacionalistas, abusam de nossa miséria em busca de audiência e das lágrimas alheias. Tenho medo que agindo assim, o feitiço vire contra o feiticeiro e ele me odeie mais ainda. Mas me valho da internet, sem mais exposição que a minha e de meu sofrimento - o que não fazemos pelos filhos, ainda que mal agradecidos, como se vê -, na tentativa de que reconsidere a sua rebeldia.
O meu medo é que se meta em más companhias e se perca. Já ouvi falar de tantos poemas que são um terror, alguns assassinos, outros ladrões, outros tantos drogados e traficantes. O meu medo é esse: que se meta com essa gente, imaginando sua companhia como válvula de escape, mas na realidade estará cavando a sua sepultura. Quanta insônia com esses tormentos. Quando retornar, se retornar, direi que até meu apetite sexual embotou, não levanto mais o lápis para escrever uma vírgula, tudo é ponto final. Depois que ele se foi, nenhum outro nasceu!
Até quando minha vida será uma página em branco?
(enxugo as lágrimas)
Mas tenho um alento se não tiver se metido numa enrascada, vitimado por uma bala perdida comprando droga em favelas (por que só pensamos o pior, sempre?), se o metrô de São Paulo não o tiver tragado naquele fatídico buraco, se não tiver entrado para a política(meu Deus, isso não!), se não tiver querido fugir para Campinas para jogar no Guarani(seria descer ao terceiro inferno - a terceira divisão), se não tiver acertado os números da mega-sena, casado com uma baranga - dessas que nos arrancam os olhos e as unhas - e ela o tiver assassinado com a ajuda dos amantes, alguém avise-o que estou muito doente e tenho que cuidar da herança.
Ele vai entender, eu sei, vai se deslumbrar com um mundo sedutor. Uma biblioteca com mais ou menos uns vinte mil volumes. Livros com capa dura e letras de ouro, quanto ouro(isso atiça o seu amor, tenho certeza!), muitos maravilhosamente encadernados. E os contos e as poesias? Humm! Sei que na vida que leva, com certeza de desregramentos, já deve conhecer o excitante mundo do sexo. Filho, chega cá, ouve isso: são tantos contos e poesias com mulheres maravilhosas, mundos fantásticos. Tudo para você. Volta, papai te ama! Vais herdar tudo isso para a esbórnia.
Do pai que nunca te esquece,
O autor
E que siga leve seu caminho... Para na poesia evoluir para além dos tapumes...
Agradecido, Poeta!
José
Gostaria, humildemente, de sugerir uma música de fundo para teu poema. Uma que postei no Overmundo chamada "Filhos".
http://www.overmundo.com.br/banco/filhos-e-uma-saudade-danada-de-gabriel
Maravilhosa inspiração, sentimentos tão profundos, tão exatos...
não sei se fiquei com mais pena do pai ou do poema órfão, esquecido
e que cedeu seu lugar a irmã mais nova: a crônica, nasceu prematura mas é bela como só o pai poderia concebê-la.
parabéns!!viva a criatividade!!
abs.
Obrigado, José pelas suas sempre afirmativas palavras. É muito bom ter amigos ao lado.
........
Rangel, já baixei seu arquivo, amanhã vou colocá-la. Achei interessante sua sugestão, e claro será um prazer ter a companhia de um grande pantaneiro. E que viva Anastácio e o seu pantaneiro/poeta/músico.
.....
Marcos, obrigado. Realmente nasceu o poema e depois sua irmã, a crônica. Quando postei o poema a crônica ainda não existia. Surgiu quando fui colocar o poema no blog http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/ e fui digitando umas palavras explicativas, fui aumentando e depois pensei, pô! isso pode virar uma crônica, e virou.
abração aos três
Enquanto existir uma pessoa ( mesmo que seja somente uma mesmo) no mundo que goste de poesia, nenhum poema será órfão.
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 6/2/2007 22:49
Com certeza, Tacilda! Serão órfãos apenas poeticamente falando você tem razão. Aqui mesmo temos o maior exemplo de quanta gente ama a poesia.
abcs
Quem faz um filho assim, pode se dar por feliz
por ter gerado a indisivel beleza, só possivel de ser fecundada
na alma de um anjo, como você.
Quem sabe se teu filho não vai por ai, alegrar novas vidas, enfronhar em corações carentes, inocular o amor em tantas pessoas necessitadas.
A semente tem que se perder na terra,para que dela nasça uma nova planta. Talvês a árvore dos seus, meus, nossos sonhos.
Embora eu entenda a dor de um pai, entendo também, que a cria
pertence ao mundo e tem vida própria.
É o que esperamos Firmiano que o filho/poema alegre as tantas almas desse mundão. É que vc sabe que, quando filho está longe, pai só pensa o pior ainda mais sendo ele um rebelde. Obrigado pelas palavras amigas me lançando às alturas como um anjo, embalado por asas celestiais, eu que nem cheguei a ser Ícaro - talvez pela covardia ou pela falta de cera. Você, sim, é um querubim. Verdadeiro mensageiro das palavras desse povo sofrido que habita sua poesia de cunho forte.
abcs
É, Leandro, a vida tem disso... As criaturas desgarram-se dos criadores. Belo e sensível poema, e interessantíssima a crônica do poema perdido... Largado, correndo mundo... Parabéns!
Cida Almeida · Goiânia, GO 8/2/2007 13:43
Obrigado, Cida pelas suas palavras. Vindo de qum entende do riscado, isso é maravilhoso.
abcs
Ele acabará por encontrar o seu caminho, como fizeste no texto que se segue. Embora ainda melancólco, gostei muito.
Camafunga · Pelotas, RS 9/2/2007 21:04
Camafunga,
um prazer te ver por aqui. Obrigado pelas tuas palavras.
Abcs
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!