O que não envelhece

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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
8/3/2006 · 118 · 4
 

Eu estou velho. Minhas pernas doem, meus olhos embaçam, não consigo nem mais alcançar esse copo. Aquele homem grande que me cedeu o lugar também sabe disso; fez cara feia, não ligo mais. O lugar é meu por direito, eu estou velho. Meu neto não, meu neto é jovem – Deus sabe como eu queria estar em seu lugar! Olhe só ele, como se parece comigo. Até mesmo agora, quando não me pareço mais com ninguém além dos velhos, olhá-lo me faz lembrar do que eu fui. Eu era. Agora só sou um velho.

É meu coração, está batendo rápido, quero ir agora para casa, quero saber como ela está. Parem de me olhar como velho, sei o que sou e quero vê-la agora. Leve-me lá, qualquer um. Não quero ficar para o parabéns, o garoto vai entender, ele é igual a mim. Por favor, não me façam esperar, por esse instante não me façam de velho, é ela quem está na cama. Sou velho do espírito, sou velho da alma, minha idade já ultrapassou o pensamento, mas a velhice ainda está viva. Por Deus, eu preciso vê-la agora.

Parabéns meu neto, adeus minha filha, vou já e sozinho. A distância é longa demais. Para gente como eu qualquer caminho é longo demais, o tempo é demasiado escasso para se percorrer qualquer distância. Ainda mais quando tenho que subir essa ladeira, qual será a inclinação?

Fogo. Quero subir correndo, como o garoto fazia quando era pequeno. Eu já era velho e ele era pequeno. Lembro-me quando ele perguntou se os meus olhos também iriam enrugar. Disse a ele que olhos azuis não enrugavam. Segurava-o frente a um espelho. Fitei-os, acreditando que podia ser verdade, talvez meus olhos azuis nunca fossem envelhecer. Só queria poder subir essa ladeira rápido. Já.

Passo a passo, um pé arrastando o outro, que arrasta o corpo, que arrasta a mente, que arrasta a vontade, que me faz viver. Consegui. Venci. Não, a ajuda desse senhor não foi necessária. Solte o meu braço, obrigado, mas solte o meu braço. Não quero ninguém para me carregar. Do lugar de que saí agora, nenhuma alma foi capaz de entender a aflição da minha alma idosa. Obrigado desconhecido, mas só se fosse para me carregar e me deixar ao lado dela que aceitaria as suas mãos. Preciso ir, só uma reta meu amor, só falta uma reta.

Arrependo-me agora de não ter aceitado aquela bengala. Sou um velho teimoso demais para admitir a minha velhice aos outros. Não com tanta facilidade. Esconder os anos não me importa. Sou um velho digno, e idade não é problema. Ceda-me o lugar, é direito. O meu trono é na cadeira dos velhos. Mas não me dê mais coisas de velho do que o meu próprio corpo. Vejam-me como o velho que sou. A gente aprende com o tempo que não é a idade que importa – é o olhar. À bengala, nessa reta, abriria exceção.

Está chegando ao fim. Subi, andei reto e estou de pé. Tenho muito medo de cair não é de hoje. Ouvi desde cedo que a vida é assim, uma parábola. Sinto-me desequilibrando, mas ainda de pé. Na verdade, não tenho mais muita força. Aquela que me mantém na corda também não. Preciso encostar a porta devagar, andar devagar, entrar no quarto devagar, como um velho. Será que é essa a única vantagem de ser velho, a de ir morrendo com o silêncio? A luz. Quando sai, o quarto estava apagado, a menina que cuidava dela estava na sala. Não posso fazer barulho, preciso ir com calma, é comum ela pedir para ligar a luz, é comum ela pedir para ligar a luz, é comum ela pedir para ligar a luz. Devagar porta, pés; corpo, não me deixe cair.

Ambas dormem, a menina que cuida dos velhos na cadeira. Como está você amor? Não quero que deixe de dormir, mas por favor os olhos, abra os olhos como em um sonho, um delírio. Mostre-me os olhos mas não deixe o sono. Sonhe com o que quiser, mas dentro desse quarto, dentro daqui, não vá sem mim. Isso. Não me deixe só, sem os meus olhos azuis.

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informações

Autoria
Thiago Camelo.
Tenho alguns contos. Nunca os publiquei nem nada. Na verdade, pouca gente os leu. Esse aqui eu escrevi depois de sair de um aniversário de um amigo. O seu avô estava tão triste porque a mulher estava doente em casa. Ninguém queria levá-lo para casa para cuidar dela. Isso me agoniou profundamente. O conto é na verdade uma tentativa de entender o que se passava na cabeça dele, já que o senhor não falava nada, mas guardava um olhar muito triste.

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Hermano Vianna
 

oi Thiago - só pensando aqui para todo o resto: não seria bacana ter sempre, em cada conteúdo disponibilizado no Banco de Cultura, mais informações sobre o que é o texto, a música etc?

só um texto solto assim fica difícil de chamar a atenção...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2006 14:34
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Viktor Chagas
 

Muito bom! Seguindo a minha lógica das definições musicais, é uma reflexão linspector-joyciana... :) E aí, o que acha?

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2006 13:53
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Kaf
 

legal o modo como vc desenvolveu sua ideia a partir de uma observaçao. acho que é assim mesmo que se cria bons textos, a partir do cotidiano.

Kaf · São Paulo, SP 31/3/2006 15:14
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Fábio Fernandes
 

Thiago, descobri teu conto agora.
Coisa bonita, rapaz.
Parabéns.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/10/2006 17:06
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