João Everton da Cruz
“Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”. (M.C., v. 1, p. 34).
Diante de sua própria expressão acima mencionada e através dos seus livros, vimo-lo se mexer.
“Memórias do Cárcere” escrito dez anos depois da prisão. Através da leitura da obra de Graciliano Ramos podemos trazer à luz o problema da liberdade, uma vez que essa é o alicerce para a existência do sujeito ético, responsável pelo seu existir no mundo.
A literatura tem sido um espaço muito rico neste tipo de problematização do processo de produção de existência humana. São muitos e variados os problemas com os quais nos defrontamos diariamente na prática literária.
No território filosófico, o indivíduo tem a possibilidade de assumir-se perante a grave responsabilidade do seu próprio destino. Nessa direção, ser um sujeito livre implica possuir uma consciência ética e por outro lado, problematizar os valores pelos quais se orienta e conduz a sua vida.
Pela leitura de Marilena Chauí (1995): “A liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário”. A partir do entendimento de Chauí, a liberdade é composta de três momentos:
1) reconhece a contradição entre o ideal e a realidade;
2) busca a possibilidade objetiva de concretizar o que se põe como ideal;
3) decide agir e escolhe os meios para a ação.
A liberdade é possível mediante ao nosso agir. Para Albert Camus (1913-1960), em O Mito de Sísifo, conclui que “o homem só é verdadeiramente livre quando toma consciência de seus limites”.
Podemos identificar os figurantes das histórias de Graciliano face à liberdade. A obra suscita quanto ao problema “da liberdade humana face aos determinismos da natureza, das relações sociais, das relações de poder e das relações de produção”.
Como para Chauí, 1996, em Graciliano Ramos e em Camus também detectamos a liberdade associada a valores que são criados a partir do próprio homem, sem imposições externas. Se, como pensa Camus, no fundo do conflito entre o eu e o mundo está à consciência “ou nós não somos livres e Deus todo poderoso é responsável pelo mal, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo poderoso”.
Assim, para Graciliano Ramos, a liberdade só tem fundamento enquanto criação do ser humano. Portanto, não é lícito afirmar que tudo é permitido. Pois, “... as derrotas de um homem não julgam as circunstâncias...”
Em “Memórias do Cárcere”, ante a cruel realidade que se avizinha, alguns presos buscam consolar-se em falsas esperanças de atenuar o real. O Velho Eusébio, por exemplo, numa “covardia obtusa” procura se consolar com falsas esperanças, remetendo-se sempre para uma salvação que viria de fora e sustentando-se, ora nas citações do velho Testamento, ora na suposta influência de sua família, e até mesmo na própria figura de Graciliano Ramos, a quem julgava pessoa de consideração. “(...) Arregalava os olhos, querendo enxergar em mim qualquer coisa além das aparências, elevar-me e salvar-me”.(M.C., v.3, p.7).
Uma atenta leitura pelos quatro volumes de “Memórias do Cárcere”, torna-se satisfatória para corroborar o quanto é importante à liberdade para esse escritor. O autor faz uma crítica contundente a toda forma de cerceamento ao desenvolvimento da potencialidade humana.
Dessa forma, o ser humano se torna propriamente humano pelo alargamento de sua consciência, construindo-se como um sujeito que conhece o que realiza e responde pelo seu agir.
Disso também resulta que o ser humano se constrói pela linguagem à medida que consegue dar nome às coisas, por ter consciência do que existe ao seu redor e por ter consciência do valor e do significado das coisas de sua vida.
Essa leitura sobre o problema da liberdade em Graciliano Ramos nos permitiu fazer uma aproximação ao Marxismo, e ao Existencialismo Camusiano, para quem tem o entendimento de que “o homem que conhece o absurdo, não mais o abandona” e “o conhecimento dos limites a que se está sujeito é condição para que o indivíduo se assuma e dê significação ao seu fazer”.
Nesse sentido, o homem se distancia dos outros animais por ser livre ou poder sê-lo. No entanto, a liberdade se constrói pelo alargamento da consciência que se apropria da realidade à medida que pode nomeá-la.
Sem direitos, o homem é transformado em simples peça de engrenagem. A prisão se transforma em um imenso mecanismo, um grande corpo do qual os presos são meras peças. Recorramos à obra:
“(...) dever ter feito esta pergunta, devo tê-la renovado. Impossível adivinhar a razão de sermos transformados em bonecos. Provavelmente não existia razão: éramos peças do mecanismo social – e nossos papéis exigiam alguns carimbos (...)”. (M.C., v. 3, p. 61).
Perde-se a individualidade, o nome é substituído por um número, ocorre a completa despersonalização: “Abriu-se a porta, avancei num instante, me vi mudado em partícula de massa heterogênea”.
O ser humano é produtor e produto da cultura. Essa compreensão deve trazer-lhe a força interna, a deliberação, a construção da vontade, como desejo orientado pelo conhecimento, pela razão, dando-lhe a condição de agir livre e responsavelmente, ainda que encarcerado nas celas do Estado, como esteve Graciliano Ramos.
Este modesto e sucinto artigo nasceu intitulado "O problema da liberdade em Graciliano Ramos", nasceu mediante a minha participação como bolsista CNPq, no Departamente de Filosofia e Teologia da PUC/Minas, sob a orientação do Professor João Pereira Pinto, desenvolvido de 1997 a 1998.
Apoio a discussão e o debate do tema, porque Graciliano trabalha com excelência temas universais que, infelizmente, não se resolvem no tempo. Suas obras são uma bússula para a conferência humana a respeito dos valores já tão esquecidos de nossa sociedade. repensemos o mundo com as lentes de suas palavras e,então, vejamos o que tem sido o nosso mundo na entrada deste novo milênio. Abraços
Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 29/3/2008 13:07
Valeu Bruno,
Você foi muito feliz na sua explanação acerca dos temas trabalhados pelo escritor. Graciliano se faz presente pela sua atualidade através das suas obras.
Um grande abraço fraternal,
João Everton
Agradeço aos que votaram para a publicação do artigo intitulado "O problema da liberdade em Graciliano Ramos". Agradeço também ao Overmundo pela sensibilidade desta e de outras publicações. Informo que o próximo artigo será sobre ética na obra de Graciliano Ramos.
Um grande abraço fraternal,
João Everton
Muito bom!!! votado com louvor...seu trabalho ficou maravilhoso...
Ricardo e Raphael · Campo Grande, MS 21/4/2008 10:25Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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