“ O Relógio...
“... Era a terceira vez em que eu visitava a sua casa.
Ao entrarmos ela acendeu as luzes da sala que foi imediatamente tomada por uma claridade vertiginosa.
Tudo estava como ela havia deixado pela manhã ao sair para o trabalho.
A casa exalava o inebriante perfume que era a sua marca registrada,
Ela me olhou me deu um sorriso e entrou na cozinha e eu a segui.
Na pia uma xícara de café que estava pela metade impresso na sua borda uma marca de batom,
Pelo aspecto em que a cozinha se encontrava dava a súbita impressão que ela havia acordado tarde e apressada deixou tudo para traz do jeito que lá se estava.
Uma xícara com marca de batom e um pratinho com um pedaço de torrada.
Ela me ofereceu água eu aceitei e enquanto sorvia a água passeia a observar os detalhes da cozinha, a decoração, as panelas dispostas numa bem arrumada simetria, os imãs de geladeira com figuras das mais diversas.
Um estava prendendo um lembrete e um outro, um recorte de revista que me parecia uma dieta.Com o copo na boca a observar por sobre o vidro do mesmo percorrendo com os olhos a bem montada cozinha do seu apartamento,
Olhava as paredes e no canto superior daquele templo a gastronomia algo me chamou atenção! Estava lá um Relógio estrategicamente colocado de forma que onde quer que você fosse naquela cozinha, por ele era observado.
A presença dele imperava no ambiente,
Austero, era a própria imagem do soberano detentor do tempo.
Que dita as horas para o seu reino e mantém todos sempre informados que o tempo urge, mantendo ela sob seu julgo a apressando sempre para seus compromissos, determinando a ela que é imperativo ser pontual fazendo com que ela quando atrasada para ir para o trabalho deixe café na xícara e torradas no prato.
À noite ele conta as suas horas de solidão enquanto ela esquenta a janta.
Fui pego de surpresa ao observar o Relógio mais de perto fiquei perplexo ao ver que ele não representava mais o que ostentava ser,
“O Senhor do Tempo”!
Ele não mais ditava regras sobre as rígidas normas que este mundo globalizado nos força a ter.
Um dia todo voltado para cada segundo contempla-lo, a fim de que estejamos sempre em sintonia com o tempo.
Ele estava parado!
Sim! Pasmem!
Parado!
A posição dos ponteiros era muito interessante, um desenho bastante intrigante.
Ele marcava precisamente dezenove minutos para as quatro ou quinze horas, trinta e nove minutos, quarenta e sete segundos.
Pois é, ainda tinha o detalhe do ponteiro dos segundos, que marcava que faltavam treze segundos para um novo minuto? Uma nova história? Ou quarenta e sete segundos de um novo momento em velhos tempos?
E as horas? Três horas de uma Madrugada e um pouco de minutos?
Para o quê?
Quinze horas de um tempo em que nada pudesse existir?
Quarenta e sete segundos de um eterno instante?
Treze segundos para um novo minuto?
Minuto que não fora completado e talvez tragicamente interrompido?
Perguntas sem respostas e indagações que só eles poderiam responder e que passou a aguçar a minha curiosidade.
Uma Mulher!
Um Relógio !
O Tempo!
O quê os dois teriam em comum?
Saímos da cozinha e fomos para a sala e ela com a sua exuberante beleza me olhava no fundo da alma, mas a imagem daquele relógio parado não saia da minha cabeça.
Ela falava sobre o trabalho e coisas que haviam acontecido naquele dia com ela.
Eu já nem escutava o que ela falava o que me fascinava era querer saber como foi aquele dia?
O dia em que o Relógio Parou!
Será que foi uma tarde feliz?
Uma madrugada agradável onde a sua cama estava aquecida?
Madrugada em que seu corpo entregue estava a uma orgia carnal?
Tarde em que sua carne tremula em brasa queimava entre lençóis nos braços de alguém que a fazia se sentir Mulher, a sonhar deixando a sua flor orvalhada?
Três horas de uma agonia sem precedentes ante os prazeres carnais?
Dezenove minutos para quatro horas de solidão, que por ele (O Relógio), era rigidamente registrada? Trinta e nove minutos de uma busca incessante pelo profundo gozo?
Em que ala masturbava-se em sua cama em meio a solidão
Faltando treze segundos para completarem suas quatro horas de espera e agonia, para atingir seu gozo pleno?
Treze segundos finais em que só as batidas do coração são sentidas através da pulsação de todo o corpo no momento do gozo entre espasmos, carnes tremulas e respiração ofegante.
A visão do relógio parado no tempo e no espaço em meio a toda aquela sofisticação da sua cozinha em que tudo fora pensado para está onde estava detalhes milimetricamente planejados para que ela fosse elegante e prática, seguindo o lema dos novos tempos “Praticidade Acima de Tudo!
O relógio, Ela, Eu.
Estávamos num tempo totalmente fora da ordem.
Eu queria muito mais que ver o designer da cozinha,
Ela por sua vez estava em busca de muito mais que a noite jantar sozinha na companhia de um relógio parado.
E o relógio estava a espera de alguém que pudesse dar a ele a vida de novo, Alguém que tomasse a iniciativa de coloca-lo novamente a cumprir suas funções e obrigações.
Fazendo com que tudo voltasse ao normal,
Eu e Ela em busca de volúpias e aventuras na alcova e ele a fazer encontros e desencontros com os seus ponteiros.
Era uma terceira vez!
Em que ela me olhava com olhar de pidona.
Em que eu estava doido para levá-la pra cama,
E uma terceira chance para ele voltar ao tempo.
Dezenove minutos para uma nova vida,
Quinze horas de amor no seu quarto perfumado.
Três horas de uma orgia sem fim a serem marcadas por uma nova posição nos ponteiros do relógio e no quarto.
Treze segundos para ela me beijar.
Antes do nosso primeiro minuto intimo.
Mas enquanto eu maquinava meus sonhos e devaneios, despertei num susto com ela me perguntar com a xícara na mão.
Açúcar ou adoçante?...”
(O Relógio, by Carlos Venttura)
Um Conto emocionante!
Devaneiod que vão longe, muito longe...
Doces, não são? Preferiu o açúcar ou o adoçante?
Muito bom o que escreveste
Travei o relógio do tempo para ler com calma
Um abraço
mochiaro
Grato,
Meus nobres colegas!
O Relogio é ....
Rzssssssssss.
Este trabalho ganha vida através da sua concepção.
Um abraço.
Que a luz esteja com vocês.
Maravilha de conto, Carlos!
Depois volto para votar.
Estou em votação como meu Soneto da esperança.
Dá uma olhada: http://www.overmundo.com.br/banco/soneto-da-esperanca
Ola Carlos
Meu amigo - vejo - com prazer e orgulho, que você é assim do tipo "faz tudo"... Canta, toca, escreve, sente... E tudo isso, a favor do tempo, qual demonstra este Tempus Fugit com a aparencia humana de quem usa o tempo sem tempo...
Gostei muito.
Voltarei para votar.
Abs
GaMitto
Carlos
Que conto bem escrito
O relogio, muitas vezes é noso carcereiro
mas este estava parado, razão pela qual ( talvez)
o amor tivesse todo o tempo do mundo
E não é assim que devia ser?
bjs
bjs
Muito bom o final. A ilustração também é excelente!
Isabel Furini · Curitiba, PR 20/4/2009 17:05
Se pudéssemos parar o relógio do tempo. Se aprendêssemos não ficar parados com medo dos sabores e cores que a vida tem a nos oferecer... Viver valorizando cada segundo, saboreando-o como vinho, vivendo cada momento com intensidade e audácia. Se pudéssemos... Se pudéssemos... E podemos! E queremos. Mas quantas vezes ficamos paralisados como o relógio do Carlos Venttura?
Se este relógio voltasse a bater, o que nos diria? “Viva este momento, ele não volta nunca mais”. Never more.
Açúcar ou adoçante?...” Nem um nem outro, Carlos: prefira a Mulher de perfume inebriante. Certamente foi o que fez.
Quanta elocubração em torno de um relógio parado! Não ocorreu que ele pode ter parado, simplesmente porque acabou a pilha? O fato é que você estava com "maus" pensamentos.
Votado, claro.
,Ivette G M
o tempo é singular... Adoçante, por favor!
Morgana Pessôa · Araruama, RJ 21/4/2009 22:34
Olá, Carlos, parabéns!
Gostei de teu conto... muito forte!
Já tens o meu voto!
Peço-lhe que vejas o meu poema: "A quem dirige o Poeta seu cantar..."
Abraços,
João Carlos
Muito boa sua narrativa; de encantar a Cronos - parabéns!
E meus votos.
Carlos,
Votado e publicado.
Adorei a maneira simples e clara com que escrevestes.
Parabéns.
Bjs
Obrigado a todos vocês!
Que a luz esteja com vocês
Que parada estratégica heim!
Já que o Tempo nos tem, que cuide de acertar nossos ponteiros e de dar a cada miléssimo de segundo o valor da hora exata de ser feliz.
Adorei te ler. Abraço
Olá, Carlos! Que história original... trama bem feita, adorei e votei.
Na minha casa, é diferente; tem um quadro com a cabeça de Cristo,
com um olhar impressionante... segue a gente de qualquer ângulo.
Dopo, tem un véchio me esperando... pra dormir... hehehe, mas nem sempre... estou na fila de edição, dá uma conferida...
http://www.overmundo.com.br/banco/gaucho-bom
Baci da Mamma
Muito bom, gostei do trocadilho, da inversão entre o tempo e a tulidade entre tantas horas, sem nada; e 15 segundos que nunca acabariam
abraço
andre.
Como o relógio daqui não para tive que ser mais veloz que ele para ler seu texto e deixar minha admiração em mais um belo trabalho. Abraçosss
delen · Cotia, SP 24/4/2009 14:00vamos ficar de horas marcadas. há !!para nos emcontramos. bjs
mácia sousa · Lauro de Freitas, BA 24/4/2009 21:43Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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