Eu só tinha quatro anos e era uma estreante no mundo das letras, acabara de aprender a ler e sentia o maior prazer do mundo em ser uma mini-leitora. Prazer de prazer mesmo e também de pura vaidade cruel de criança, já que eu era a única na minha turma de anões de jardim de infância que sabia desvendar os códigos incompreensÃveis por trás daquelas letras todas.
“Leitora de bolsoâ€, dizia meu pai. E eu ria e viajava na metáfora dele, achando-o meio burrinho por acreditar que eu caberia dentro das calças, como um livreto.
Um dia meu pai chegou do trabalho com um livro pra mim. Eu nunca tinha lido nada que não fosse uns tais de Irmãos Não Sei das Quantas, onde princesas fúteis (claro que eu ainda não sabia disso) terminavam sempre em finais felizes, e os meus preciosos gibis. Monteiro Lobato eu não gostei logo de cara, nem no livro e nem na tevê, e até hoje não sei por que aquela massa de bolo chama Dona Benta em vez de Tia Nastácia. Gostoso mesmo era rir com aquelas porradas que a Mônica dava no Cebolinha... Bem, meu pai chegou do trabalho com um livro pra mim.
- Lis o quê, paiê?
- Lispéquitor, minha princesinha.
- Mas isso é nome de gente, paiê?
Ele riu.
(Só depois de muitos anos eu percebi que a pergunta era perfeitamente cabÃvel, pois realmente não era nome de gente. Era sobrenome de deusa)
Mas que tipo de cara dá Uma Aprendizagem Ou O Livro Dos Prazeres para uma criança de quatro anos que acaba de aprender a ler?
O livro ficou guardado durante anos, já que brincar de pega, de esconde e arrebentar os membros superiores e inferiores de vez em quando era bem mais divertido. Clarice eu só entenderia – eu só falo “entender†porque, por mais que eu pense, não consigo encontrar a palavra certa – eu só entenderia aos quinze anos.
Que tipo de cara daria a uma criança de quatro anos um exemplar de beleza tão rara e tão docemente epifânico?
Tipo nenhum, só meu pai mesmo. Com esse gesto, ele transformou minha vida.
Pois é, paiê, tua princesa saiu do casulo.
E criou asas.
Pois é... Meu pai querido, hoje no céu, me deu esse lindo presente assim que aprendi a ler... E mudou muitas coisas dentro de mim...
Te amo, paiê.
Ahhhhh ele ja sabia da sua cria linda, do seu talento especial...
dai o belo presente... a te ajudar sair do casulo e criar asas...
Acredito que do ceu ele sorri pra sua menina precoce.
Entã, peço-te licença... como leitora amiga e fã sua,
pra dizer ao seu pai:-
-Obrigadaaaaaaaaaaa por Aube exixtir e ser encantadora.
bjsssssssss;)
O livro ficou guardado durante anos, já que brincar de pega, de esconde e arrebentar os membros superiores e inferiores de vez em quando era bem mais divertido. Clarice[...] – eu só entenderia aos quinze anos.
Aube, querida: não é à toa que um livro chega em nossas mãos, ainda que não tenhamos o entendimento necessári em determinado momento. Acho que seu querido pai já intuia a alma da palavra em você. Tanto assim, que aos quinze anos você se deu conta do que significa ser uma leitora de Clarice. Parabens.Grauninha
Aube:
Tenho duas filhas
( nãotenho filho homem)
Mas agi da mesma forma com elas
As duas cresceram com preferências próprias
Adotaram estilos próprios
Amam a leitura e fazem curso de redação
É um caminho ...
beijo
Aube, tive imenso prazer em ler sua rememoração. Um grande gênero este, asmemórias. E você narra com uma leveza encantadora. Beijo, querida.
Brida · Salvador, BA 5/4/2009 10:51
Aube · Salvador (BA)
O Presente
Um texto maravilhoso, que até revela a sua precocidade na sua bela História de Vida.
´Temos de ter sonhos sempre e vivera época em cada época,
A Vida parra rãpido mas, temos sempre de caprichar parasermos capaz de voar. Não podemos nos contentar enquanto temos chances de insurgir e Claerice e essa luz pra voar às imensid]ões.
Parabéns
Antação Amigo
Texto invejável, menina!
Aqui em casa torcemos pra que nossa filha de nove anos,
aos quinze possa vislumbrar o próprio nome - Capitú -
como um Presente semelhante.
Parabéns por tão deliciosas reminiscências.
Aube,
lindo texto
Um livro é magico em qualquer idade, ainda bem que seu pai teve
a ousadia de lhe dar um exemplar que valeu ouro.
bjs
Aube, eu me identifiquei tanto com várias coisas que voce falou, como voce, com 4 eu já era uma pequena leitora,e adorei o seu texto, sua admiração tão precoce por Lispector e sobretudo o carinho com o paiê, seu incentivador especial, que é estrelinha lá no céu! Parabéns! beijos poéticos e volto depois...
nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2009 19:06Querida, que bonita história. A sensibilidade de seu pai e a forma que ele te convidou para o mundo da leitura e do conhecimento. Às vezes subestimamos a capacidade de nosso pais de ver além do que se mostra no momento. Ele foi além, ele viu o que viria por aà e que aquele livro representaria a formação de uma grande escritora como vc. Parabéns tanto pela criação dele e pelo que o presente lhe revelou. Bjs, Dani.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2009 19:15BelÃssimo! Nasceu pronta. E esse paiê não nega a raça, paulistana! :) Bjs.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 5/4/2009 19:45
Amigos queridos!
Obrigada pela visita e palavras de cada um de vocês.
Hoje, adulta, vejo o quanto meu pai foi importante para a minha escrita. E vocês todos também o são!
Beijos carinhosÃssimos, Claudita, Grauninha, Ivan, Brida, Azuir, Franco, Doroni, Nina, Dani e Jus!
Lendo sua história , lembrei do meu pai , ele foi o principal motivo para eu seguir nesse mundo de versos, mesmo sem ele aqui do meu lado, sinto sua presença em todos os momentos que rabisco em cadernos minhas simples palavras . Beijãoooo
delen · Cotia, SP 6/4/2009 11:30
Não tenho certeza ser de Clarice Lispector a frase: -"Eu sou o meu perfume"
sei la... essa sua historia traz o cheiro de uma infancia feliz...
lavanda ? confort? pompom ?
... carinho de barba de pai.
ahhhhh divaguei !
bjssssss;)
Delen, Claudita, Franco...
Obrigada pela volta!
Lavanda você acertou, Claudita, que é meu cheiro favorito...
Essa frase eu não conheço, mas é muito a cara da Clarice.
Obrigada, amigos!
Beijos!
Clarice, a Machado de saia (aquele tipo de pregas brancas das belas perna-nambucanas), diz o indizÃvel sem nenhum constrangimento.
Bj
E dizia mesmo quando nada dizia.
Obrigada, Jus querido!
É um prazer te ter aqui...
Beijos
Meu paiê venceu!
Muito obrigada Ivan e Cau pela presença e pelo carinho!
Beijos!
Aube, linda história e ainda por cima verÃdica. Teu pai já te apresentou a melhor escritora brasileira, ele é o cara. Fiquei muito feliz pela história poética. Abreijos!!!!
Dayvson Fabiano "ImorrÃvel" · Recife, PE 8/4/2009 11:13
Davy, querido!
Clarice é minha musa...
Meu pai deve estar feliz com o elogio...
Obrigada!
Beijos
Aube,
Que beleza de texto poético ! O presente de seu pai mudou a sua vida e as nossas, seus leitores, por fazer desabrochar toda a sensibilidade Ãmpar de seus escritos... Você saiu do casulo e levou a todos nós num voo sem fim, pelo mundo mágico das suas letras, "aubianas"...
Parabéns ! Deixo o meu voto com louvor...
Bjão
AUBE...
Viajei... viajei e chorei de felicidade, fui "criança como você e o que vc vai ser qdo vc crescer"... Eu adorei Salteropolitana de meu passado!
bjs
Que linda prosa poética,Aube..delicada e profunda!!!
Como seu pai foi intuitivo...sabia a filhota que tinha...e já foi aproveitando o tempo,não desperdiçou nadinha...antes cedo, do que tarde...rsrssss
Lindo demias,adorei!!!
Parabéns minha querida amiga linda!!!!!!
blue beijokitas,amoreco...
Blue
Bela história, é tão importante inculcar na mente do futuro da humanidade a necessisade da leitura e por que não dizer, do intelecto? Pois é isso que a boa leitura nos torna. Ah! se todo fizessem isso!!!
Beijão
Delen, Gus, Marcelo, Marques, Bleuezita, Naggai
Obrigada de todo o coração pela visita de cada um de vocês!
Mil beijos e luz!
O momento mágico em que o livro entra na vida de alguém e muda sua rota! Gostei...
Se-Gyn · Goiânia, GO 30/4/2009 19:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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