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O Processo

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... ... ... · Anápolis, GO
19/3/2007 · 77 · 4
 

Foi uma cena fria. O funcionário pediu licença e entrou cabisbaixo. O administrador nem levantou o olhar do computador e pediu para que ele se sentasse. Houve um hiato que definiu o grau de importância do funcionário. O funcionário tinha ansiedade em resolver o acontecido, esfregava as mãos com impaciência; de relance o administrador percebia estes detalhes. Este, ainda com a atenção presa no computador, interrompeu o hiato e, como se conversasse consigo mesmo numa tarde de domingo, falou sobre a dificuldade de se encontrar emprego nos dias atuais. Parecia que o veredicto seria negativo. A explicação ficou presa na garganta. Aquele que diante do computador controlava o leme da empresa era o sábio, e ele o “simples qualquer função irrelevante”, o tolo. Sentiu angústia e uma vontade de sair logo dali. Houve outra pausa. Quando terminou o que fazia no computador se virou para o funcionário e explicou qualquer coisa sobre a nova política da empresa em relação aos deslizes cometidos por aquele funcionário. O funcionário queria expressar alguma coisa mas não havia palavras para ele, todas pertenciam ao administrador, as mais bem expressas e por que não as mais belas, como se fosse frutos de uma virtude própria da grandeza dos mestres mais estudados, mais inteligentes. Por um momento esqueceu o problema e fixou atenção em cada palavra do algoz. Queria falar daquela maneira. Se expressar daquela maneira. Pensou no respeito que se alcança quando se expressa tão loquazmente. Respeito. Havia termos que o administrador utilizava apenas para inferiorizar o funcionário, pelo grau de dificuldade. E que, ao contrário, fazia o funcionário se maravilhar ainda mais, se arrebatando par uma ânsia nova, um lugar novo, uma nova direção. E nisso caiu num frenesi, livre da angustia, fascinado pelo jeito de dizer aquelas coisas, sem se importar com o significado daquelas palavras. Era a segunda vez que isso acontecia, mas agora era algo mais intenso. Andava confuso com um monte de coisas, estava perto dos trinta anos, andava meio à flor da pele com muitas situações, e talvez por isso cometera o deslize na fábrica, e tentava encontrar palavras para explicar. Nisso o administrador perguntou se ele entendia. Ele respondeu que não, mas que queria, desejava. O funcionário não entendeu muita coisa, todos eram meio tolos mesmo. Deu a sentença, o outro maquinalmente, ainda arrebatado se despediu e agradeceu, foi até o seu armário pegou alguma de suas coisas e com uma idéia desceu ao centro da cidade à pé.
Nem percebeu que havia assinado o documento de demissão e estava de frente a um grande prédio e tremeu. Entrou. Ficou perdido e com vergonha. Tinha que revelar a sua ignorância. Procurou a bibliotecária e disse tudo que tinha de revelar. Ela dissertou sobre a maravilha de vê-lo com interesse sobre a leitura a cultura e as palavras. A mulher, que mais sensível que o homem compreende certas coisas com mais rapidez, percebeu que o homem queria ir mais além do que ela discorrera.. Arrastou-o para uma mesa e deixou sobre esta um livro grande que narra a ventura de um cavaleiro errante e seu escudeiro. Trouxe ainda um dicionário e algumas folhas com canetas. Ela arrastou uma cadeira para perto daquele singular homem e ficou por toda a manhã a guiá-lo na sua leitura. Ao meio dia ela teve de sair. Ele ficou por toda a tarde, e leu com avidez. Tentando controlar a concentração e encantado com as palavras e a forma que elas estavam organizadas no texto. Ao fim do dia estava exausto, mas pela primeira vez em trinta anos, realmente satisfeito. Na leitura ele havia parado diante dos moinhos de vento e olhava para o cavaleiro errante como Sancho Pancho o olhava. Chegou a casa comeu alguma coisa e adormeceu, sem dizer sem dizer alguma coisa aos seus.

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reidamali
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Aguém aí pode me dizer se é possível publicar com mais de 3800 caracteres?

... ... ... · Anápolis, GO 16/3/2007 10:04
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Zito
 

É difícil. Muito bom teu texto, este fato narrado é mais comum do que as pessoas que vivem no mundinho das novelas das oito pensam.

Zito · Porto Alegre, RS 19/3/2007 19:22
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celia p
 

Puxa que solidão do seu personagem. Chega a incomodar. Bom argumento, boa redação e, como você escreve numa tacada só, quase não dá tempo de respirar.

celia p · Florianópolis, SC 23/3/2007 09:12
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... ... ...
 

eu sou meio inquieto e impaciente, minha mão não para de mexer nas coisas, quando começo a escrever vai assim... Pensei nesse argumento percebendo primeiro a arrogância do administrador, e ficctício, eu diria, é apenas o funcionário.
Obrigado pela sua atenção e pela análise, você entende da coisa...
ABÇ...

... ... ... · Anápolis, GO 23/3/2007 20:34
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