Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O Quinto Elemento

1
LuiSouza · Rio de Janeiro, RJ
19/5/2008 · 91 · 5
 

Aqui em casa agora, como todos já sabem, temos um lindo cachorrinho. O nome dele é Zé. É uma graça. O veterinário nos orientou que o condicionássemos através de prêmios e broncas para ensiná-lo a sujar apenas no jornal. Disse, também, que deveríamos deixá-lo dormir à noite sozinho para não acostuma-lo mal. Quando precisarmos ir a uma festa e deixa-lo só, por exemplo, ele já estará acostumado. Ensinou uma série de outras coisas também. Entretanto, vou apenas contar como foi nossa primeira noite ensinando-o a ficar sozinho. Peço que não reparem e eu errar algumas concordâncias ou pular palavras, pois ainda estou sob efeito de calmantes.

Tudo começou de madrugada – duas da matina. O cãozinho percebeu que todos não estavam mais na sala e a porta do corredor que a separa dos quartos estava fechada. O início foi tímido; um chorinho de cachorrinho solitário.. Coitadinho. Partia nosso coração lá dentro do quarto. Porém tínhamos combinado de não socorre-lo de jeito algum. Uma hora ele iria cansar.

2:15 – O som já não é tão baixo. Ele é ininterrupto. Algo assim como uma pequena tortura chinesa em nossos ouvidos. Mas estamos decididos: uma hora ele cansa.

2:30 – Acho que o vizinho acendeu a luz. O som está mais para grunhido do que choro de cachorro. Estou com 2 travesseiros na cabeça. O animalzinho tem um fôlego desgraçado e não para. A tortura já está quase insuportável. Mas estamos decididos. Uma hora ele cansa.

2:45 – Esse animal já está me tirando do sério. O grunhido agora é equivalente a de um javali adulto após tomar uma mordida no saco de uma onça. Acrescentei um edredom ao volume que cobre meus ouvidos. O filho da mãe não pára e eu estou começando a sentir o que o Roberto Jéferson sentiu pelo José Dirceu em seu depoimento no congresso: “V.Exc. me remete ao meus instintos mais primitivos.” Eu e Thaís nos conformamos. Uma hora ele cansa.

3:00 – O veadinho não cansa. Pelo contrário, ele está aumentando o volume. Acho que ligou meu amplificador de guitarra que esqueci nasala e o virou em direção aos quartos. Ele é profissional. Meus instintos primitivos começam a aflorar. Imagino-me abrindo a porta e dando uma bicanca no focinho do desgraçado, ele voando até a parede oposta e desmaiando ao bater nela. O problema é pedir à Renilda para limpar as marcas de sangue na parede no dia seguinte. Não. Esquece. Deve ser o sono. Dirijo-me à Thaís:
- Como pode um animalzinho desse tamanhinho fazer tanto barulho?
- Calma Luís, uma hora ele cansa.

3:15 – Não sei se estou num pesadelo. Meus instintos primitivos estão me causando alucinações. Vejo-me fazendo pinturas rupestres. Pinto um cão numa caverna com a cara do Zé. Ele é enorme. Desperto. O puto não para. Começo a arquitetar um plano: vou devagarzinho até a sala, sem ninguém me ver, abro a porta e cubro o filho da puta de porrada. Não.. não é um bom plano. Não posso deixar pistas. Melhor seria pegar a máscara verde do Frankestin do meu filho, vesti-la e abrir a porta bruscamente, com a cara na altura do chão e assusta-lo com um berro. De repente, o animalzinho insuportável morre de enfarte. Não.. Também não. O berro me denunciaria. Melhor: vou até lá, pego ele no colo e, sem querer, inocentemente, quebro o pescocinho dele. Posso por a culpa na Manuela. Ela vive com ele no colo. Não! Chega! Já estou com o Miguel por cima do Edredon e dos travesseiros e o canalha não para de uivar. Acho que vai virar lobisomem. A que horas ele vai cansar?

3:30 – Não paro de pensar no veterinário. Já decidi. Amanhã vou lá na clínica ensaboar uns tapas na cara daquele doutorzinho de merda. Ai, meu deus... esse instinto primitivo não para de aflorar. Já não tem mais um cachorro na minha sala. Pela mistura de sons, concluí que é um urso de 3 metros. Um não; vários. É uma festa de ursos na minha casa. Antes do referendo das armas, preciso dar um tiro na cara desse cão-marginal. Acho que ele só vai cansar amanhã.

3:45 – Acordei de um cochilo com o som do “big bang”. Esse meu instinto primitivo já está está me fazendo contar dinossauros para dormir. A festa dos ursos continua na minha sala. O vizinho já fuma um cigarro na janela e acho que ele começou a fumar hoje, neste momento. Deve estar pensando: “pô, o cara já tem 4 filhos esporrentos que tocam o maior rebu de dia e me arruma um 5º elemento para me atazanar à noite. Quer que eu fique 24 horas no ar”. O pulguento não para. Estou em dúvida se dei ração ou pilhas duracel para ele. Opa!! Acho que ele deu uma diminuída. Ou será que estou ficando surdo?

4:00 – Os atiradores de elite já estão localizados notelhado em frente ao meu. Ouço helicópteros sobrevoando minha rua. Todos os cães da Tijuca estão uivando em solidariedade ao meu cãozinho carente-safado. O veterinário está na minha porta com um mandato de busca e apreensão emitido pela sociedade protetora dos cãezinhos uivadores noturnos. Opa!.... era só um cochilo. O veadinho finalmente foi deitar, ou desmaiou...sei lá. O vizinho apagou a luz. Daqui a duas horas meu despertador vai tocar. Não decidi ainda a maneira como vou matar esse cão quando clarear. A Thaís tinha razão... ele cansou.


Sobre a obra

Tudo começou de madrugada – duas da matina. O cãozinho percebeu que todos não estavam mais na sala e a porta do corredor que a separa dos quartos estava fechada. O início foi tímido; um chorinho de cachorrinho solitário.. Coitadinho. Partia nosso coração lá dentro do quarto. Porém tínhamos combinado de não socorre-lo de jeito algum. Uma hora ele iria cansar.

compartilhe



informações

Autoria
Lui Souza
Ficha técnica
Uma crônica de costumes de uma família classe média, seus filhos e seu bicho de estimação.
Downloads
159 downloads

comentários feed

+ comentar
Ailuj
 

Abrindo seus votos

Ailuj · Niterói, RJ 17/5/2008 18:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
clara arruda
 

Sou apaixonada por contos.deixo meu carinho e votos.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 19/5/2008 14:29
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cristiano Melo
 

Bom, com meus votos encerra-se a votação, quero registrar que: passei pelo mesmo estado perceptório de cochilos com um cão de nome Zé e sua irmã de ninhada a Chica, que ainda crio comigo, e, se prepare, não cabará tão cedo...dei boas gargalhadas. Bom desabafo. abrAUços.

Cristiano Melo · Brasília, DF 19/5/2008 18:18
sua opinião: subir
Ana Camelo
 

Ri muito!!!!!!

Ana Camelo · Santo Antônio de Pádua, RJ 20/5/2008 14:41
sua opinião: subir
fatima queiroz
 

Muito bom!

fatima queiroz · Santos, SP 22/5/2008 03:03
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 5 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados