O que realmente acontece com Zé Breu

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Sérgio Pessoa · Petrolina, PE
21/9/2009 · 3 · 1
 

Amostra do texto

Zé Breu estava trabalhando naquilo já faziam duas horas de serviço. No começo da tarde os meninos brincavam e Zé Breu naquilo, no seu período intermediário, Zé Breu colocava os pontos no lugar e somava, mordia os beiços e lembrava do último gosto de comida. De tudo calculado de medida a medida, usava o que lhe restava dos influentes anos na escola. O clarão do dia já se desconfiava de que ia partir, Zé Breu não descansava, astuto. Sonhava com os seus derradeiros filhos, acordado. Brincava com as moléstias de pensamento nobre, de um bom homem que vivia a trabalhar pela família. Calçar, alimentar e vestir os filhos era o mínimo que ele poderia fazer depois daquilo, depois daquilo sabe-se. As horas já eram calamitosas e o tempo de labuta não acabava. Eflúvios pensamentos que lavavam sua cabeça de vez ou outra, mas tudo passava. Piscava os olhos fortemente e voltava-os mais uma vez ao que fazia. Um, dois, três. Já eram duas páginas completadas com seus defectivos rabiscos de papai-noel, punha o lápis na boca, arquitetava um retrocesso no pensamento e disparava ao passado como se vai ao futuro hoje em dia. Alterava o movimento dos dedos. Coçava a meia nuca que lhe restara do último incidente pessoal. Não entendia como as voltas que a professora nefasta dava chegaria àquela situação de descrença matemática, na escola devia ser preparado para tudo, para a vida e quem não tem pai, que faz? Mãe, que faz? Perde-se? As dúvidas atravessavam o limiar da didática da língua portuguesa ou do conhecimento de raciocínio lógico pouco involuntário, tocara aos ferimentos da candura do rapaz franzido, sentado na última fileira à esquerda da janela sem sol.

Na salinha do colegial, Zé Breu aprendia lições sabidas de física e química sem nunca compreender as leis da termodinâmica, era um caos o que lhe passava em mente. O mundo se acabaria no ano seguinte, profetizaram-lhe. E ele aflito contava os maus caminhos para a vida futura de ardor num dos quatro cantos do planeta Brasil. Tolinho, tolão, Zé Breu é bobalhão! – a pirraça dos garotinhos de infância. Nada o que falava compreendiam. O nosso rapaz não ganhou esse apelido em vão foi nessa mesma tarde, da termodinâmica que ele ainda sentado às adjacências da janelinha estirou a mão aos céus e clamou pela atenção da Professorinha: quero falar, Professorinha. Tive uma idéia de poder topar. O alunado pareceu adivinhar a atitude do moço e desviou o olhar de forma sincronizada. A Professorinha riu pelos risos internos e escutou como todos: não quero mais entender isso. Quero saber por quê precisamos entender disso, meu pai uma vez me falou de Aristóteles, disse que ele era conhecido dentro dessa escola, que era bem falado aqui nos seus tempos, quem é? Professorinha, estatelada, soube responder com aptidão necessária: Aristóteles era um homem famoso e ficou famoso porque no seu tempo não tinha o que fazer e ficava pensando, hoje todo mundo tem o que fazer, por isso todo mundo tem inveja dele, pronto. A outra questão foi devolvida em respostas no decorrer da aula, Professorinha disse que agora os tempos eram outros, que os professores recebem um material programado por alguém para repassar tudo aos alunos num tempo certo e que essas coisas lhes serviriam no futuro, que tinha uma prova bastante difícil que se chamava vestibular e que um dia eles a fariam, por isso, Zé Breu devia sentar-se direito e olhar com atenção aos cálculos na lousa. Essa turma era de numerosos pupilos e viviam o primeiro dia de aula, portanto, surgiu aí o nome eterno de Zé Breu, nunca substituiriam por outro, seria crime às relíquias da infância imaculada. Nome justificado, pois o rapazinho sempre se sentava perto daquela janelinha nunca acesa pela luz do sol.

Zé Breu olhou uma folha cair pelo orifício da janelinha e ela foi levada ao sabor do vento, sem ritmo definido como o tempo que passou. Ele piscou novamente os olhos, acordando dos pensamentos, da Professorinha e dos primórdios do nome em que a vida lhe batizara. Alinhava os pensamentos, decompunha duas ou três frações sem conseguir continuar as faces do mínimo múltiplo comum que resultara num número complexo pertencente a uma função ímpar decrescente. Apesar das dificuldades teóricas Zé Breu não podia desistir, que soma seria essa, meu Deus? Que soma seria a soma dos meus cálculos? Num só expoente, o que resultaria? – eram as dúvidas impróprias repetidas desde aquela tarde com a turma e com Professorinha. Do lado de fora a vista já estava escura, a despedida do sol deixara o crepúsculo plúmbeo, mas esperançoso de tonalizar-se com cores de carmim, amarelo e laranja feliz. A imagem de treva fez Zé Breu apressar-se, era a comida, a roupa, o sapato, os livros, a casa, a cama e os cabelos da esposa que esperavam ávidos por aquele trabalho que levara uma tarde. Tudo em si, Zé Breu sentia. Aquele que segura o céu dos dias e das noites entregou sua incumbência hercúlea para o nosso Zé Breu que tinha pobres ombros de simples homem. Pressionado pelo tempo efêmero, revisou os rascunhos e por fim desistiu. Não esqueceu da formatura da filhinha no colégio, evento histórico, apoteose particular. Mas como suprir os custos da felicidade da filha se não realizara o labor até o fim? Seria possível? – tropeçava pelas pernas, não caía. Desligou o raciocínio matemático e como naquela tarde na escola foi em busca da saída, estava assaz atrasado.

Calçou os sapatos que havia tirado, encheu a vasilha d’água, pegou o presente recém-comprado para agradar a filha e na porta esqueceu-se das chaves. Retornou frustrado levantando os olhos. Passou a mão sobre a mesa esperando ouvir o titilar do molho mas nem sequer um ruído. Estranhou. Dobrou os joelhos, as cartilagens ainda ajudavam, e usou do tato para notar a presença das chaves no chão, sob a mesa. Não estava. Saltou num passo estúrdio em direção à janela fechada, abriu, mirou. Correu ao banheiro, analisou com perspicácia, conferiu as lixeiras, dentro dos sapatos já retirados, sobre a pia molhada, junto à poeira sobre o tapete, atrás das estantes, expulsou os papéis, os tijolos, as luvas, martelos, pás. Pensou ser impossível perder as chaves numa tarde tão quieta, numa só inércia. Percorreu a escuridão, atrás das portas, questionou às aranhas, camundongos, semi-objetos. Ofegante. Olhava o relógio, gestor do mundo, que avisava, impunha, ordenava, chefiava sem nunca ter vivido um terço de verdadeira vida, jamais entrou numa escola e ouviu coisas da Professorinha, tampouco tinha de alimentar e sustentar as exigências dos filhos e da mulher amada, relógio sem sangue, sem vida, sem ímpeto.

Zé Breu despencou, desistira pela segunda vez no dia, repassando os últimos e primeiros atos: a vida no interior do estado, os pais barulhentos, amadores e amantes, o guardavam como se guarda ouro. Nessa época Zé Breu tinha valor de jóia, reluzia. Os pais tinham prestígio, respeito, algumas riquezas e uma enorme afeição pelo único filho. Trabalhavam grandes horas por dia, por todo o fim de semana para proteger Zé Breu de uma possível pobreza. Esse tinha a atenção dos moradores da cidade, era convidado para se sentar nos jantares das melhores casas e ia acompanhado pelos pais, novinho, quietinho, de roupa passada e com bálsamo de alfazema, pezinhos miúdos de miúdos anos. Numa semana inexata, numa hora escura da noite os pais de Zé Breu morreram vítimas de um acidente de carro nas redondezas. Nesse dia, ele despencou como estava despencado agora, no frio do chão, as pontas dos pés viradas para dentro e uma margem de erro nas vistas.

Chorava lágrimas de criança, queria os pais pela última vez despedir-se, o abraço da mãe que era o que havia de melhor na vida, sempre seguido de um ósculo amoroso no rosto bochechudo; o ósculo do pai que sempre acabava num abraço mais forte do que o elo de qualquer corrente. Zé Breu pensava em como sua família foi desfeita por acaso, pela força mínima de um vento errado. Engajado no pensamento, em meio às lágrimas, refletia em como fragmentou também a sua nova família mudando-se para o este, a caminho do sol para seguir um trabalho de cálculos que por sua vez era incerto. A imagem do pequenino adeus da filhinha fez lembrar o adeus da mulher seguido de beijo. Zé Breu chorava filosofando, seguindo as proibidas linhas de Aristóteles. E as chaves, onde estariam as chaves? Será que já se importam mais, que vale a pena? – ninguém podia ouvi-lo, e se ouvissem ninguém o entenderia. Queria contar para alguém seus sentimentos, suas experiências, as contas do trabalho mal-resolvidas, a galinha que viu fugir do quintal do vizinho, mas não havia uma pobre alma sequer para ouvir suas palavrinhas de insignificância. Via a família anualmente, por motivo da formatura da filhinha, ia a casa duas vezes este ano. Foi parar naquele lugar com papel e caneta na mão, conhecimento no cérebro para fazer uma tal prova que nunca por lá ouvira falar. Acabou trabalhando na construção civil, crescente economia naquele lugar, era onde Zé Breu estava: nos seus aposentos de mestre-de-obras de um prédio mal-acabado.

Soluçando, mais uma vez criança-de-colo, confirmou a desistência levantando-se. Ia à mesa onde deixara os sapatos. Os pés estavam gelados, ia ficar por ali, esperar o dia chegar para que lhe abrissem a porta e fosse para casa. Tinha apenas uma janela oferecendo-lhe saída numa altura de vinte e nove metros. Ela tornava-se atraente ao homem que observava com vigilância, ele aproximou-se, pôs a cara para fora e viu o mundo naquela altura, o mundo que nunca vira na janelinha escura da escola, sempre mantida fechada por Professorinha para não distraí-los do conteúdo proposto. E as leis da termodinâmica, fariam sentido se as entendesse agora, sem futuro próximo? Quando seduzido pela brisa da liberdade, Zé Breu pisou em algo que lhe era pontiagudo: as chaves.

Não vibrou, abaixou-se oscilando, não como máquina, feito gente e agarrou-as com voracidade. Agora já não sabia mais o que fazer, entregava a decisiva questão aos pensamentos que lhe eram a única e fiel companhia de toda a vida. Talvez se Professorinha tivesse respondido com mais precisão àquelas perguntas ele seria rápido a chegar numa conclusão certeira. Entretanto, nessa argüição as normas não são propostas, nem expostas na lousa, cada um procura adaptar-se às suas provações quotidianas: o que fazer da vida com a termoquímica? – quiçá se Professorinha me tivesse lecionado...

Sobre a obra

Zé Breu é símbolo dos sentimentos contemporâneos, ele absorve todas as escolhas, pensamentos, dúvidas, riscos e crises. Possui uma angústia inerente à ausência de visão de mundo por parte da sociedade em que vive. Zé Breu é produto de si e é produto do meio.

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Autoria
Sérgio Pessoa Ferro
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Eliana Pontes · Florianópolis, SC 23/9/2009 13:56
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