Havia na Escola Modelo uma cerca metálica, nova em folha como tudo naquela construção moderna e acolhedora.
Fora da cerca, ao lado da Escola, havia um terreno baldio. Ali, todo o bairro lançava o seu lixo, num mal ajambrado monturo de tudo quanto é coisa que sobra ou apodrece ou que acondiciona coisas que as pessoas usam antes de apodrecer. Lixo humano, insano em suma.
Em torno do terreno baldio, a miserável vida do bairro: Aqui, os enferrujados brinquedos de um mafuá fazendo às vezes de parquinho de diversões. Ali, a birosca imunda vendendo cachaça falsa e bugingangas sem nenhum valor. Atrás de paredes pichadas, o quartel-general dos traficantes de drogas, os ‘novos ricos’ do lugar.
Acolá a panorâmica imagem marcada pelo alaranjado sujo dos tijolos, de um aglomerado disforme de velhas construções inacabadas.
Afora as pessoas desvalidas, a fauna local era bem modesta: Ratos, vira-latas e urubus. Alguns pássaros talvez, nada muito além, contudo, do que esfaimados e cinzentos pardais.
A Escola Modelo era por isto mesmo, o território livre, incólume, onde se construiria com e para as crianças, o conhecimento de toda a realidade externa e as formas definitivas de transformá-la em algo, pelo menos, um pouco melhor.
'_Olha o Construtivismo aí, gente!'_ Diriam os orgulhosos idealizadores de tão humanista, quiçá socialista proposta educacional.
O lírio floresceria no lodo. Esta era a idéia básica da coisa, o programa do sonho.
Como todo organismo vivo porém, a Escola também produzia dejetos. Os funcionários, zelosos, velhos habitantes daquela mal construída comunidade externa, por hábitos culturais já enraizados, acharam por bem lançar o lixo daquela imaculada Escola, no terreno baldio ao lado. Não seriam os excrementos, tudo aquilo que não nos servindo mais, tem que ser expelido para fora de nós mesmos, a qualquer custo?
Fosse ou não fosse, não possuíam nenhuma solução melhor à vista. A prefeitura local já demonstrara, em repetidas gestões temerárias, ser completamente incapaz de recolher os detritos do bairro.
Afinal, sendo já os próprios bairros dejetos dos bairros ricos da grande cidade, como seria possível recolher tudo? Casas-dejetos, Pessoas-dejetos, tudo lançado no terreno baldio ao lado, no monturo infecto do lixão-Brasil, metáfora literalmente impressa naquela paisagem de magricelas e carecas árvores empoeiradas.
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Foi quando num destes dias apareceu um rato. Nos outros dias também.
Como quem não quer nada, a família do rato começou a habitar ali, ao lado da cerca metálica, a fronteira entre o ideal renovador da Escola e o caos do monturo de lixo lançado pela mesma Escola.
Arisco, o rato observava a movimentação das crianças no pátio, a severidade dos professores e funcionários nas rampas, o cansaço das cozinheiras no refeitório. O olfato agudo lhe ensinava a hora do almoço, do lanche e do jantar. Definia assim a carga horária de sua espera pelo lançamento dos dejetos, entre os quais os noturnos eram os mais ansiados, por causa da tranqüilidade enorme que poderia desfrutar na hora de digeri-los. Paz de rato saciado, sem o estresse absoluto do dia, breve justiça a eles, feita pela natureza, enfim.
Foi assim, animado pelos bons augúrios de sua estada por ali que, na noite seguinte, com os olhinhos arregalados de emoção e pavor, ele cavou sob a grade da Escola a passagem vestibular magnífica.
Paralisado por instantes, mirou sorrindo a dimensão enorme de sua ousadia:
Havia ingressado numa Escola Modelo!
(Continua no DOWNLOAD)
Cíntia,
'Rebrota'? Como assim? É um comentário botânico? Desculpe, mas, esta eu não entendi.
Muito bom Spirito. Você me fez lembrar um texto que li há algum tempo, sobre a formação das periferias, os vazios urbanos, a deteriorização dos centros urbanos, a especulação imobiliaria, os interesses que manipulam a formação das cidades, enfim... Seu texto é digno de ser estudado nas aulas de sociologia, arquitetura, e afins.
Parabéns!
...
no pós construtivismo, o destrutivismo organizado a partir do foco insidioso e solerte espraiou-se no entorno formando uma zona liberada da influência ideológica e racial humana... em armas, que eram tão somente as de reprodução em massa, muito superiores a dos bípedes, já travavam combates ferrenhos e acirrados nos limites das planícies ao Sul, alguns tocaiando nas areias escaldantes de deserto formado de areias, guarda-sóis, esteiras, tênis, roupas de jogging, cadeiras de praia, cocos (tônica no primeiro ó) sem água, cocos também secos (tônica no último ó) em geral, latinhas de cerveja e refrigerantes e garrafinhas PET desovadas pelos extintos banhistas e turistas que, ou caíram ante os massivos raids dos ratos ou fugaram do local homiziando-se em matas próximas.
A última informação desde a Zona Liberada da SIRBC do B (uma fração da organização originária rompida por influência de uma diferença sobre a tática de ampliação da reprodução com vistas à hegemonia local ou planetária) era, como mostram as imagens, as tropas de ratazanas (a direção da SIRBC do B era toda de fêmeas) perfiladas à Beira-mar no aguardo do desembarque de mariners prometido em apoio à causa da resistência pequeno-burguesa humanóide, que também involuíra em subraça da Humana Conservadora Radical, após a destruição completa da Humana Liberal Popular e Progressista, antes chefiada por Abano Borak. Ratos dos navios emitiram comunicado informando do pretendido ataque surpresa.
Mais detalhes, ao vivo, com nossa repórter Roma Ruça...
- Que horror, os ratos roeram a roupa de Roma Ruça...
Bem posto Spírito. Estimulante (além de nauseabundo) retrato social.
Vou já esconder isso - que beira ao niilismo - das minhas netas.
Um abraço, camarada.
Fora ratos!
Venceremos!
Adro,
...E que Alá, o misericordioso, nos proteja, inshalá!
Não quero ser pessimista, meu camarada, mas Tutátis já demonstro antes e durante o Carnaval que despejará, sim, os céus sobre nos cabeças. Se Belisama se unir em vontade a ele, talvez sequer a poção mágica dos druídas nos seja bálsamo. Ainda assim, cumpre que andemos à frente, porque não cabe a poetas, profetas e avôs, desestimularem os mais novos, mesmo que críticos que devam ser das circunstâncias, até para animar a moçada a nos ajudar naquelas tarefas de Sísifo, para escaparmos das agonias de Prometeu, embora a Fênix nos indique algumas pistas dos caminhos, que haviam sido marcado por João e Maria nauela outra empreitada deles contra o mal.
Vai uma salada de frutas, aí? Já nos disseste, lá, o que pensas de Machado de Assis?
Já o disse sim, euzinho, acerca do que penso do grande Machado. Fiquemos então com a graça de Odin, o Viking ((na caça de um Deus estranho e, logo, não envolvido ainda em falcatruas), ó grande Adro.
Odin que nos guarde!
Spiritosantix e Bauerix, vocês são bons de comentários!
Abraços,
Felipe
Ora por tutatis!
O que dizer então de vós, ó Obrerix?
E eu não tinha visto este. um abraço, andre.
Andre Pessego · São Paulo, SP 13/3/2008 06:31
Valeu André,
Sempre grata a sua presença.
Abs
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