O RELÓGIO

1
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
22/4/2010 · 7 · 3
 

- E aí, vai querer ou não ?

O homem, com um aperto no coração, tenta decidir se valia a pena deixar o velho relógio alemão na loja. Era um carrilhão de 1895 com caixa de música, quase dois metros de altura e estrutura de madeira marrom totalmente trabalhada. Os entalhes eram tão minuciosos que o homem mais de uma vez se pegara parado, em frente a ele, tentando identificar todas as formas que ganhavam vida na madeira morta. E a cantiga que dele saía ? Sim, a partir daí descobrira que os alemães não só entoavam canções belicistas, mas também eram capazes de criar singelas melodias que, apesar da simplicidade dos acordes, jamais enfastiariam um ouvido romântico. Fora adquirido em outras épocas, há mais de trinta e cinco anos, quando dinheiro não era problema, e ele se permitia a compra de inúmeros bens de alto valor. Alguns úteis, outros nem tanto. Mas todos fazendo parte de seu universo, de seu mundo particular formado de coisas e objetos sofisticados.

- Olha, não sei se o senhor entendeu. É alemão. De mil, oitocentos e noventa e cinco - antes da guerra. Da primeira, compreendeu ?
- O senhor já falou duas vezes ...
- Mas uma relíquia dessas, e vale só isso ?
- É pegar ou largar. O senhor pode consultar outras lojas também. Nós vivemos de comprar e vender, temos que ter o nosso lucro. Além disso, quem garante que eu consigo fácil um comprador ?

Ele pensa no relógio com carinho. Imagina-se olhando-o de frente, talvez esperando um toque, um sinal que decidisse por ele o destino da peça. O homem mais uma vez contou a história do relógio: não era de série, foi feito por encomenda para um nobre alemão. Com o final da Primeira Guerra, acabou nas mãos de um burocrata russo. Entretanto, com a invasão alemã no segundo conflito, ele retorna a sua pátria. Mas por pouco tempo: foi embarcado em um navio mercante em seguida, sendo atingido por aviões ingleses. Naufragara bem próximo à costa holandesa, sendo rapidamente saqueado. No desembarque, uma das cordas arrebentou, e a caixa que continha o relógio quase caiu no mar, sendo amparada na amurada da embarcação. Por isso a marca que possuía em uma de suas colunas, que o homem jamais teve coragem de restaurar. A partir daí, a peça passou por diversas mãos, até vir ao novo mundo e chegar na ampla loja de antiguidades e instrumentos da galeria. Provavelmente, essa história toda era apenas conversa fiada para valorizá-la e justificar a pancada. Mas o homem que a estava tentando vender, trinta e cinco anos depois, acreditava piamente nela.

- Quando comprei esse relógio, negociei com o proprietário anterior aqui mesmo nesse balcão. Paguei os olhos da cara. Lembro como se fosse hoje.
- Olha, provavelmente não foi nesse balcão, pois eu estou aqui já faz vinte anos e reformei a loja duas vezes. E o antigo dono tinha fama de vender tudo muito, muito caro. Lembro quando cheguei, viviam reclamando dele. Talvez por isso tenha falido. De qualquer forma, o senhor tem que entender o seguinte: os tempos mudaram, a realidade é outra. Isso aqui é uma loja de antiguidades, é normal que todo mundo que vem aqui oferecer alguma coisa tenha uma história dessas pra contar. Se o senhor quiser, posso deixar em consignação. A gente combina um preço, eu fico com quarenta por cento. Mas aí não tenho como te adiantar nada. Pode demorar um dia ou um ano, é imprevisível. Vendeu, vendeu. Não vendeu, um abraço. E parece que o senhor precisa do dinheiro com urgência, não é mesmo ? E tem outra coisa ainda... desculpa eu me intrometer, mas o senhor disse que tá morando num conjugado no cento e vinte e cinco, não é mesmo ? Bom, eu não tenho nada com isso, mas um objeto como esse se estragando lá ... Vai valer cada vez menos, entendeu ? Olha só o que a umidade tá fazendo aqui. – diz o negociante, enquanto aponta na antiguidade uma área manchada.

O homem fecha os olhos por instantes, e parece retornar mais de três décadas no passado.

- Amor, que coisa mais linda !
- Você achou bonito ?
- É maravilhoso, não é mesmo ?
- Então é seu !
- Que isso, amor, eu não queria que você ... oh, deve custar uma fortuna !
- Você não tem preço ! Se é pra te fazer feliz ...

Em seguida, recorda dos anos felizes – pelo menos, ele os sentiu assim – que passara com a jovem mulher. Ela era uma garçonete, uma garçonete simpática e especial do bar que o homem possuíra – um de seus inúmeros empreendimentos. Tudo aconteceu muito rápido: a traição dos sócios, a falência, a perda de todos os bens ... e como que num golpe de misericórdia, o abandono da mulher amada. Quase a história de Jó, mas sem compensações, recomeços ou final feliz. Maldisse a decisão que tiveram de não ter filhos – ah, se ao menos tivesse uma só lembrança dela ... E o relógio ? Mas era apenas um objeto. E precisava do dinheiro.

- Escute, senhor, vamos ou não fechar o negócio ?

O homem sinaliza com a cabeça, enquanto procura disfarçar os olhos marejados. O comerciante prepara o cheque na hora. Não devia arriscar, ele poderia desistir. Estava acostumado, era assim mesmo com antiguidades. As pessoas se apegavam a elas e relutavam na hora de se desfazer. Como se vendessem um pedaço de si próprias. Uma parte da alma.


Sobre a obra

Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".

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André Calazans
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Cintia Thome
 

Interessante, vender não é fácil, realmente alguns objetos fazem parte da gente, é difícil mesmo desfazer das coisas que tem valor da vida, da estória..., pelo ínfimo dinheiro que dura tão pouco...

Cintia Thome · São Paulo, SP 24/4/2010 19:34
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C.E.P
 

belo conto.

C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2010 23:37
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Sihmoneh Maia
 

O lance do conto é ocupar seu limitado espaço (enquanto rótulo) e ali expressar o máximo, ser conciso, fazê-lo fluir quase que em total liberdade, porém controlando-o, ainda que ele insista em seguir outro rumo. O escritor muitas vezes se deixa levar pela história sem se dar conta de que posui um certo controle sobre ela.
Além disso, há de se embutir alguma beleza, uma mensagem genuína (ainda que seja ficção, mas ainda assim tem o EU do escritor ali, se colocando no lugar dos personagens e tal) e há de ter também harmonia e a mágica secreta (segredo de cada escritor) para prender o leitor.
Falei demais, eu sei. Mas tudo isso tem a ver com teu conto, que soma todas essas condições. Parabéns!
Sinta-se à vontade para visitar meu perfil e conhecer meu trabalho.

Sihmoneh Maia · Santo André, SP 13/3/2011 16:21
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